terça-feira, 7 de julho de 2015

As Asas de Ícaro




A maioria das mulheres acharia estranho quando o primeiro desejo do marido ao sair da igreja, no dia do casamento, é ir ao cemitério. Mas, felizmente, Eva não é como a maioria das mulheres. Felizmente. 

Eu sei, faz um ano que eu não venho aqui, não é, velho? É que... Não dava mais, entende? Vir aqui, chorar em frente à sua lápide... Reclamar da vida não estava mais adiantando. Descontar nos outros não estava adiantando. Então, eu sumi. Me desculpe por isso, me desculpe. Eu não podia deixar de vir aqui hoje. Tinha que ser hoje, porque eu estava com saudades. Mesmo que você não me responda verbalmente, eu estava com saudades das nossas conversas. Seu velório foi lindo, o que é bizarro de se dizer, já que velórios antecedem o enterro das pessoas que amamos. Tinha tanta gente... A maioria apenas fingindo que se importava, fazendo média, é claro. Não faça essa cara, vai! Eu sei que, se estivesse vivo, estaria fazendo cara de quem pede pra eu não julgar as pessoas desse modo, mas você sabe que é verdade, velho. 

E também... vim aqui pra fazer as pazes com você, mãe. E pra pedir perdão. Eu sei que não foi sua culpa, eu sei que você não quis morrer. Ninguém quer morrer, certo? Droga, lá vou eu chorar outra vez... É que a falta que você me fez foi tão grande que... Eu sofri muito, sofri demais. Colocar a culpa em alguém era mais fácil. Colocar a culpa em você pareceu mais fácil. Mas eu sei que nada disso foi culpa sua. Eu sei que o seu desejo era estar com a gente, me ver crescer, me ajudar, me amparar... Eu sei de tudo isso. Me perdoe. Eu sei que você tentou, eu sei... 

Droga, como eu queria que vocês dois tivessem ido ao casamento... Foi tão bonito. Foi lindo, na verdade! Eva estava maravilhosa, maravilhosa... Eva é maravilhosa... Vocês duas se dariam muito bem. Já imaginei vocês na cozinha trocando receitas, cozinhando juntas; você contando histórias vergonhosas sobre a minha infância... Droga, que droga... Mas você não está aqui, isso não vai acontecer, e eu já aceitei. Eu consegui aceitar. Me perdoe, mãe... Por ser um filho tão... estúpido. 

Nós dois temos uma piada só nossa, de que somos dois desastres históricos. Eva, por ter dado ouvidos à serpente, e Ícaro, que desobedeceu seu pai e tentou alcançar o sol, com as asas frágeis. 

OK, eu vim falar sobre o casamento, por isso estou aqui, sentado nessa grama mal cuidada, debaixo desse céu nublado. Acho que vocês vão gostar. 

Eva, como eu já disse, estava maravilhosa. O vestido de manga curta, decote comportado, até porque ela é muito comportada, precisam ver. Mostrei pra ela o álbum de casamento de vocês, e mãe, ela amou o seu vestido. Mas achou que seria melhor usar um modelo diferente, não queria que eu olhasse pra ela e pensasse que estava casando com a minha mãe. Às vezes ela é meio sem noção, sabem? Mas que mulher... Os cabelos pra cima, do jeitinho que eu amo, e aquele sorriso... Muitos amigos dela estavam presentes, alguns meus, porque bem... eu fui um idiota com a maioria, mas consegui reatar algumas amizades nesse período. Até Ed, o barman estava lá, e adivinha só, pai: ele não se chama Ed! Se chama Matheus e sentia pena de mim porque o falecido pai era alcoólatra e morreu sozinho. Ele não pôde ajudar o pai, então resolveu me ajudar, ao perceber que eu frequentava muito o bar, e bebia demais... 

ENFIM, a igreja estava cheia, todo mundo bem vestido, todo mundo feliz. Jogaram arroz na gente, muita gente me cumprimentou. Até Lúcio estava lá. Pediu perdão pelo terrorismo que fez comigo ao dizer que eu tinha sido responsável pela sua morte, mãe... O cara chorou horrores. Tá, eu convidei ele, o que eu podia fazer? O infeliz ainda é meu irmão. Mas agora estamos acertados. Claro que eu não contei que tentei sabotá-lo no dia da prova, vamos manter isso entre nós três, ok? 

A cerimonialista estranhou quando eu pedi pra que Here Comes The Sun, da Nina Simone, fosse tocada quando saíssemos da igreja. Ela disse que seria ideal colocar essa música quando Eva entrasse, pra dizer que ela é o meu sol. Mas Eva não é o meu sol. Eva é o meu par de asas. Eva é o par de asas novas que eu ganhei, e com esse par de asas eu posso ir pra qualquer lugar, inclusive até o sol. 

Com Eva eu posso fazer qualquer coisa, qualquer coisa. Não vou dizer que foi ela quem me mudou, porque não foi. Ela apenas me ajudou a entender o que estava diante dos meus córneos o tempo todo: Toda aquela raiva, aquele ódio... Eu ia acabar morrendo sozinho. Vocês dois fizeram o favor de ir na minha frente, não é?! HAHAHAHA, é rir pra não chorar! Eu não queria morrer sozinho, sem amigos, sem ter com quem contar... Eva me ajudou a entender isso. Ela não me mudou, não disse que eu tinha que ser diferente, mas me mostrou as consequências de viver na ira, e de viver em paz consigo mesmo. Foi o que eu fiz, escolhi viver em paz comigo mesmo. 

Pode vir o sol que for, a tempestade que quiser, que nada destrói esse par de asas que eu ganhei. Eu a amo... Eu amo Eva, sabiam? EU AMO EVA! Eu amo essa mulher, como meu irmão ama o pênis do namorado. Ok, que ela não me ouça dizer isso, hein? Fica entre nós três também. 

Queria muito que vocês dois estivessem aqui para ver como eu estou agora... Queria que vissem o meu par de asas. Talvez eu não consiga voltar aqui. Nós estamos nos mudando pro Rio. Decidimos que precisamos de mais praia na nossa vida, e vamos nos mudar pra lá, até porque Eva adora aquela cidade. 

Eu posso não vir mais aqui, ou demorar a vir, mas estão vendo isso aqui no meu anelar esquerdo? Acertaram se pensaram que é a aliança de casamento do pai. Estamos usando as alianças de vocês. Eu queria carregar a essência de vocês pro resto da vida, e Eva, linda como sempre, aceitou, e achou uma honra poder usar a sua aliança, mãe. 

Bem, eu tenho que ir agora, vamos pra Fernando de Noronha passar a lua de mel. Foi lá que vocês passaram a de vocês, né? Nós vamos também. 

Deixe eu me levantar. Caso não consiga vir aqui, eu falo com vocês de lá mesmo, ok? Agora eu carrego vocês, não só na aliança, mas aqui no meu peito. 

Tchau, mãe. Tchau, pai.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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