sexta-feira, 10 de julho de 2015

Sobre Vitórias e Derrotas




Nunca gostei de futebol, nem de jogar, nem tampouco ver. Quer dizer, houve uma época que eu até assistia aos jogos do Brasil, uma época em que os jogadores estavam realmente interessados em defender as cores do país e não seus bolsos. Com o passar do tempo, os jogos me entediaram, a seleção deixou de fazer aquele futebol arte que nem sempre ganhava, mas era bonito de ver, vide a Copa de 1982, por exemplo. Hoje, mesmo que ganhe, é apenas mais uma seleção em campo, aquele Brasil que encantava o mundo inteiro não existe mais. Não somos mais o país do futebol.

Se por um lado isso me agrada, porque sempre odiei este rótulo bobo, por outro pode descaracterizar um país que transformou o futebol em sua identidade. E como o Brasil é um país que demora a aprender com os erros, pode demorar anos a entender que somos mais que isso. Entretanto, a era globalizada pode forçar essa mudança mais drasticamente. Durante anos cresci ouvindo o povo a lamentar-se por ter perdido o campeonato mundial de 1950 para o Uruguai. Parecia que o futebol precisava de alguma forma de expiar esse pecado por ter pedido aquele jogo. Quanta bobagem! Há um ano perdemos da Alemanha num placar muito mais vexatório. Barbosa, o goleiro da partida de 1950, deve estar rindo até hoje. E sentindo-se vingado, talvez.

O fato é que o Brasil não sabe perder e sempre buscou ídolos e necessita deles a todo custo. Não importa aonde seja, sofremos dessa síndrome de coitadinhos-terceiro-mundista que precisa ganhar nem que seja roubando. Lembro que nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, a seleção de futebol ficou em terceiro lugar e voltou ao país escondendo a medalha de bronze porque tinha vergonha, nem sequer participou da cerimônia de entrega junto com as outras nações. Uma vergonha muito maior, parecia querer dizer que não aceitavam o terceiro lugar porque era muito pouco para a seleção canarinha. Hortência, que ganhara a medalha de prata na mesma olimpíada, estava radiante, imensamente feliz com sua conquista e de suas colegas no basquete e dissera: “é uma medalha olímpica”. Sim, Hortência, se participar de uma olimpíada já é uma honra, imagine então ganhar uma medalha olímpica.

Viram a diferença? Perder ou ganhar faz parte, ela perdera o último jogo, não ganhara a medalha de ouro, mas havia conquistado uma medalha, não importara a colocação. Para tantos atletas ir a um campeonato mundial, participar de uma olimpíada é uma vitória. Quantos ficam pelo caminho? Para nós, ou melhor, muitos de nós, apenas vencer importa porque somos coitadinhos, nada mais nos resta.
Os Estados Unidos são um país que buscam a vitória a todo custo, porém, se perdem, transformam a derrota num momento de repensar e trazer de volta a glória e não ficam “chorando o leite derramado”. Se fosse assim, não teriam se transformado na potência que são hoje. A Alemanha perdera o campeonato em 2006, mas deu a volta por cima. O resultado de 7x1 contra uma seleção que prometia muito e nunca ofereceu nada, até foi pouco, mas é um bom exemplo do que a eficiência é capaz. Não digo que o brasil não será capaz de dar a volta por cima no esporte, mas a Alemanha construiu grandes jogadores e nós, o que temos?

Ao contrário do Brasil, eles criam as oportunidades para que as vitórias sejam alcançadas, vencer contando apenas com a garra, por mais lindo que seja, não paga as contas de nossos atletas nos demais esportes. Estes mesmos atletas estão lá a defender o país e não estão sendo reconhecidos por isso, por outro lado os futebolistas estão enchendo os bolsos e se lixando para o país! Essa mesma seleção foi perdendo o brilho, foi se tornando não mais uma seleção e sim uma empresa com fins lucrativos. E quem quer torcer por isso? 

Ganhar e perder faz parte de qualquer competição. Faz parte da vida. Outro exemplo, a Alemanha perdeu duas grandes guerras, saíra devastada, mas se reerguera. Eles possuem sim, vergonha pelo mal que causaram ao mundo, mas também não estão a chorar pelos cantos e sim a relembrar o erro para não cometer mais. Um ano depois da derrota do Brasil para a Alemanha, vejo as tevês a relembrar isso. A Alemanha continua lá, se está a vencer ou perder, ela continua lá.

E nós para onde vamos?

Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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