sábado, 4 de julho de 2015

Ele Viu o Futuro Repetir o Passado



"Tudo é questão de obedecer ao instinto que o coração ensina a ter. Correr o risco, apostar num sonho de amor. O resto é sorte e azar."
No último final de semana, assisti em meio à uma impressionante multidão, ao espetáculo Cazuza - Pro Dia Nascer Feliz - O Musical. Foi tão lindo e tão emocionante, que o assunto de hoje não poderia ser outro senão esse. Assunto até bem oportuno, já que no próximo dia 07 de julho é o aniversário da morte do cantor, que nos deixou em 1990, há exatos 25 anos.

Em 1990 eu tinha nove anos e morava em uma casa sem televisão. Era a criança mais boba e ingênua que se pode imaginar, vivendo praticamente em uma redoma de vidro. Ouvia falar em Cazuza esporadicamente, mas sempre em referência à sua terrível doença. A imagem que eu tinha dele era a pior possível. As pouquíssimas vezes que ouvia meus pais falando algo sobre ele, era sempre algum comentário sobre o horror da doença que ele tinha e que era uma punição por ser alguém tão imundo.

Passei a associar Cazuza a algo terrivelmente ruim. Na cabeça de uma criança de sete anos, que era a idade que eu tinha quando o cantor começou a aparecer debilitado em rede nacional, qualquer coisa que os adultos diziam eram verdades absolutas, principalmente em se tratando dos próprios pais. Cazuza então, pra mim, era o nome de uma doença. A palavra AIDS não me assustava, o que me assustava era o nome Cazuza.

Conto nos dedos as vezes que vi a imagem de Cazuza pela televisão (do vizinho, claro). Uma vez, na novela Fera Radical, de 1988, em participação especial e a outra no Fantástico. Não lembro bem se era um clipe ou uma reportagem, mas lembro perfeitamente que ele estava caminhando no calçadão de alguma praia do Rio de Janeiro, acompanhado de um rapaz muito bonito, e o jeito que os dois se olhavam denunciava algo mais do que simples amizade. Essa cena ficou cristalizada na minha memória e despertou minha curiosidade sobre Cazuza. Ali eu entendi que ele era um cantor diferente dos outros. Nessa época, também fazia sucesso a música Faz Parte do Meu Show, que tocava na trilha-sonora de Vale Tudo, uma novela tão icônica, que mesmo sem ter televisão em casa, dava-se um jeito de assistí-la.

Apesar de achar a música bonita, eu tinha certo preconceito em escutá-la, afinal, era Cazuza que cantava, aquela pessoa doente, deformada, horrorosa. Devia ser pecado gravíssimo ouvir e gostar de uma música que falava em testar o sexo com ar de professor. A música de um homem depravado, contaminado por sua depravação.

Outra coisa que me confundia bastante era o tanto que Cazuza era querido e tratado como grande estrela no meio artístico. Atrizes que eu admirava muito como Malu Mader, Claudia Abreu e Glória Pires eram fãs apaixonadas e choraram muito no enterro dele, que foi televisionado. Como aquelas atrizes tão legais podiam gostar de um cara aidético como Cazuza?

Meu horror a Cazuza era tanto, quando eu era uma criança estúpida, que lembro do cachorro de uma conhecida, que se chamava Cazuza, e eu tinha pavor do pet só por causa do nome, não gostava nem de chegar perto. Eu olhava pro cachorro de longe e ele me parecia até meio doente, achava que ele também tinha AIDS.

Tudo isso eu pensava sobre a primeira vítima da AIDS, que agonizou em praça pública, aos olhos de todos, bem como noticiou a revista Veja maldosamente, em sua capa de 26 de abril de 1989. Mas eu não sabia de nada. As coisas começaram a mudar quando me apaixonei por Codinome Beija-Flor, interpretada por Luiz Melodia e, tempos depois, descobri que a canção era de Cazuza.

Fui crescendo, entendendo o que era AIDS e que Cazuza era como eu, gostava de rapazes. A partir dessa afinidade, comecei a garimpar sua obra. Descobri por fotos, reportagens e capas de vinis, como ele era lindo antes de começar a ser consumido pelo vírus, definhando a olhos vistos e fiquei irremediavelmente apaixonado e impressionado com o poder devastador da doença.

Admiração, fascínio e curiosidade por aquele homem tão belo que se tornou um espectro diante de um país inteiro, eram os sentimentos que me atraíam cada vez mais ao artista Cazuza, muitos anos depois de sua morte. A verdade verdadeira é que meu grande interesse por Cazuza só foi despertado pra valer após a morte de outro ícone de sua geração, o incrível Renato Russo. 

