segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Reticências (...)





(...)

É domingo à tarde. Eu, que normalmente preparo minhas colunas de segunda durante a semana, no mais tardar aos sábados pela manhã, começo a ficar preocupado. Sabem aquele clichê da página em branco, da falta de inspiração? Batido, eu sei, mas tão real nesse momento.

Lá fora, o dia de céu azul e o sol brilhante me chamam. Eu ainda tenho que correr meus 5 Kms no Aterro, quero dar uma volta, ver gente, respirar ar puro. Mas a ideia da coluna não sai. Quero falar sobre poliamor, inspirado em um programa do GNT, mas ainda não sei como desenvolver o tema; quero fazer uma coluna sobre diálogos reais e imaginários, mas a ideia é ainda embrionária; tenho cartas para escrever, mas não agora, não nesse momento. E no passar das horas eu me cobro: como assim você não tem ideias para a sua coluna de amanhã?

Eu ando pela casa, onde estou sozinho nesse fim de semana. Bem, nem tão sozinho, afinal, os verdadeiros donos da casa são Wolfgang e Dimitri, que espalham suas partículas de preguiça pelo ambiente, miando eventualmente para chamar minha atenção quando querem comida, carinho, água direto da torneira da pia do banheiro ou simplesmente brincar e correr por aqui, não necessariamente nessa ordem.

domingo, 30 de agosto de 2015

Silêncio! Pessoa de Inteligência Mediana e Aspirações Modestas Pensando




Vez ou outra começa a circular um texto daqueles de virada de vida. E taca-lha compartilhamento de "como eu larguei meu emprego multibilionário para seguir meu sonho de ser engolidor de facas", ou "o dia em que deixei a presidência para viajar de monociclo pela América Latina", prontamente rebatidos por um "por que abrir meu próprio negócio de cupcakes de cerveja foi a pior decisão da minha vida". O teor é mais ou menos o mesmo: pessoas com empregos regulares que largaram a ideia de estabilidade e renda fixa para investir num sonho lúdico de uma carreira - mais que isso, de uma rotina - fora da caixa. O desfecho muda mas, ruim ou bom, sempre termina em algum tipo de expansão de horizontes. 

Eu sou a primeira a abrir o link, devorando cada linha como quem consome algum tipo de pornografia de nicho na calada da noite. Sou exatamente o tipo de pessoa que escreveria esse tipo de texto - com potencial criativo, filhote da tal geração y (esse barulho alto foi meu bocejo), razoavelmente entediada com a minha vida de poucas viagens e fotos de comida e gatos no Instagram. Leio o texto. Pauso para pensar. Reflito sobre o status quo. E aí abro uma Coca Zero e volto a caçar promoção no Net Now. 

sábado, 29 de agosto de 2015

Haja Paciência!




Sobre relacionamentos amorosos, e a dificuldade sobre-humana de iniciá-los - quiçá mantê-los!, dois fatos essa semana me fizeram refletir.

Eu e meu amigo PAM (de quem já falei aqui, em outra crônica) temos uma linha de raciocínio muito parecida em se tratando a relacionamentos. Não somos desesperados, selecionamos muito bem as pessoas com quem ficamos, não suportamos esses viados que morrem de carência e se jogam em cima do primeiro que aparece pra chamar de seu. Entendemos, cada vez mais, que o amor é para os maduros.

Mas depois de muito desdenhar essa "necessidade básica" gay de ter alguém nem que seja por status, nem que seja pra dizer em silêncio "olha como eu sou uma bicha bem amada" e esfregar, de nariz em pé, o boy, na cara da sociedade LGBT, depois de questionarmos tudo isso e desprezar esse tipo de pensamento e atitude, estamos entrando naquela fase de desejar encontrar alguém no mesmo nível, pra compartilhar experiências, sensações, conquistas, sexo, mas longe de toda essa banalização baixa que a gente vê diante do nosso nariz o tempo todo. Estamos ficando maduros para o amor e queremos ele sim. Não estamos acima do bem e do mal, nem somos superiores a essas bichinhas que não tem critérios, só porque esperamos, por assim dizer, a pessoa certa. Não somos virgens puros, sonhando em entrar na igreja de vestido branco, véu e grinalda, mas também não vamos nos jogar de cabeça na putaria toda. Simplesmente, porque não é a nossa praia.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Sobre o Brasil, Brasileiros e Odete Roitman




