domingo, 19 de julho de 2015

Quase Pretensiosos





Esses dias entrei em uma discussão com uns amigos sobre o filme Quase Famosos, que é um dos meus filmes favoritos desde que assisti pela primeira vez, na época em que eu ainda era um adolescente fascinado com a possibilidade de um dia me tornar jornalista – vontade que virou convicção no dia em que aquele avião fez um pouso forçado no rio Hudson, e que virou incerteza um tempo depois, e que acabou sendo vendida e substituída pelo mundo do luxo e do glamour proporcionado pela publicidade (HÁ!). 

É um filme sobre música. Não muito verídico, admito, mesmo que seja baseado nas experiências de vida do Cameron Crowe; é bem inacreditável dizer que uma Rolling Stone contrataria um adolescente inexperiente para sair em turnê com uma banda, mas voltaremos a isso mais tarde. 

É um filme sobre música, e música sempre foi uma coisa bastante presente e importante na minha vida. Minha mãe era professora de piano, e por mais que minhas habilidades com esse instrumento sejam bem humilhantes (como dizem, em casa de ferreiro, o espeto é de pau), cresci aprendendo e ouvindo música. Não sou o que podemos chamar de “eclético”, mas gosto de bastante coisa diferente – e até um pouco vergonhosa – (apesar de o Spotify já ter dito que meus cinco estilos favoritos são pop, pop rock, pop punk, dance pop e teen pop, e quem pode dizer que ele está errado?), então já é variedade suficiente. Minha personalidade musical foi moldada pela MTV de 2006, pelas trilhas sonoras de One Tree Hill, The OC e Grey’s Antomy, e eu sou daquele tipo de gente que tem uma música para cada momento, para cada fase, para cada pessoa, além de colecionar vinil, não por achar que o som é melhor, mas porque sinto que é uma forma de me conectar com a música. 

Já faz um tempo desde a última vez que assisti Quase Famosos, e não voltei a ver depois da discussão que tive com esses amigos, talvez por medo de que as acusações deles se provem verdadeiras para mim; afinal de contas, já comecei dando justificativas para o fato de ter gostado mais do que eles. Talvez eu tenha gostado mesmo porque era um adolescente aspirante a jornalista e apaixonado por música e pela Kate Hudson. Talvez Cameron Crowe seja mesmo uma farsa, porque, veja bem, a coisa que eu mais gosto em Elizabethtown é a trilha, e mesmo gostando do filme, nunca o vi mais de uma vez. Aí tem aquele em que o Matt Damon compra um zoológico, e agora esse, aparentemente racista e xenofóbico, em que a Emma Stone interpreta uma descendente de orientais (sim, com aquele tamanho de olho). Talvez Say Anything e a antológica cena de John Cusak segurando a boombox na janela da namorada seja seu único e melhor trabalho. Talvez Jerry Maguire. Talvez o documentário de 20 anos do Pearl Jam. 

Acontece que, mesmo que em uma próxima assistida o filme se mostre pretensioso como minha amiga disse que é, além de pecar contra a própria veracidade no momento em que o protagonista ainda não saiu da escola, vai ver é exatamente por isso que eu gosto dele. Acho que já atingimos um nível de maturidade social que nos permite admitir que somos um pouco pretensiosos no final das contas, que colecionar vinil porque é uma mídia conectável é pretensioso, assim como beber cerveja artesanal e tomar vinho que custe mais de cinco reais a garrafa. 

Porque, falando a verdade, o que tem de mais em ser um pouco pretensioso? Todo mundo é um pouco pretensioso. Todo mundo precisa ser um pouco pretensioso. Da mesma forma que Quase Famosos pode ser (o veredito ainda não saiu) pretensioso, temos Mad Men, temos Terrence Malik, temos Christopher Nolan. Essa classificação não é sinônimo de algo ruim e não deveria ser usada como descrição negativa de alguma coisa. E Quase Famosos é um filme do qual eu gostaria de participar. Eu gostaria de estar cantando Tiny Dancer no ônibus da turnê. Eu gostaria de estar na festa em que o vocalista de Stillwater acredita ser um “golden god”. Então que seja pretensioso. Contanto que, assim como na vida real, as pretensões sejam autoconscientes.

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Leandro Faria  
Eduardo Storm é um publicitário paranaense de 24 anos, apaixonado por séries canceladas, filmes ruins, livros juvenis e música em geral. A cada 10 frases suas, pelo menos uma é citação pop, e só coloca o Spotify na sessão privada para escutar Glee.
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