Explico. A imagem de Cazuza, que ainda rondava meu imaginário até meados dos anos 90, era de um homem muito doente, no fim da vida. Algumas músicas suas me eram muito agradáveis, como Faz Parte do Meu Show e Codinome Beija-Flor. Já não o encarava com tanto preconceito como na infância, mas ainda não era um fã ardoroso. Em 1996, com uma carreira consolidada e fãs alucinados por todo o Brasil, o Legião Urbana entrou em minha vida de maneira fulminante. Tão fulminante, que apenas dois meses depois de descobrir o quanto Renato Russo era grandioso, ele morreu. Claro que eu já conhecia algumas canções da Legião Urbana anteriores a 1996, Faroeste Caboclo era a mais marcante, mas até então, o pouco que conhecia da banda não me dizia nada. Aos 15 anos, tudo mudou: como num passe de mágica, todas as letras da Legião começaram a fazer sentido e me atingiram em cheio no âmago. Desnecessário dizer o quanto a morte de Renato Russo, em outubro de 1996, me deixou arrasado. Era a perda irremediável de um amor que acabara de nascer.

Justamente pela perda de Renato, que havia falecido em decorrência da mesma doença de Cazuza, o interesse no poeta exagerado cresceu em mim. Renato não morreu tão debilitado quanto Cazuza, ou pelo menos não se expôs assim em público. Isso aguçava mais minha curiosidade. Por que ambos os cantores, com trajetória artística e até personalidades parecidas, tiveram fins tão diferentes, um, completamente exposto e o outro, absolutamente discreto?

Já totalmente mergulhado na obra de Renato Russo e sua Legião, fui procurar por mais informações a respeito de Cazuza. Comecei com os livros Só as Mães São Felizes, de 1997, e Preciso Dizer Que Te Amo, lançado em 2001. Mas eu queria mais Cazuza. Aquela personalidade era tão instigante e efervescente e eu não tinha nenhuma referência voltada à minha sexualidade, e as canções de Cazuza eram tão cortantes, sensuais, revoltadas e românticas, como gritos libertadores que eu queria dar e não podia.


Notícias sobre uma cinebiografia de Cazuza começaram a pipocar e meu coração aos pulos de alegria. Finalmente veria pessoas reais dando vida à história do cantor mais rebelde e fascinante de que eu tinha notícia. A princípio seu intérprete seria Caio Blat, e eu achava que não poderia ser outra pessoa. Tive uma ponta de decepção quando confirmaram Daniel de Oliveira como protagonista, sentimento que se dissipou totalmente ao ver a reencarnação de Cazuza no ator. Naquela noite de domingo, em junho de 2004, na última sessão, nervoso e ansioso como num primeiro encontro especial, fui conferir Cazuza - O Tempo Não Para, de Sandra Werneck e Walter Carvalho.

Saí do cinema com um misto de sentimentos. Estava mais fascinado e encantado, quase esquizofrênico por Cazuza e, ao mesmo tempo, com raiva e certo desprezo. Não conseguia entender porque tanta droga, bebedeira, sexo desenfreado e rebeldia. Por que tanta falta de limite? Cazuza tinha tudo, era de família rica e justamente por isso se dava ao luxo de fazer o que bem entendesse. Todos passavam a mão na sua cabeça, por pior que fossem suas atitudes. Mas ele também era doce, sedutor e irresistível, não tinha preconceito com nada e tratava todo mundo de igual pra igual. Infelizmente, descobriu cedo demais que toda a grana que lhe possibilitava ser um rebelde sem causa não seria capaz de lhe salvar a vida. Foram oito internações em um hospital de Boston no período de um ano. Por aí já dá pra ver que seu João Araújo tinha muita bala na agulha, pois oito viagens internacionais em um ano, em 1988, não devia ser pra qualquer um mesmo, ainda mais naquelas condições. De qualquer forma, com toda sua intensidade, Cazuza viveu mais do que muitos de nós até agora, viveu 100 anos em 10, como diria sua mãe Lucinha Araújo.

Com todos os meus questionamentos em relação às atitudes de Cazuza, segui-o amando profundamente após o filme, mas ainda faltava saber mais da vida dele. Não se sabe porque cargas d'água, omitiram no filme o importante relacionamento que o cantor teve com Ney Matogrosso. Os dois namoraram e foi uma gravação de Ney, da música Pro Dia Nascer Feliz, de Cazuza, que elevou a então banda dele na época, o Barão Vermelho, ao estrelato. Então, cinco anos depois do longa, em 2009, a Rede Globo homenageou o cantor com o especial Por Toda a Minha Vida, apresentado por Fernanda Lima e com depoimentos de pessoas importantes na vida dele, inclusive Ney Matogrosso. Depois deste programa, acreditei que já sabia o bastante sobre Cazuza e que tudo o mais que fosse apresentado sobre ele seria só uma grande repetição. Estava satisfeito, saciado, continuaria curtindo suas músicas e vida que segue.