Houve um tempo em que o Brasil era chamado de país do futuro, um tempo onde as pessoas tinham esperança. Não faz muito tempo, mas esse tempo se foi. Da esperança restou apenas um povo devoto que prefere rezar a trabalhar, ganhar a torcer; um povo que tem sede de ídolos, reis e rainhas. Mas que não sabe o que faria se alcançasse o poder. 

Triste é um povo que privado da instrução e educação não sabe escolher. Que aceita vender seu voto por uma mísera cesta básica. E houve um tempo que vendia por uma dentadura. Que destruiu seu patrimônio em nome de um progresso que não existiria. De uma ordem que foi imposta por uma ditadura que dilacerou tantos sonhos. 

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Todo Mundo Odeia o Fernando





O que mais gosto do Masterchef Brasil é poder torcer por alguém e saber que minha torcida, de nenhuma maneira, interferirá no programa. Assistirei e comentarei nas redes sociais e só. Minha torcida e meu nariz torto por alguém não afetarão as eliminações que vão acontecendo no meio do caminho. Dito isso, tenho total liberdade para torcer por uns e não gostar em nada de outros.

Na primeira temporada do reality show da Band, por exemplo, só tinha torcidas. Tive um participante aqui e outro ali com quem não simpatizei, mas no todo só tive favoritos e meu coração partido com as inevitáveis eliminações. Mas o final da primeira temporada foi épico. Um momento, melhor dizendo, o grande momento que fez o programa de cozinheiros amadores ter um espaço cativo no coração de todos os espectadores.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Pequenas Grandes Coisas





Eu nem te falei 
da dor de acordar 
sem você por perto 
pra um bom-dia dar 
Eu nem te falei 
da falta que eu sinto 
das tardes no quarto, 
de te ver sorrindo 
E agora 
cada esquina é uma tortura 
cada rosto, uma miragem 
cada sonho com tua boca 
transformado em tolas lágrimas 
de um duro despertar 
Eu nem te falei 
que o teu “já” é o meu “ainda” 
que a falta de sintonia 
das nossas pulsações 
é porque o teu pretérito 
e o que eu chamo de presente 
estão fadados a andar juntos mais à frente 
Pois ainda que o mundo gire 
em torno de si mesmo 
ou em torno do sol 
sei que vou estar aqui 
pra te fazer sentir 
entre um breve soluço 
e um estalar de lábios 
todas essas pequenas grandes coisas

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Maxwell: Verdade Secreta





Alex ficou me encarando, estarrecido, enquanto eu sorria, o copo erguido, pronto pra um brinde. Ele sorriu forçado, brindou e deu um gole, me encarando enquanto fazia. 

- Jonas, da contabilidade está atrás de você, duas mesas; da entrada eu vi a Cintia, da engenharia, sentada a nossa esquerda, e atrás de mim está o filho do Mendez. 
- Eu também vi. Pensei que não notaria. 
- Você não me conhece, então. – Ele sorriu e moveu as sobrancelhas pra cima e pra baixo, três vezes. – E então, o que você tem que fazer? 

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Com Amor, L.




Oi, quanto tempo, né? Pois é, eu sei, ando sumido, mas você deve me entender, afinal, você sempre me entendeu e, mais que isso, sempre soube que eu faria o possível para sair (e me manter longe) da nossa cidade. Depois que isso aconteceu, minhas visitas aos meus pais tem rareado ao mínimo possível e são rápidas e eficientes em meu objetivo de matar a saudade deles. E você, que nunca foi chegada em uma rede social ou virtualidades, também não facilitou que mantivéssemos contato. Ok, ok, esse sou eu desviando a minha culpa, mas você também sabe que eu sempre fui assim.

