quarta-feira, 8 de julho de 2015

Sobre Majus e Matilhas




Racismo, machismo, homofobia, intolerância religiosa... Pode até parecer que dormimos numa cápsula do tempo e acordamos na Idade Média. Mas, na verdade, como há semanas venho falando nas minhas colunas aqui do Barba Feita, a única questão é que a sociedade está saindo do armário. Para o bem e para o mal. 

Majus existem aos montes por aí, mas nem todas tem a visibilidade de um Jornal Nacional. Por uma questão de melanina pode não parecer, mas meu avô paterno e uma das minhas bisavós maternas eram negros. E ouvi desde muito novo, situações, mesmo que inconscientes, de preconceito pelas quais passaram. A exposição de Maju, a mesma que causou a hostilidade recebida, foi a que lançou luz sobre um debate que, por vezes, o brasileiro acha erroneamente que está superado. 

Certa vez, vi o ator Lázaro Ramos, um dos melhores de sua geração, dizer que o papel do Foguinho em Cobras & Lagartos, foi muito marcante para ele porque foi a primeira vez que ele pegou um protagonista simplesmente por ser bom ator, e não porque o papel exigia um negro. Isso me veio como um grande baque. Até que ponto nossa sociedade não percebe a discriminação que existe e para a qual, infelizmente, tivemos que recorrer a cotas, ou ainda nos surpreender quando alguma “minoria” (porque dizer que negro é minoria no Brasil só se for entre aspas mesmo) alcança um posto ou objetivo por mérito? 

Assim como Majus, também existem aos montes Bolsonaros e Cunhas. Muitas das vezes são vizinhos de porta, que, inclusive, são belos exemplos de convivência. Não à toa, esses políticos aparecem entre os mais votados no Estado do Rio de Janeiro, onde ficam seus colégios eleitorais. E quanto cada vez mais atacam, mais reafirmam seus ideais, ratificando-se e se mostrando fiéis ao que prometeram aos seus eleitores. 

Quando nos deparamos com situações como a vivida na semana passada pela apresentadora da previsão do tempo do telejornal de maior audiência de nosso país, os que não compactuamos de suas opiniões acabamos mergulhados em um misto de vergonha, desesperança e revolta. 

Não nos custa lembrar que as redes sociais serviram de veículo perfeito para pensamentos retrógrados e reacionários, ao dar ao emissor o conforto de seu computador ou smartphone e evitar o olho no olho. E a legitimar opiniões que poderiam ser condenadas em público ou mesmo em tribunal, ao encontrar eco em outros membros da mesma matilha raivosa. 

Aos preconceituosos de plantão, lamento informar: o mundo andou e vocês ficaram pra trás. É natural vocês ainda existirem em um país que até menos de um século e meio atrás negociava negros escravos como mercadoria e há não muitas décadas não permitia o voto feminino. Mas um dia, saibam vocês, suas opiniões serão estudadas com a mesma vergonha e abominação com a qual hoje vemos a escravidão, o nazismo ou o genocídio de índios.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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