sábado, 11 de julho de 2015

Pessoas Que Ficam Pelo Caminho




Às vezes na vida, é inevitável deixar pra trás pessoas queridas. Quem viveu muito, sabe disso. Quem viajou bastante, conheceu pessoas diversas, viveu a vida intensamente e se entregou a cada momento com paixão, entende que, embora a vontade seja genuína, manter todos os amigos que semeamos pela vida afora é quase uma utopia. Amizades, como plantas, não basta semear, necessita-se o cultivo, que com a transitoriedade da vida incorporada num espírito inquieto, torna-se tarefa árdua. Nem todos estão dispostos pra essa batalha cotidiana. Muito poucos estão. 

Então, o tempo vai passando, vamos avançando em idade, fica mais difícil travar novas amizades. Temos meia dúzia de amigos (se tivermos muita sorte) que fazem parte do nosso dia-a-dia, mas de vez em quando bate uma nostalgia do passado, daquele alguém super especial que fez parte de uma fase da nossa vida, às vezes menos do que isso, apenas de um pequeno momento. Mas ficou marcado na mente e no coração de forma tão indelével, que você não entende o por que de não ter perdurado. E surgem questionamentos como "por onde anda?", "por que perdemos contato?", "o que terá sido feito desse alguém?". 

Vira e mexe eu penso em tanta gente. Gente que fez parte da minha infância, da minha adolescência e até bem pouco tempo atrás, da minha juventude, antes dos trinta. Pessoas que surgiram na minha vida e desapareceram com o tempo. Pessoas que ficaram pelo caminho. Essas eu chamo de cometa, como li uma vez num poema antigo. Pessoas cometa, que passam pela vida da gente mas não permanecem, ao contrário das estrelas, que são os amigos que não nos abandonam nunca, mesmo distantes. 

Eu sou dedicado, me esforço, faço tudo o que posso pra não perder as estrelas de vista, mas está cada vez mais difícil mantê-las. E já não tenho mais paciência pra correr atrás delas, se não tem interesse mútuo, que se dane. Sou um homem de 33 anos, que já sofreu demais por amigos e amores e agora está mais interessado em amar a si mesmo e deixar que quem tiver interesse que busque meu brilho. Ainda assim, sou um ser das nostalgias e adoro me perder em lembranças boas do que passou e ficou congelado no tempo da delicadeza. 

Lembrar dos cometas, me inspirou esse texto. Cometa como Dulce, que conheci a tanto tempo atrás que nem me lembro exatamente o ano, mas eu era menino, morava em Tramandaí/RS, devia ter meus 9 ou 10 anos e ela era muito mais velha, praticamente uma babá pra mim. Mas eu não a enxergava assim. Via Dulce como uma amiga mesmo, amiga muito querida. Ela era de uma cidade no interior do Rio Grande do Sul chamada Estrela. Estava em Tramandaí passando um verão, nos conhecemos e rolou um carinho imediato. Passei naquele verão com Dulce os dias mais doces de que tenho lembrança. Estranho uma amizade assim, de um garoto de 10 anos com uma mulher de quase 40? Pode ser, se eu não fosse eu e ela não fosse ela. Sempre me interessou amizades com pessoas mais velhas que eu, bem mais velhas, como foi o caso de Dulce e isso me acompanhou a vida toda, sempre me fazendo um bem danado. Só que Dulce passou, tal e qual um cometa. Depois daquele verão, nunca mais soube dela. 

Da mesma forma, Carmem, que conheci em Aracaju. Baiana, de Feira de Santana. Primeiro a conheci superficialmente, a via de longe mas não me aproximava muito. Até que pude conhecê-la de verdade e me surpreendi de uma forma apaixonante. Carmem era um furacão em ebulição de alegria, otimismo, bom humor e simpatia. Ela estar na minha vida, mesmo num curto período de tempo, foi um presente divino. Nessa época eu estava com 15 anos e Carmem era uma menina de 40. Não dava pra acreditar que ela tinha tudo aquilo, eu sentia toda aquela energia e era como se tivéssemos a mesma idade. Quando fui embora e tive que deixá-la, no dia da nossa despedida me deu um cordão de ouro, singelo e delicado. Provando mais uma vez que dentro daquela mulher que poucos levavam a sério, havia um coração gigantesco cravejado de brilhantes. Porém, após algumas tentativas de manter contato, Carmem acabou ficando no passado. 

Foi assim também com Ísis, amiga do colégio. A melhor amiga de infância, na fase da terceira e quarta séries. Eu a admirava e tinha o maior orgulho de ser seu amigo. Era educada, inteligente, de boa família. Sempre frequentava a casa dela, a mãe e o padrasto eram uns amores. Tenho ternas lembranças da casa e da família de Ísis, das tardes que passávamos brincando de boneca, ouvindo e cantarolando músicas das trilhas de novelas como Deus nos Acuda e Vamp. Depois de adulto consegui revê-la. Continuava a mesma garota simpática e educada de antes porém crescida, madura. Estudava Letras e fazia planos pra morar um tempo nos EUA. A última vez que a vi foi em 2003, depois nunca mais. 

E aconteceu do mesmo modo, logicamente em proporções diferentes, com Antônio, com quem tive dois encontros, após conhecê-lo via internet em 2009, mas não consegui esquecê-lo. Alguma coisa de especial ele me deixou nesse curtíssimo período em que estivemos juntos. Com Fernando, que vivi uma intensa amizade por dois anos, com momentos hilários e antológicos, antes de se dissolver no ano de 2007. Com Nathália, colega no curso Técnico de Nutrição e no estágio, com quem convivi por um ano em 2003/2004 e ri desbragadamente. Nathália era um remédio letal contra o mau-humor e o preconceito. Que saudades dessa guria que eu nunca mais vi! Com Angélica, que me ajudou num dos momentos mais difíceis da minha vida. Com Alexandre, que jamais imaginei poder ficar sem sua amizade, depois de ter entrado em minha vida. Foi o amigo mais incrível que já tive, mas ele mudou e me tirou de sua vida. Com Isadora, também do Ensino Fundamental, que escreveu assim em minha agenda: "A amizade é como o cristal, depois de quebrar nunca mais será igual. De alguém que te adora, Isadora!". Quebrou muito rápido, mas durou o suficiente pra se tornar inesquecível. 

E com Gregório e Tiago. O primeiro me cativou em apenas uma semana, passava férias na cidade em que eu morava. Greg foi um bálsamo numa fase em que eu me achava uma coisa estranha, me fez sentir normal. Sou agradecido a ele até hoje por isso, mas ele com certeza nem imagina o efeito maravilhoso que causou em mim. Éramos crianças, início dos anos 90, pré-adolescentes. Imagino o homem lindo que ele deve ter se tornado, mas acho que nunca saberei, como saberei menos ainda de Tiago Girardi, que conheci e conversei por apenas algumas horas numa noite de verão de 1993 e nada mais. Mas o menino loiro de 10 anos, fazia aniversário no mesmo dia que eu, e era tão bonito e carismático que jamais consegui esquecê-lo. Já o procurei nas redes sociais, mas não o acho de jeito nenhum. 

E assim são as pessoas cometa. Pessoas que nos fazem feliz, mas que vamos deixando pelo caminho. Ou será que são elas que nos deixam, depois de terem cumprido sua missão?

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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