Esses dias estava conversando com um amigo sobre a minha vida e lembrei de você, da nossa história, de como você sempre esteve lá para mim. E de como eu fui covarde depois que tudo acabou, e nunca sentei e conversei sobre os motivos reais que levaram todos nossos planos a serem desfeitos em um belo dia qualquer. Não quero que você entenda; não, esse não é o objetivo aqui. Quero apenas colocar pra fora coisas que me incomodam e que eu nunca consegui verbalizar e botar em ordem na minha cabeça.

domingo, 23 de agosto de 2015

Boicote à Vida




A intolerância travestida de ofensa, moral e bons costumes, vai mostrando suas garras proporcionalmente ao abalo do status quo onde viado bom é o que fica em seu gueto, quietinho, e aparece apenas como alívio cômico estereotipado e pejorativo, ou como prestador de serviços que essa parcela risível da sociedade entende como femininos, agregando um preconceito a outro tão ou mais pernicioso. 

Quando a viadagem rompe os muros do gueto e resolve dar a cara à tapa, como lidar? Afinal, tinhamos lá nosso cantinho, não? Por que ameaçar a sociedade que tacitamente nos cedeu esse espaço onde podemos ser o que quisermos? Precisa casar? Ter filho? Aparecer na TV? Querer ser visto? Onde já se viu! Ponha-se no seu lugar, bicha! Ninguém é obrigado a ver suas indecências em rede nacional, ruas e avenidas, que absurdo! Saudades do tempo em que esses viados sabiam seu lugar! 

sábado, 22 de agosto de 2015

Playboy: Do Glamour à Decadência





Eu sempre gostei muito de revistas. Bancas de jornal, pra mim, eram um oásis, parava em qualquer esquina que tivesse uma e ficava ali por longos minutos garimpando todas as novidades. Revista de decoração, comportamento, turismo, televisão, culinária. Todas me apeteciam. Tive a fase colecionador, obviamente. Lembro de, em meados dos anos 90, ficar viciado na Contigo!, tinha pilhas. Também colecionei Capricho, Querida, G Magazine e Junior. Nova Cosmopolitan, Claudia, Marie Claire, Superinteressante, Mente & Cérebro, Vida Simples, Caras, Quem, Chiques & Famosos, Ana Maria, Próxima Viagem, Viagem e Turismo. Todas essas também devorava. Em consultórios médicos, salões de beleza e afins, fazia a festa com aquele monte de revista velha. 

Hoje em dia, esse hábito tem arrefecido bastante, embora ainda goste delas e o prazer de folhear uma revista, tomando um cappuccino em algum café da cidade, seja uma das coisas mais deliciosas a se curtir, sinto pouco a pouco uma paixão dar seus últimos suspiros de vida, assim como uma das publicações mais antigas e renomados da indústria editorial. Falo da mais famosa "revista do homem", a clássica Playboy. Tenho um carinho todo especial por essa revista e é uma lástima pensar que seus dias de glória chegaram ao fim. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Sobre Estrelas





-Então? O que me diz? 

Pausa, houve uma longa pausa. Mas uma resposta. Tudo acontecera numa sexta-feira. E não demorou muito para que os amigos se encontrassem para colocar os assuntos em dia. 

- O que você disse a ele? O que aconteceu? Conta logo Edu, não faz esse suspense todo! 

Edu ria da curiosidade do amigo ao mesmo tempo que adorava lembrar como tudo acontecera. Ele não pensou muito. Aceitou o convite e quando viu estava comendo pipoca e assistindo um filme. 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

A Hora Certa de Voltar





Quando sai de "férias" do Barba, possuía um plano bem simples. Queria assistir minhas séries acumuladas, ler meus livros da Maratona Literária de Inverno e pensar sobre a vida. Escrever nesse espaço é um exercício não só semanal, mas diário, de reflexão constante. E me vi em um momento em que precisava saber como estava. Como realmente estava me sentindo.

