terça-feira, 28 de julho de 2015

Eu Vi Um Grilo em Wayward Pines




"Não há grilos em Wayward Pines."
Essa é a frase mais emblemática, na minha opinião, da série de TV, que é um thriller excelente, e a qual leva o mesmo nome de sua cidade ficcional, Wayward Pines. A frase foi proferida num dos primeiros episódios da série e assume, claramente, a existência de um mistério rondando a pequena cidade. Entretanto, para mim, a cidade trouxe um mistério extra (longe de mim querer protagonizar uma causa em que não sofro diretamente, entretanto, se pude perceber o que percebi, acho válido ressaltar, ainda, é mais importante lembrar que o texto tem como foco maior a negligência da mídia e da arte). Assim, tal como Beverly escreveu a frase citada no verso de uma comanda de bar, cá escrevo a frase que desvela a sensação conspiratória que sinto:
"Não há negros em Wayward Pines."
Para prosseguir com esse texto, lembro de um episódio clássico de Chaves:
"Eu não acredito em fantasmas, mas eles existem..."
Assim, com base nessa frase de Chaves, parodiando-a para que compreendam melhor a minha atenção ao thriller, eu digo: Eu vi negros em Wayward Pines, mas eles não existem (lá). 

Acontece que aparece uma personagem negra, que é, supostamente, co-protagonista. No decorrer da série, no que eles chamam de Primeira Geração, nota-se em pano de fundo um ou dois negros. "Isso é mesmo necessário?!", você pode se perguntar agora, enquanto revira os olhos. E eu respondo: Sim!, sem revirar os olhos. Pois para não dar spoilers a quem ainda não viu a série, me prenderei apenas a falar em arte, mídia e entretenimento. Embora quem já viu Wayward Pines, se tiver mais atenção, notará num sub-texto a sugestão de uma miscigenação que pode até provocar a extinção desse grupo étnico.

A essa altura do texto, não todos, mas uma parcela considerável - levando-se em consideração os tempos em que vivemos - deve ter desistido da leitura; considerado trivial, repetitivo, ou a problematização desnecessária de algo que não existe mais (Sim! É comum ver pessoas que acreditam que a exclusão de negros não existe mais: mesmo que a única princesa Disney negra, sequer era, de fato, princesa. Mesmo que a única novela em horário nobre protagonizada por uma negra no Brasil, tenha sido a única novela, em horário nobre, protagonizada por uma negra). Então a necessidade de se apontar a ausência de negros em papéis modificadores e edificantes na sociedade da pequena cidade fictícia Wayward Pines advém de algo simples: revindicar das mídias, entretenimento e da arte, enfim, da comunicação, o cumprimento do papel de apoiadores do respeito à diversidade humana.

Isso mesmo! Revindicar. Pois, como diz Pedrinho Guareschi em seu livro Sociologia Crítica, o mais forte aparelho de reprodução da sociedade é o aparelho ideológico da comunicação. Em suma: Guareschi mostra que todo comportamento social, em massa, advém de alguns aparelhos de reprodução da sociedade - entende por aparelhos instituições base, tais como família, igreja, escola e, também, a comunicação. Ou seja, crescemos reproduzindo o que vemos, ouvimos, enfim, o que nos ensinam. E esse ensinamento é uma reprodução. Começou a esclarecer que Wayward Pines está reproduzindo em sub-texto a inexistência do negro na construção social?

Monteiro Lobato sabia disso. Num artigo de três professores da UERJ, aparecem trechos de cartas do escritor com conteúdo racista, em um trecho demonstrando apoio, até mesmo, ao Ku Klux Klan. Em algumas, ele até assume usar a sua literatura de forma "doutrinadora", apresentando o negro num "nível hierárquico" abaixo de outras etnias. Tal como no polêmico livro Caçadas de Pedrinho.

Com tudo isso, agora, fica claro que "Há negros em Wayward Pines, mas eles não existem", ou seja, eles aparecem como pano de fundo, mas não expressam importância social, não modificam o seu meio. Parte da mídia e da arte continua a reproduzir o negro como 'menor patente hierárquica' dentro da sociedade. Essa reprodução não é feita abertamente, tanto que mesmo com declarações racistas, as obras de Lobato ainda são vinculadas nas escolas, homenageadas em eventos culturais e cultuadas por intelectuais. Pois a ideia de que o que ele fez foi apenas arte e que tudo não passa de uma perseguição conspiratória (em prol da história da literatura nacional) não passará! Assim como, também, não passará a ideia de que Wayward Pines tem negros, sim. Pois, afinal, eles estão lá.

A intenção desse texto não é desmerecer a série, nem protagonizar uma causa racial que não me atinge diretamente. Mas discutir o poder da mídia e da arte. Chamar a atenção para sub-textos, para entrelinhas, enfim, para a negligência da Comunicação em cultuar a diversidade humana.

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Leandro Faria  
Hugo Dalmon nasceu em 1988, em Volta Redonda. Criou o blog literário Espaaço Zeero em 2008. Se formou em Letras em 2011. Lançou seu romance de estreia, Babilônia Encantada, em 2012. Recebeu um prêmio local, Prêmio Olho Vivo, como blog do ano em 2013 e 2014. Foi colunista do G1: Sul e Costa Verdade (2013-2014). Recebeu o Prêmio Olho Vivo 2013 de colunista do ano. Lançou um Romance Juvenil, Quero me lembrar de você, Amy Winehouse, em 2014. Atualmente, assina crônicas no jornal local, Comunica Notícias, e é professor de redação.
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