terça-feira, 14 de julho de 2015

Como Se Conta Uma Mentira




Eu ando vendo muita gente mentindo. Pra mim, pro amigo, pra namorada, pro patrão, pra mãe, pai, papagaio, enfim, muita gente mentindo. Só essa semana já levei duas mentiras. E não me venha com esse papo de mentira pequena ou grande, porque isso não existe, mentira não tem tamanho. 

Agora, se tem uma coisa que me irrita tanto quanto o fato de a pessoa ter mentido pra mim, é a mentira ser mal contada, mal elaborada. Aí não, aí é abusar da minha inteligência, sério mesmo. Porque prova que a pessoa é muito estúpida e não sabe contar mentira direito. Então eu, Glauco Damasceno, vim aqui fazer um tutorial de como se conta uma mentira. Faz tempo que eu não conto uma, mas é que nem andar de bicicleta, a gente nunca esquece. Prontos? Caneta e papel na mão? Vamos lá!

Primeiro e mais importante de tudo: você precisa acreditar na mentira que vai contar. É sério, se você não acreditar que a mentira é verdade, todos os outros passos não vão servir pra nada, porque você já cagou tudo aí, logo no começo. Se vai falar que ta com enjoo, tem que mentalizar um enjoo ali; se vai dizer que ta com dor de cabeça, pensa na última dor de cabeça que teve e no tanto de remédio que teve que tomar; O lance é acreditar no que vai contar, sem isso você não consegue realizar os outros passos. O lance é acreditar, você precisa se convencer pra poder convencer quem quer que precise ser convencido.

Segundo passo: atuar é importante. Sim, uma coisa caminha junto com a outra. Vamos supor que... Ah, vamos supor que você vai chegar atrasado(a) pra um encontro de amigos que não quer ir, mas não soube como dizer não e quer se atrasar pra poder ficar menos tempo, aí você vai dizer que um parente ligou em cima da hora de sair, e esse parente fala muito. Você vai chegar levemente irritado(a), gesticulando, mentalizando o parente (passo um aí, ó), dizendo que fulano ou cicrana não parava de falar e você em pânico querendo sair logo. Tem que ter uma atuação aí, aja como se estivesse com raiva de alguém que te fez atrasar pra um compromisso que você realmente queria ir. Outro exemplo: Vai fingir um resfriado (não aconselho, muito na cara que é mentira, mas ok, vamos lá)? Dá umas tossidas, fungue bastante, mentalize o resfriado e manda a ver no áudio do Whatsapp.

Uma dica importante nesse lance da atuação: Assim como toda brincadeira tem um fundo de verdade, toda mentira é baseada em algum fato verídico. Eu, por exemplo, tenho rinite, sinusite e bronquite (sério), e a minha rinite, principalmente no inverno, ataca direto, e inesperadamente, aí eu tenho coriza, fico todo acabado, o que me obriga a tomar antialérgicos, descansar bastante e tal. E todo mundo sabe disso, vivo reclamando disso, então é um ponto a meu favor. “Ah, Glauco, vamos sair tal dia, tal hora?” “Ih, menina, eu bem queria, de verdade, mas minha rinite tá atacadíssima, tô com a cara cheia de antialérgico. Mas eu queria mesmo ir!!!” (em alguns casos eu já quis mesmo ir, mas fui sabotado de verdade). Entenderam? Ah, olhar nos olhos também é fundamental. Os olhos sempre dizem a verdade. Bom, nesse caso, a mentira. Vocês entenderam.

Terceiro passo: nada de redes sociais. Não dá, né? A pessoa fala: “Putz, não vai dar, tô cheio de coisa pra fazer aqui em casa!”, e meia hora depois surge uma foto no Instagram, a pessoa toda arrumada, na balada, no restaurante, no boteco, na puta que pariu, com mil hashtags na foto (os amigo comentando “top”, as amiga comentando “fiu fiu”, aquela coisa). Não dá, né? Então, não quer ir em tal lugar com tal galera, e tá afim de contar aquela mentira? Nada de redes sociais. Hoje em dia nem Linked In é confiável usar, porque quando o povo quer achar algo sobre alguém, o povo acha. Eu mesmo, dia desses, joguei o nome de um rapaz no Google e DEIXA PRA LÁ, vamos voltar aqui.

Quarto passo: tenha sempre um álibi. Ou dois. Ou quantos forem necessários. Poucas mentiras são fáceis de serem contadas sem álibis. Teve caso de eu usar uma pessoa como álibi e ela não fazer a menor ideia do que estava acontecendo, o que me ferrou, mas enfim, vida que segue. O álibi tem que ser extremamente confiável, não dá pra usar qualquer pessoa. Tem que ser aquela pessoa que se torna o seu álibi até quando você não avisa. Dica: Álibis gostam de recompensas. Recompensas mantém os álibis mais próximos. Pague uma rodada de cerveja, pizza com borda recheada, leve o álibi pra um rodízio de comida japonesa, esse tipo de coisa. Eu nem conto o que já tive que fazer pra manter álibi por perto, viu? (Não, não é nada disso que vocês estão pensando!)

E tem também uma outra dica que pode ser útil quando você não quiser sair com os amigos, ou transar com aquela pessoa do aplicativo, ou estiver afim de matar o encontro em família: contar a verdade. Eu prefiro, sabe? Já menti muito, gente, e é empolgante demais, emocionante demais você olhar nos olhos da pessoa e ver que ela tá caindo direitinho na sua história. Mas, com o tempo eu fui desenvolvendo uma consciência (uma merda, eu sei) e isso foi me deixando mal, então dizer que não quer ir, quando não se quer ir, é um alívio. Porque, sabem como é, mentira tem perna curta, sempre tem alguém pra ver e pra contar, e mesmo que não tenha, não se perde absolutamente nada contando a verdade.

MAS, caso alguém ainda tenha interesse em seguir contando mentirinhas que doem demais (beijos, Chiquititas), o tutorial ta aí. Boa sorte, e por favor, não sejam pegos. E se forem, azar de quem foi, eu bem que avisei.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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