Tenho a teoria de que quando passamos muito tempo falando, falando e falando, normalmente não nos ouvimos e esquecemos de nos preocupar com algo bem importante: nossos desejos! Se o nosso tesão morre ou fica adormecido,  não temos motivação. Somos só um apanhado de sentimentos compactados e que seguem o constante fluxo, mas sem grau ou nenhum rumo definido no meio disso tudo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Sentença




Todas as noites Chicão acordava suado
coberto até o nariz, seu olhar horrorizado
temia o que diziam que morava embaixo de sua cama
ou dentro de seu armário
temia o próprio escuro
se sentia pequenino coberto pelo lençol
pequeno demais pra separar
seu mundo de ficção
daquilo que realmente existia à sua volta.
Mas os anos se passaram
e Chicão tornou-se grande
mas a sua cabeça continuou bem pequena
e Chicão agora não temia mais o escuro
temia a própria sombra
assombrado pelas notas que havia nos jornais
falando de assalto, de sangue no asfalto
de balas perdidas e de vidas mais ainda.
E Chicão resolveu agir ao invés de reagir
achando que lutava contra essa violência
mas na verdade dando fôlego a essa indústria inacabável
indústria do medo, do dedo no gatilho.
E Chicão foi morar num condomínio fechado
alarme, cerca elétrica, grades, arame farpado
no carro, vidros pretos, todos eles blindados
com seus filhos, seguranças, todos eles armados
bem armados, mal amados.
E Chicão não saía mais
se protegendo, perecendo, perdendo a batalha
a cada trinca a mais na porta
a cada arma a mais em casa
a cada noite a mais sem sono
sentado em sua poltrona
com a boca escancarada cheia de dentes
esperando a morte chegar.
E um dia ela chegou
e não houve arma, alarme ou vidro blindado
que evitasse o inevitável.
Voltando para casa, entrando em seu carro,
Chicão sentiu o cano frio da pistola
e enquanto se apavorava não reparava
que esse era o momento que tanto esperava.
Pra que tanto ensaio se agora era real?
E Chicão reagiu quando não podia
e a pistola que até então era fria
queimou em sua cabeça.
Mais um corpo no chão,
mais um assalto, mais sangue no asfalto,
mais uma nota assombrosa nos jornais.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Maxwell: Missão Homofóbica




Oi, eu sou o Maxwell, mas podem chamar de Max, todo mundo chama, já me acostumei. Sou um cara normal: fumo, bebo, transo, gasto com coisas supérfluas (descobri recentemente que esse é o termo certo, e não “supérfulas”), vou ao cinema, me exercito... Enfim, o básico pra um cara de vinte e quatro anos. 

Me formei em Recursos Humanos e passei um ano e meio trabalhando como gerente de uma loja de doces, porque, imaginem só, as empresas não gostam de contratar pessoas sem experiência. Adoro a coerência desse povo. Três pessoas, uma vaga. E eu consegui. Entrei pro RH de uma famosa fábrica de carros no Rio de Janeiro. Salário bom, lugar bacana, até aí tudo bem. Até eu descobrir que seríamos quatro pessoas na sala: duas mulheres e, agora comigo, dois homens. Seria tudo normal se o outro não fosse o infeliz do meu ex-namorado!  (Um ano e meio de namoro e ele me diz o que? Que acha melhor nos separarmos, porque ele tem dúvidas sobre o futuro, e a vida, e a família... Ah, mas isso faz o meu sangue subir...) 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Círculo Vicioso





Levantou-se da cama e ficou admirando o outro corpo nu, adormecido sobre os lençóis de algodão. Colocou os óculos, ajeitou o cabelo e pensou: 

- Putaqueopariu! Por que eu sempre me arrependo no dia seguinte de pegar essas merdas na noite? Maldita cerveja! 

Foi até o banheiro, tomou um banho e só desejava que quando voltasse ao quarto ele já não estivesse mais lá. Mas não, as pessoas não são práticas; pelo contrário, são muito óbvias. 

domingo, 16 de agosto de 2015

Mais Amor, Por Favor!





Esses dias presenciei uma cena que me fez refletir um pouco em como nós temos a capacidade arbitraria de julgar e condenar ao próximo sem realmente sabermos o que leva a pessoa a ter uma certa atitude ou ficar em uma determinada situação. 

