quinta-feira, 23 de julho de 2015

Gorda



"Uma cultura fixada na magreza feminina não representa uma obsessão por beleza feminina, mas uma obsessão pela obediência feminina. Dietas são o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população silenciosamente maluca é uma população manipulável." (Naomi Klein - O Mito da Beleza) 
Gorda. A palavra da minha vida. Não pelo que me diz o meu peso de balança, que vem flutuando violentamente desde que consigo lembrar. Não pelo que me dizem os outros, que de uma forma geral tendem a me dispensar mais delicadeza do que dispenso a mim mesma. "Gorda" é como eu mesma me chamo desde que aprendi o significado da palavra. Gorda é como eu me definia aos 10 anos de idade, quando era a única das minhas amigas que não usava biquíni de lacinho porque meus culotes iam invadir o mundo. Gorda era como eu me definia aos 14, quando a Avril Lavigne (!) era meu ícone de beleza e realisticamente caberiam umas três dela dentro de mim. Gorda era como eu ainda me definia aos 21, mesmo depois de perder 15 quilos às custas do meu amor por carboidratos refinados, do meu orgulho, e da minha sanidade mental. Gorda é como eu, contra todo o bom senso e a consciência que demorei anos para desenvolver, me defino hoje, aos 25, propagandeando amor próprio e positividade corporal enquanto luto para aceitar minha pressão gravitacional. Gorda é como eu me sinto quando vou para uma dessas festas cariocas de gente que acontece, quando corro de shortinho curto, quando vejo alguma foto tirada sem que eu tenha tempo de posar do jeito certo. Gordura me impede de ter date na praia, de sair na frente em foto de grupo, de tentar aparecer na televisão. Sucessos vêm e vão, mas um fracasso permanece. Gorda. 

Eu costumo escrever textos escancaradamente pessoais, mas acho que nunca fiquei tão receosa de publicar algo. Não que a vulnerabilidade me incomode (meio tarde pra isso, né migos), mas tenho vergonha de admitir esse lado tão feio de mim. De todas as minhas brigas com ansiedade, aceitação e isolamento, nada nunca foi tão presente na minha vida quanto a luta contra a minha imagem. Há alguns anos descobri o feminismo e todas essas vibes deliciosas e libertadoras de entender porque somos assim, porque vivemos brigando por dentro, porque é lucrativo e conveniente que a gente viva pra ser linda. Mas, infelizmente, não existe um interruptor que a gente consiga virar pra abraçar emocionalmente a lógica. Eu odeio minha aparência desde criança, e infelizmente, mesmo com minhas incursões rumo à aceitação corporal, não há mensagem motivacional que consiga deletar décadas de sessões de auto-tortura. 

Recentemente, encontrei nos blogs e Instagrams de aceitação corporal um conforto. Ver minhas fellow gordas tirando selfies no espelho e lembrando a todos que pra ter "corpo de biquíni" só precisa ter um corpo e um biquíni é inspirador, catártico, bonitaço. Fico admirando essas garotas incríveis, imaginando que devem ter conversas espirituosas sobre séries, amor e batons novos da Kat Von D, debatendo o status quo enquanto bebem capuccinos de leite integral e croissants quentinhos. E aí o high da admiração passa, e eu adiciono a essa equação escrota a frustração intelectual de entender a minha própria idiotice e permanecer me colocando pra baixo. De amar os outros como eles são e não conseguir me amar. De não julgar os outros pela aparência, mas ser incapaz de ter a mesma generosidade comigo. É difícil e cruel e solitário, mas sinto que não estou sozinha na minha dificuldade para, mais que me aceitar, me enxergar com o mínimo de bondade. 

Conheço um punhado de garotas que, como eu, são donas delas mesmas e ainda assim escorregam com mais frequência do que gostariam na autoestima. É muito fácil a gente se culpar até nisso. Mas um exercício essencial é lembrar: não ficamos assim sozinhas. Não nascemos com um anexo cerebral que nos informa periodicamente a importância de sermos bonitas e magras. Falaram isso pra gente. Falam isso sempre. A gente ouve, desde criancinha, que tem que ser linda. Pra ser linda tem que ser magra. Magro é bom, gordo é ruim, e a mensagem tem a sutileza de uma tarântula num pedaço de pudim. E pra desaprender, lá pelas tantas, tudo aquilo que te ensinaram sempre? Mulher nasceu pra ser enfeite. 

