quarta-feira, 22 de julho de 2015

Afinal, o Que Quer a Novinha Avistada no Grau?




Não sou um profundo conhecedor de funks, em especial os que trazem algum tipo de obscenidade explícita, como o que o título da coluna de hoje se refere. Só tomei conhecimento dele quando houve aqueles três dias de estouro do Dubsmash: pipocaram alguns vídeos, não menos obscenos do que a letra, para a dublagem amadora à qual o aplicativo se propõe. Uma delas, inclusive, foi motivo para um assassinato: um homem filmado transando no celular de sua parceira foi encontrado morto, aparentemente porque ela seria casada e seu pai não gostou da exposição de sua figura na internet.

Não precisa conhecer a fundo as letras de funks com obscenidades para saber que a grande maioria é permeada por machismo; mesmo aquelas que se travestem de humor desinteressado ou de manifesto girl power. E se fazem tanto sucesso, principalmente nas camadas mais populares do país (essas, sim, o verdadeiro retrato do nosso país, não as que ouvem Caetano ou Lenine), é porque é uma realidade nossa. Tão real quando uma “novinha” que pode ter ficado “no grau” e ter sido avistada por alguém.

Afinal, sabe o que ela quer?
  • Ela pode querer o tal “pau” que a música sugere (pra ficar mais digno pro texto, vamos chamar de “falo” ou “pênis”, ok, audiência?). É um direito da mulher estar doida pra fazer sexo, assim como o do homem. Ela pode querer um falo bem grande, um normal, um pequeno; um torto, um reto; um fino ou um grosso. Mas, atenção: quem vai decidir isso é ELA, exclusivamente ELA. Ninguém mais. Muito menos o dono do falo em questão. E o fato de ela estar “no grau”, ou seja, alterada, não é fator legítimo para a decisão sobre isso passar para outra pessoa.
  • Ela pode querer uma outra mulher. Sim, o mundo não gira em torno do pênis – pelo menos não deveria (como eu mesmo já tratei em uma das minhas primeiras colunas aqui no Barba Feita, sobre Falocracia). Não falta um falo para realizar uma mulher; se ela quiser sexo, pode naturalmente se sentir atraída por alguém do mesmo gênero e ser muito bem atendida em seus prazeres por outra mulher.
  • Ela pode querer tomar um sorvete; ou comer uma pizza; ou plantar bananeira.
  • Ela pode querer estudar Foucault, Nietzche ou McLuhan. Ou ler Lygia Fagundes Telles ou uma revistinha da Mônica.
  • Ela pode querer ouvir Maysa. Ou Valeska Popozuda.
  • Ela pode querer ir para casa e fazer nada.
  • Ela pode querer simplesmente ficar bêbada.
Isso não vale somente para mulheres nessa condição, mas, sim, em qualquer situação. Infelizmente, ainda ouvimos a cada dia agressões gratuitas a mulheres simplesmente por elas serem... do sexo feminino. Não estou aqui sequer contabilizando as agressões físicas, somente as verbais/morais. Li recentemente um relato de uma corredora em um desses grupos fechados do Facebook que, depois de um treino extenuante, resolveu voltar a pé caminhando suada por uma rua com alto tráfego de carros até sua casa. E o que ela ouviu foi um incontável número de buzinadas e cantadas baratas e chulas; muitas das vezes seguidas de xingamentos de “piranha” e “vagabunda” diante da recusa em sequer olhar para os homens que se dirigiam a ela. Isso sem contar o medo de um assédio verbal poder se transformar em um estupro.

Também não são poucas as histórias que lemos nas redes sociais de assédios em transportes coletivos, nas quais as mulheres têm que tratar como normais homens que colocam o seu pênis pra fora e as mandam chupar (aconteceu com alguém da minha família...); ou que encostam sua ereção em braços e pernas de mulheres sentadas enquanto viajam em pé, às vezes, até a ejaculação; ou que ameaçam com algum tipo de arma e a ordenam ficarem quietas até descerem juntos como conhecidos e ele a levar para um local ermo e a violentar.

Até quando isso acontecerá, sinceramente, não sei. A todo momento lembro que tenho uma mãe, uma irmã, uma sobrinha; primas, tias e amigas queridas nesse mundo em que, infelizmente, há milênios a mulher é vista apenas como uma costela do homem; este, sim, a criação original divina. Peço sempre para que não sejam vítimas, pelo menos da forma mais física e agressiva, desse machismo já tão arraigado e tratado como inato de nossa espécie.

Independentemente de ser novinha, velhinha, no grau ou sóbria, o que ela quer é ser respeitada. Somente isso.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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