sábado, 18 de julho de 2015

Utopia




Há meses aquela vontade lhe rondava os pensamentos. Já não era mais um garoto. Estava na casa dos trinta. Não tinha uma vida sexual ativa e, pra piorar, não conseguia fazer sexo casual. Não tinha cabeça nem traquejo pra “sair à caça”. Odiava saunas. Estava fora do peso e se sentia completamente ridículo desfilando de sunga ou roupão em meio a um monte de homens sarados. Cabines eram impensáveis, jamais teria coragem de entrar em um ambiente com o único intuito de fazer sexo. Era totalmente travado. Tinha vergonha de tudo. De parecer promíscuo, vulgar, compulsivo. Acabava, por fim, ficando sem sexo por longos períodos.

Vez ou outra, quando não suportava mais o prazer solitário, procurava alguém nos aplicativos. Era tudo mecânico e sem emoção. Ele nunca estava na mesma sintonia do outro, que estava à disposição apenas para aquela trepada e depois, adeus. Sentia-se carente. Era romântico. Queria conhecer a pessoa, conversar, tomar um drink. Daí, depois de um mínimo de envolvimento, transariam com ardor e quem sabe, conversariam mais um pouco depois, e rolaria algo mais. Parecia tão simples. Por que era tão difícil? Após mais uma sessão frustrante de sexo sem compromisso, outro longo período sem sexo. E sem compromisso.

Andava extremamente cansado daquela vida solitária. Queria alguém pra dividir o desassossego do seu coração, precisava falar, estava sem amigos ultimamente. Tinha necessidade de tudo, sexo, afeto, companhia, sentir-se desejado e amado como nunca antes. Estava no limite, não suportava mais sentir-se tão nulo. As sessões de análise já não eram mais suficientes para deixá-lo conformado com tamanho vazio. Então, resolveu pôr em prática a ideia que rondava seus pensamentos há tempos.

Tomou coragem e, após analisar minuciosamente os classificados de sexo do jornal, passou a mão no telefone e discou o número do michê com o sugestivo nome de Dinamite: '1,90m, moreno jambo, musculoso, 22cm, ativo'.

Estava nervoso, as mãos suavam, não sabia como se comportar. Nunca havia feito uma coisa daquelas. Pensou em desistir, pegar o telefone e ligar cancelando o programa. Também não teve coragem de desmarcar. Queria aquele encontro, estava excitado, mas o coração ia sair pela boca, sentia tremores pelo corpo todo. Tentou de tudo para manter-se calmo. Tomou um banho frio, masturbou-se, fez depilação, passou creme por todo o corpo, escolheu uma roupa bacana. Encheu um copo de whisky e sentou-se em frente a TV. Ficou zapeando, enquanto bebericava sua bebida. Após o segundo copo, sentia-se mais relaxado. Quando começava a servir-se da terceira dose o interfone tocou anunciando Dinamite.

Quando abriu a porta, deslumbrou-se com a figura de Dinamite. O homem era testosterona pura. Tinha uma beleza selvagem, rústica, mas com um ar de sofisticação. Usava uma roupa de ginástica, como se tivesse acabado de sair da academia, uma regata branca e um short azul celeste de lycra, nas costas trazia uma mochila e no rosto a expressão mais libidinosa que já tinha visto.

Ficou alguns segundos sem palavras até Dinamite romper o silêncio com o "oi" mais sensual que já tinha ouvido. Sorriu e convidou-o pra entrar.

- Oi, entra, fica à vontade. 
- Já estou. 
- Então, você bebe alguma coisa? Cerveja, whisky, vinho? 
-Se você tiver um suco, eu aceito, não tomo álcool em serviço. 
- Ah, claro, um suco. Só um minuto. 

Ficou na cozinha um tempo que pareceu uma eternidade para Dinamite e voltou com um copo de suco de manga.