Claro que problemas de imagem corporal são universais, gordo é xingamento independente de gênero; a ideia não é negar a experiência masculina, mas a opressão ganha uma dimensão diferente na existência feminina. A gente tem que ser linda desde que nasce. Vão visitar ela no berçário: "nossa mas como é linda". Se ela ganha uma roupinha nova, tem que falar que ela está linda. Ela começa a sair da fase bebê e "linda mesmo, vai dar trabalho pro pai", "magrinha que nem a mãe, né?". Isso não é filme, não é incidente isolado, isso é regra. "Linda" é palavra de ordem. E aí a gente cresce, e aprende que lindeza é essencial, porém, é condicional também. Tem que ser linda, mas não vai ser fácil. Crescemos com as nossas mães, tias e irmãs fazendo dietas, julgando os próprios corpos, comentando extensivamente sobre o ganho de peso da outra no minuto em que ela vira as costas. Somos famintas, miseráveis, cansadas, frustradas e, algumas mais periodicamente que outras, gordas. 

E aí você cresce um pouco, vai pra escola, e boa sorte naquele antro de crueldade e sociopatia precoce. E você entra na faculdade, e no primeiro dia de trote eles elegem a "sereia" (spoiler: ela é magra). Aí você vai pra boate, e os caras te olham de cima a baixo como se você fosse uma vaca sendo preparada pro leilão, desviando o olhar assim que terminam o processo de escaneamento mental. Você bota sua cara num aplicativo e te jogam pra direita se te acham bonita, e pra esquerda se te acham feia. Você vai à praia e no minuto que vira de costas tão olhando pra sua bunda. Você gasta rios de dinheiro na academia, na comida orgânica, na endocrinologista. Te oferecem produtos sob a prerrogativa de "que mulher não quer perder cinco quilinhos, não é mesmo?". E o pior: eles estão certos. Aí você liga a TV e nos comerciais todas as mulheres são magras e lindas. Nas séries também. Nos filmes também. Menos quando elas são engraçadas, aí pode ser gorda. Gorda é mesmo um bicho engraçado, né. Você vai trabalhar na TV e 90% das repórteres e apresentadoras são bonitas, 98% pelo menos magras. As que não são estão tentando ficar. Aí você vai almoçar com a família e as mulheres te contam sobre a atual dieta (a quarta diferente do bimestre). Aí você sai com a sua amiga e ela não bebe cerveja porque "cortou o glúten". Aí sua mãe bota uma balança no banheiro e todo dia faz algum comentário sobre a mais nova flutuação de peso. E sua irmã, linda linda, passa mal porque só jantou suco verde num dia. Não pode isso, não pode aquilo, e ai de você se ousar se manter gorda quando tem tanto jeito de não ser. Sua preguiçosa. Fracassada. Sem força de vontade. Que ciclo escroto, cruel, maldoso, infinito, exaustivo. Que horror viver desse jeito. Mas a gente vive. 

A gente finge que é "questão de saúde". As modelos plus size, lindas, recebem comentários cruéis diariamente. A desculpa? "Estão promovendo imagem pouco saudável". A verdade? Estão ousando ser gordas. Assumem isso. Ousam ser felizes com os próprios corpos enquanto a gente tá aqui, se fodendo. Magreza não é sinônimo de saúde e a obviedade dessa informação é o que me faz ficar mais triste de ter que escrevê-la. Até o médico é o primeiro a recomendar: só perder um pouco de peso. Corro quatro vezes por semana, tenho saúde de égua premiada, mas tive como resposta a um problema de circulação: você está acima do peso. Ele não me pesou. Ele não viu meus exames. Ele olhou pra mim e decidiu que eu estava "acima do peso". De que peso? O peso estético. Quis mandar ele se foder, mas em vez disso saí pra chorar. Isso acontece com todo mundo, o tempo todo. Eu sei disso. Eu vejo isso. Eu brigo contra isso. Eu tento desconstruir as ideias mesquinhas e maldosas que as pessoas têm sobre os corpos alheios. Tento mostrar que existe sim privilégio de magro, e uma cegueira infinita sobre como os corpos das pessoas funcionam. Mas privilégio de qualquer tipo é assunto difícil porque, por mais óbvio que seja para qualquer pessoa intelectualmente honesta, ainda tem gente com cara de pau de negar. 

