terça-feira, 21 de julho de 2015

Hora de Aventura (ou Uma Conversa Sobre Gêneros)





Uma das animações seriadas de maior sucesso atualmente é Hora de Aventura. Eu mesmo já vi todos os episódios e todas as temporadas exibidas (e estou ansioso pela próxima), tenho miniaturas e até uma pelúcia do Rei Gelado, uma das personagens secundárias mais amadas. E esse seriado animado traz algo muito bacana em meio à sua trama. O já citado Rei Gelado é autor de um Fanzine, história em quadrinhos feita por um fã desse gênero textual por puro prazer. Nesse fanzine, todo o universo apresentado na série tem gêneros trocados; obviamente, as personagens masculinas se tornam femininas e as personagens femininas, masculinas. E as crianças - e vários adultos fãs da série - adoram! Compreendem que é um universo diferente do que elas estão acostumadas e que nesse universo o Finn - o herói da série - não é mais Finn, é Fiona. Logo, assim a chamam, compreendem também que Fiona sempre fora mulher, embora sua base inicial tenha sido Finn. Além disso, compreendem que Fiona, uma garota, tem tanta força, garra, heroísmo e sonhos quanto tem Finn. 

Espero não precisar mencionar que crianças têm preconceitos devido à reprodução social do meio em que vivem, ou seja, reproduzem conceitos transmitidos pelos pais e seus educadores. Inclusive, várias das medidas socio-educativas são tomadas através de mudanças e campanhas na educação. Foi e ainda é assim com os negros e as mulheres, por exemplo. Afinal, antes não era compreensivo negros frequentando a mesma igreja que outros grupos étnicos, ou as mesmas escolas e, ainda, o pejorativo discurso era de que se envolver com negros era ruim, pois se criaria uma geração inteira de mulatos. Mas olha só, negro é gente! Depois, as mulheres foram rechaçadas quando começaram a impôr seus pensamentos e revindicar uma posição na sociedade. Escolas separadas, trabalhos direcionados só para mulheres e esteriótipos pejorativos circulavam pela mídia. Mas, mesmo com esses dois exemplos, hoje a maior parte das crianças e adolescentes crescem entendendo que negros e mulheres são seres humanos e precisam estar presentes em nossa sociedade, logo, desempenham papeis sociais importantes para a formação e evolução coletiva. Tudo isso graças à educação e a mídia, que se envolveram e se envolvem em prol de uma evolução humana em coletividade. Salvo que ainda existem os preconceitos com esses e outros grupos, mas advindos do âmbito familiar, ou de grupos conservadores extremos, o que foge da evolução da sociedade vista como um todo. Ainda vale lembrar que toda a sociedade em total acordo é uma utopia - bonita! 

O que chamam de ideologia de gênero - e que outros chamam de 'câncer social' - e que pode ser anexada nos currículos escolares é divulgado de maneira sensacionalista e pejorativa, devido às crenças e desejos pessoais de certos grupos, com a intenção de desmerecer um trabalho que pode ajudar na construção de uma sociedade civil mais tolerante. A ideia mais pregada é a de que as crianças serão ensinadas a não se importarem com seu sexo, que frequentarão o mesmo banheiro e serão induzidas e/ou confundidas em relação a conformidade com seu gênero. O que é um erro! A ideia de se discutir o que chamam de ideologia de gênero em escolas é desmitificar o universo LGBT e reforçar a igualdade social dos gêneros, fazendo com que crianças e adolescentes aceitem melhor o grupo citado. Além de orientar melhor pessoas trans e gays em sua fase púbere. Afinal, é importante lembrar que ser gay ou lésbica independe da identidade de gênero. Ou seja, uma pessoa trans - seja ela trans-homem, ou trans-mulher - pode ser gay ou lésbica. Assim, uma educação que oriente adolescentes a entenderem que o gay não quer ser mulher e nem a lésbica quer ser homem, e que orienta adolescentes a entenderem que a pessoa trans nasce fisicamente com um sexo, mas mentalmente se reconhece como do sexo oposto, fará com que a criança compreenda o que ela compreende assistindo Hora de Aventura: A Fiona sempre fora mulher, embora sua base tenha sido o Finn. E ajudará adolescentes gays e trans a se compreenderem melhor, a buscarem uma orientação mais apropriada para o que têm vivido. 

Existem dois gêneros comuns, o masculino e o feminino. As pessoas nascem fisicamente de uma forma, mas algumas, mentalmente, não correspondem ao seu corpo físico. Isso nada interfere no seu posicionamento sexual: se é gay, lésbica, bissexual ou heterossexual. Uma mulher trans pode ser lésbica ou bi, como qualquer outra mulher. Assim como um homem trans pode ser gay ou bi, como qualquer outro homem. Além disso, a discussão de gênero reforçará o que a Fiona também reforça em Hora de Aventura, que é o papel da mulher como um ser humano tão igualmente capaz e livre para mudar o mundo quanto o homem é. 

Embora a mulher esteja introjetada na sociedade, quando olhamos com atenção, ainda há misoginia pra todo o lado. E toda a misoginia, todo preconceito com LGBTs e com a ideia de esclarecer gêneros e sexualidades às crianças e adolescentes, são praticados por adultos. Pois as crianças e adolescentes recebem as diferenças com tolerância e entendem melhor do que os adultos que respeitar as diferenças não as influenciará a viver como se vivem os grupos dos quais elas não fazem parte. As crianças crescem rodeadas de heróis como Finn e Fiona, que as ensinam de diversas maneiras como tornar o mundo menos hostil. É uma pena que muitos adultos matem-nos!

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Leandro Faria  
Hugo Dalmon nasceu em 1988, em Volta Redonda. Criou o blog literário Espaaço Zeero em 2008. Se formou em Letras em 2011. Lançou seu romance de estreia, Babilônia Encantada, em 2012. Recebeu um prêmio local, Prêmio Olho Vivo, como blog do ano em 2013 e 2014. Foi colunista do G1: Sul e Costa Verdade (2013-2014). Recebeu o Prêmio Olho Vivo 2013 de colunista do ano. Lançou um Romance Juvenil, Quero me lembrar de você, Amy Winehouse, em 2014. Atualmente, assina crônicas no jornal local, Comunica Notícias, e é professor de redação.
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