Porém, em julho do ano passado, estreou em São Paulo, acredito eu, a única homenagem que faltava à Cazuza, o espetáculo Cazuza - Pro Dia Nascer Feliz - O Musicalonde a vida e obra do poeta é encenada nos palcos. Óbvio que fiquei doido pra conferir, mas só consegui fazê-lo um ano depois da estreia. Coincidência ou não, uma semana antes do aniversário de 25 anos de sua morte. E valeu muito a pena, mesmo acreditando que veria mais do mesmo, foi maravilhoso. E me enganei redondamente. Teve mais do mesmo sim, mas teve muito mais. Foram duas horas intensas de um espetáculo completo, de histórias que ainda não haviam sido encenadas, mas que já eram conhecidas, como a entrevista que Cazuza deu à Zeca Camargo e à famigerada Veja. Além de muita música boa e amada. 

Nunca gostei tanto de um musical. Foram apresentadas canções pouco conhecidas e até não gravadas por ele, como Mais Feliz, Malandragem Poema, sucessos nas vozes de Adriana Calcanhoto, Cássia Eller e Ney Matogrosso, respectivamente. Tudo dentro de um contexto bem estruturado, repleto de emoção e humor, como era a cara de Cazuza, aqui vivido por um pouco conhecido, mas deslumbrante, Emílio Dantas, que deve ter trabalhado meses com um fonoaudiólogo, pois sua voz está impressionantemente idêntica a de Cazuza. Emílio é conhecido do cinema por alguns, fez alguma coisa na Record e é meu segundo motivo para assistir Além do Tempo (o primeiro é Alinne Morais), próxima novela das seis da Globo. Em sua estreia no canal, ele será o vilão apaixonado pela mocinha. Nenhuma dúvida de que irá arrasar e virar um dos novos galãs da casa, pois além de talentoso é lindo e carismático, como Cazuza, que certamente foi o motivo de ele ser contratado pela tão cobiçada emissora.

Mas embora seja o coração do espetáculo como Cazuza, Emílio não brilha sozinho. Tem os ótimos intérpretes de Lucinha, João, Ezequiel Neves, Bebel Gilberto, Barão Vermelho, Ney Matogrosso e um extenso elenco de coadjuvantes, além da estrela maior, as canções de Cazuza: Pro Dia Nascer Feliz, Bete Balanço, Maior Abandonado, Exagerado, Down em Mim, Cobaias de Deus, Por Que a Gente é Assim, Blues do Iniciante, Faz Parte do Meu Show, Codinome Beija-flor, Ideologia, Brasil, Sorte e Azar, Preciso Dizer que Te Amo, Vida Louca O Tempo Não Para, todas estão lá reinando soberanas, provocando uma catarse emocional que me deixou um sorriso nos lábios e uma sensação de paz e dever cumprido ao final do espetáculo. Agora sim acredito que conheço Cazuza do avesso.

A música de Cazuza é moderníssima e atemporal, prova disso são duas canções suas que servem de temas para personagens em atuais novelas Globais: Um Trem Pras Estrelas, tema de Alice (Sophie Charlotte) em Babilônia, Sorte e Azar, de Júlia (Isabelle Drummond) em Sete Vidas. Mas ambas as canções falam de amor e esse é um tema que realmente nunca sai de moda. Só que quando cantava suas canções de protesto, Cazuza era quase um profeta. Ao ouvir no musical O Tempo Não Para, fiquei arrepiado com o trecho: "...eu vejo o futuro repetir o passado...". Óbvio que já ouvi essa música zilhões de vezes, mas agora, no atual momento em que estamos vivendo, esse trecho tem bastante significado, não acham? E é realmente de arrepiar como Cazuza continua atual. Adoraria saber o que ele comporia hoje.

E sobre as diferenças entre o poeta exagerado e Renato Russo? O que difere um do outro apesar de vida e estilos muito parecidos? Primeiramente, é importante dizer que considero o líder da Legião Urbana mais denso, intenso e poético que Cazuza. Renato tinha uma personalidade tão forte como a de Cazuza, mas era melancólico, depressivo, quase suicida. Parecia se levar mais a sério do que Cazuza. Sua vida pessoal era reservada, ninguém nunca soube de seus relacionamentos, nem que ele tinha um filho. Já Cazuza tinha um pacto exagerado com a alegria. Não tomava drogas pra se anestesiar, mas pra ficar mais louco do que já era. Tinha um senso de humor inteligente e escrachado, não se levava a sério e escancarava sua vida pra quem quisesse saber. Impossível imaginar Cazuza escondendo um filho da mídia como fez Renato. E nesse jogo fica 10 X 10, não existe melhor nem pior, os dois são gênios. Mas Renato será lembrado apenas por sua extraordinária obra. Um artista distante, quase intocável. Já Cazuza será eternizado por ter se mostrado tão gente como a gente, louco, desbocado, atrevido, completamente imperfeito e genial. Um cara possível, plausível, absolutamente normal e fascinante.

Um vidente que viu o futuro repetir o passado. E a gente achava que era só uma música.
"O amor é o ridículo da vida. A gente procura nele uma pureza impossível, uma pureza que está sempre se pondo. A vida veio e me levou com ela. Sorte é se abandonar e aceitar essa vaga ideia de paraíso que nos persegue, bonita e breve, como borboletas que só vivem 24 horas. Morrer não dói."
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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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