Podemos ter narizes diferentes, mas não podemos ter quadris diferentes? Que lógica é essa? Os corpos não engordam igual, não emagrecem igual, não são construídos igual. Parece dolorosamente óbvio, mas estamos todos de acordo com o delírio coletivo de que existe um jeito ideal de ser e que ele é igualmente acessível a todos. Não é e, mesmo que fosse, se a gente tem o direito de querer se tatuar, furar o septo, cortar o cabelo, por que a gente não tem o direito de não ser magro? E falar de "saúde" pra justificar a gordofobia é, na melhor das hipóteses, ingênuo e, na pior delas, muito desonesto. 

É muito fácil pra uma pessoa que nunca teve problemas de peso falar que "é só ter força de vontade". Ou pra que teve também. Eu já perdi 16 quilos e me achei a fodona por cerca de um ano. Orgulhosa da minha força de vontade, que envolvia nunca sair porque não ia ter o que comer na rua e vomitar quando tomava sorvete. Essa força de vontade toda durou até o peso voltar, como acontece com a grande maioria das pessoas. A pesquisa está aí para mostrar que dieta não funciona. Mas a gente faz igual. E se sente mal igual quando não tem sucesso. O fracasso de ganhar peso de novo é opressivo. A calça que não fecha. O bracinho que fica pulando da blusa. O vestido que marca. Você ouve os vigilantes todos comentando pelas costas, mas não importa. Quem mais de escrotiza é você, de qualquer jeito. 

Eu já estive magra, e me achava gorda, porque a crueldade maior é que isso não sai de dentro de você. Aquela vozinha fica lá, às vezes mais alta, às vezes mais baixa. "Mas então você está dizendo que não existe gordo feliz". Existe, e que seres iluminados. Mas são guerreiros. Têm que suprimir na vida adulta anos e anos de vergonha, de maldade, de julgamento e de preconceito. Militam pela revolucionária causa que é aprender a se amar, um ato capaz de derrubar paradigmas, tanto sociais quanto econômicos. Imagina um mundo em que as pessoas se gostam? Indústrias inteiras iam cair. Todos nós queremos nos amar. Mas é tão difícil. É tão ingrato. É mais fácil agredir quem se ama e pintar nossa inveja de outras cores. Entre se matar pra caber num manequim e se matar pra bater de frente com o senso comum, às vezes é mais fácil ir na primeira. É aí que a gente perde. 

Gosto de terminar meus textos com mensagens positivas, aprendizados, negócio de ~silver lining~. Mas algo sobre ganhar pequenas batalhas e consistentemente perder a guerra abate, desanima, constrange. Não sei se algum dia vou conseguir me gostar do jeito que eu sei, na minha cabeça, que mereço. Não sei se algum dia vou parar de querer perder cinco quilos, se vou conseguir comer brownie com sorvete sem culpa, se vou parar de contar as dobrinhas quando eu sento de mau jeito. Então, o que eu posso fazer é o que sempre faço quando escrevo algo assim: torcer para que alguém, em algum lugar, leia o que eu escrevi e se enxergue de alguma forma nesse amontoado de palavras. Para que essa pessoa veja que a maldade com que ela se trata é exagerada, sem cabimento, mas o mais importante: não é culpa dela. 

Em um mundo que vive tentando provar que você não é o suficiente, se curtir é ato da maior ousadia. Revolucionário, inclusive. Você merece carinho. Você merece respeito. Você merece amor. Dos outros, claro, mas de você mesmo acima de tudo. Sei que às vezes fica difícil, mas que tal a gente continuar tentando essa parada duríssima de se gostar? De tentar se olhar com um pouquinho mais de generosidade quando passa na frente do espelho? E, quem sabe, ainda curtir uns croissants fresquinhos no processo.
*Imagem de abertura: Fernando Botero

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Leandro Faria  
Fernanda Prates tem 25 anos, mora no Rio há 21 e consome glúten regularmente. Ama lutas, filmes de ação dos anos 80, pasta de amendoim e palavras. Seus hobbies incluem: deixar de sair para ver TV, entrar em pânico por coisas pequenas e comprar roupas online. Segue em busca da felicidade, mas se contenta com cerveja enquanto isso.
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Um comentário:

Lilian Silva disse...

Estou aqui para dizer que suas palavras ecoaram em mim. Nossa luta é a mesma e muito parecida. Todos os dias eu brado aonde posso contra esse processo cruel a que somos submetidas. Todos os dias encaro a solidão da mulher gorda e tento desconstruir isso em mim e viver apesar disso. Tento me amar incondicionalmente enquanto todos os outros colocam uma condição pra me amar.

Enfim, menina: você não está só. Vamos juntas!