-Você demorou, foi tirar a manga do pé? - ironizou o michê.
-Demorei? É que tá uma bagunça a cozinha, não tava achando um copo limpo. 
-Você tá nervoso gatinho? - perguntou Dinamite, levantando-se do sofá e se aproximando lentamente dele, como um bicho se preparando pra atacar sua presa.
-Eu? Não, imagina, tô ótimo. Eu pareço nervoso? 
-Parece sim. Mas pode deixar que eu vou te acalmar, tá? - pronunciou as palavras maliciosamente passando sua grande mão no rosto dele e ajeitando seu cabelo atrás da orelha.
-Olha como você já me deixou com esse seu jeitinho acanhado... - Dinamite agora levava a mão macia dele de encontro a seu membro rijo.
-Não. Espera, espera... - pediu ele afastando-se do GP.
-O que que foi, não quer trepar? Desculpa aí, mas o tempo tá correndo e eu não posso ficar a noite toda. 
-Por que não? 
-Você perguntou quanto era a hora, a noite toda é bem mais caro! 
-Quanto é pra você passar a noite? 
-$350 
-Tudo bem. Eu pago agora ou depois? 
-Tanto faz, como tu costuma fazer? 
-Eu? Eu não sei, eu nunca fiz isso. 
-Tu nunca teve com um michê antes? Nunca pagou um programa? É isso mesmo? 
-Sim, é isso, você é o primeiro. Por que o espanto? É tão incomum assim você atender clientes pela primeira vez? 
-Até que não, mas eu não imaginava que você fosse um deles. 
-Por que? 
-Ah, deixa pra lá... 
-Bom, eu acho melhor acertar antes, vou pegar seu dinheiro. 

Enquanto pegava o dinheiro, pensava que queria mais que sexo com aquele homem. Queria conversar, saber mais dele, descobrir os motivos pra ter se tornado um garoto de programa. Voltou à sala, deu-lhe o dinheiro e sentenciou:

-Nós vamos conversar.
-Como?
-Conversar, eu quero conversar com você. Você não precisa transar comigo por obrigação. Eu prefiro que você converse comigo, me dê atenção, escute o que eu tenho pra dizer e fale de você também. Eu quero conhecer você melhor. 
-Bem, isso tudo é meio estranho, mas não faz muito sentido você não querer que eu transe por obrigação, esse é o meu trabalho, é isso o que eu faço, mesmo sem ter atração pelo meu cliente, mas se você quer só conversar, tudo bem, o dinheiro é seu você faz o que quiser. 
-Eu queria que você se sentisse atraído por mim, que me desejasse de verdade. Aí sim eu transaria com você loucamente. Mas assim não, por caridade, só porque eu tô pagando. Você não me acha atraente? 
-Você é sim atraente, eu não disse que não, mas eu não tô te entendendo, você não me chamou aqui pra fazer sexo? Que jogo é esse? 
-Parece um jogo pra você? Eu só quero uma companhia, alguém pra conversar. Alguém que me ouça e que me explique também. Será que você não entende? 
-Acho que tô começando a entender. 
-É? Que bom! Então me explica. 
-Você quer que eu deseje você de verdade. Eu posso dizer que desejo, posso demonstrar isso, posso não ser indiferente, não aceitar ficar só conversando... 
-Mas como você vai provar isso? Como eu vou saber que não é fingimento? Você é um profissional, seu trabalho é fingir. Fique com seu dinheiro e guarde sua ereção pra outro cliente. Apenas me ouça. Eu sou um poço de carências... 

Seguiu-se longa conversa. Dinamite ouvia em silêncio, às vezes palpitava sobre algo, dava algum conselho. Até que em dado momento cansou de bancar o psicólogo e resolveu partir pra ação. Agarrou-o com a fúria de um leão faminto, rasgou suas roupas e levou-o pro quarto. Na cama penetrou-o de todas as formas e, enquanto suas carnes pareciam rasgar de prazer, sentia-se possuído por demônio. Nunca tantos líquidos haviam sido expelidos em sua cama branca, sêmen, suores, salivas e até sangue. Jamais poderia descrever em uma vida todas as sensações que sentiu. E, por fim, quando Dinamite implodiu em múltiplos gozos dentro dele, completamente exausto, interpelou-o.

-E agora eu nunca vou saber se tudo isso foi desejo ou caridade. 
-Você ainda tem alguma dúvida? 
-Não importa. Você é só um michê. Um excelente michê! E talvez o que eu queira não exista mesmo. Vai ver o que existe de verdade é só isso, momentos esplendorosos de puro prazer, o resto é história da carochinha. 

Virou pro lado e adormeceu. Dinamite ficou observando aquele sono inocente e sorriu um sorriso triste, só não sabia se era triste por ele ou pelo outro. Tentou dormir um pouco antes de partir. Abraçou-o por trás e ficou de conchinha.

Ao despertar pela manhã, sentiu uma ausência doída. Sabia que ele partiria. O clichê do michê. Mas sonhou com um café da manhã e um beijo de adeus. O corpo inteiro dolorido, levantou-se lentamente, os lençóis encharcados. Ao reparar no criado-mudo, uma surpresa que encheu seu coração de doces esperanças, $350.

Leia Também: 

Nenhum comentário: