quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ratos, Humanos e Outros Animais




Essa semana eu matei um rato. Pode parecer uma coisa tão imbecil, mas foi a primeira vez que eu tirei a vida de um animal de sangue quente. Pode parecer ainda mais imbecil por pensar dessa forma, mas fui dormir incrivelmente perturbado pelo feito. Foi necessário, pois ele invadiu a minha casa, poderia atacar os bananas dos meus cachorros e gatos que estavam doidos para irem conhecê-lo, poderia transmitir doenças, etc. Mas foi estranho... matar.

Muitos anos atrás, quando tinha um sítio na roça, em Itaboraí, lembro de ter me deparado com um sapo enorme. No meio da minha adolescência, dei uma enxadada nele em cheio e o batráquio foi pras cucuias. Fui comentar o heroico feito com a minha mãe, a pessoa que eu conheço que mais tem pânico de sapos, pererecas, rãs e afins, e ela (já repararam como ela é figurinha fácil aqui nas minhas colunas com seus ensinamentos?) me repreendeu, questionando qual a necessidade de tirar a vida do bicho que não fez nada comigo. No máximo, bastava afugentá-lo.

Aquela lição ficou na minha cabeça. Eu já havia assistido quando criança ao abate de um boi (na verdade, foram duas vezes – em uma delas, o homem errou a machadada e o boi ficou mugindo de dor até ser acertado pela segunda vez) e várias galinhas que, naquele mesmo sítio, iam direto do quintal pra panela, não sem antes uma clássica degola. Não, não virei vegetariano, embora admita que o assunto me incomode. Porém, passou a me incomodar ver qualquer tipo de cena que envolva morte ou tortura de animais – o que inclui humanos, também.

Imagino, claro, que eu não hesitaria em puxar um gatilho se fosse ameaçado por um cão doido para pular na minha jugular. Ou se tivesse um filho, poderia fazer o mesmo ao vê-lo em situação de risco. Ontem mesmo vi a cena de uma mãe que teve o instinto de empurrar o filho da escada rolante que se abriu e a engoliu, matando-a – aliás, cena que não quis clicar quando estava somente na internet, mas depois acabou passando na TV. Certamente essa mesma mãe seria capaz de dizimar, humano ou não, quem ameaçasse sua cria.

Mas e quando isso é feito somente por puro prazer?

Foram tantas as histórias das quais já tomei ciência... Tanta gente que maltrata gato e cachorro, que sente prazer em bater, espancar, queimar, escalpelar. Hoje soube de um americano que matou um dos leões símbolos do Zimbábue por puro hobby... É tão difícil compreender.

Na minha casa, há muito espaço para carinho e brincadeiras com os filhotes. Sim, às vezes me derreto todo com a minha vira-lata a ponto de ela me deixar sem moral. Sou capaz de me atrasar para um compromisso porque me sinto na obrigação de dar atenção a eles, nem que seja para um afago ou jogar um brinquedo para eles irem buscar. Um dos rituais sagrados do meu dia é levar os cachorros para passear, ainda que de madrugada. E recebo deles somente amor e gratidão.

Sei, foi só um rato. Provavelmente ele poderia passar uma doença. Provavelmente poderia dar uma dentada contaminada em mim ou em mais alguém em casa. Mas com ele veio uma reflexão. E uma noite mal dormida pra dedéu.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

Luiz disse...

Caí meio do nada aqui no site, mas valeu a pena . Muito interessante seus textos. Essa ideia de superioridade que está impregnada na sociedade é um grande problema que enfrentamos. Realmente existem pessoas que se divertem causando mal ao próximo, o que é lamentável. Quanto ao rato, infelizmente algumas vezes nao temos escolha, até mesmo pelo medo que nos é imposto desde criança. Eu nunca matei um rato, por isso nao posso te entender completamente, mas me sinto mal em pensar no ato. Não fique mal com isso, mas também não se acostume, todos nós ainda temos muito que evoluir.
Boa noite