Eu acabara de adentrar num banheiro público numa das estações de metrô aqui de São Paulo, e eis que havia um morador de rua saindo dali. Ele saiu e, rapidamente, a pessoa responsável pela limpeza e higienização do local começou o processo de limpeza, pois ficou um cheiro extremamente forte no local. Porém, além de limpar, essa pessoa começou a maldizer sobre a situação do morador, logo proferindo que não sabia como uma pessoa podia viver assim, que não fazia nada para sair daquela circunstância e que era apenas um vagabundo qualquer. 

sábado, 15 de agosto de 2015

O Essencial Sobre Mim





Completei 34 anos essa semana. Idade sem graça, né? 33 é bonito, a idade de Cristo; 35 é redondo, o fechamento de um ciclo; mas 34, qual é a graça? Enfim, divago. Por causa do niver, comemorado de forma bem intimista, com amigos íntimos e muito amados, e algumas conversas aleatórias depois, me vieram algumas reflexões, que me trouxeram a esse texto, que nada mais é que um apanhado bem resumido de minha trajetória até aqui e um tipo de esclarecimento, a quem interessar possa.

Aos nove anos comecei a me tornar um pequeno viciado em novelas. Mais do que isso, me vi irremediavelmente fascinado pela possibilidade de criá-las. Era o ano de 1990, a política fervia com as falcatruas do então presidente Fernando Collor de Mello e os brasileiros passavam por maus bocados. Mas, completamente alheio a toda a chatice governamental, eu só queria saber de Rainha da Sucata, Barriga de Aluguel, Mico PretoGente FinaLua Cheia de AmorArapongaMeu Bem Meu Mal, na Rede Globo, e Pantanal, na Manchete, todas as novelas daquele ano.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Sobre Meteoros





Michel - para alguns Mike - não nasceu Michel. Possuía um nome que odiava. Por isso não serei eu que aqui revelarei. Desde os 16 anos era um rapagão que fazia-se desejar. Mas ele nem se importava com isso. Achava que as pessoas exageravam, mas isso não o impedia de ganhar uns presentes de uns homens e senhoras mais velhos que achavam que ele merecia por fazer um favorzinho aqui e ali. Ora fazendo um trabalho de jardinagem, ora como pintor, coisas que ele fazia muito mal, mas mesmo assim o pagavam. Lembrava aquele dia na casa do velho Olegário , quando fora ajudar a limpar o sótão. Não se importou de fazer em trajes íntimos e do velho ficar sentado apenas a observar, a vantagem era que o homem nem sequer tocou nele. Muitas vezes o tocavam. E muitas dessas vezes ele não gostava. Imponha limites. Podem olhar, mas não me toquem. Não gostava daquelas mãos velhas e frias sobre ele.

Deixou a escola, não gostava de estudar. Um dia, um homem a quem fizeram um pequeno favor sugeriu que fosse a um cinema ganhar uns trocados. Achou o lugar estranho e decadente, mas fez sucesso com os habitués do local, a grande maioria velhos e não gostou disso. Eles queriam lhe tocar. Alguém suspirou no escuro que ele não pertencia aquele lugar. Ele tinha certeza disso. Ficou assustado. Um rapaz com traços fortes e “olhos de ressaca” lhe indicou uma sauna que, segundo ele, era um local melhor. O que o rapaz queria era livrar-se do concorrente.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Sexo Oral - # 06





I’m baaaaaaaack! Depois de uns dias de férias e de ter sido presenteado com textos de Fernanda Prates e Michael Oliveira, decidi voltar em grande estilo. Sim, vamos voltar falando de sexo, relacionamento e aquilo que fica no meio dos dois. Afinal, existe assunto melhor para apimentar nossa quinta-feira? Quer dizer, existe. Nanda, Mikes e eu falando sobre o assunto, claro! Isso mesmo. Você teve duas semanas de cada um e chegou a hora de ter nós três ao mesmo tempo (ui...). 

Então se prepare que essas são as dúvidas sexuais dessa sexta e especial edição do Sexo Oral. E lembre-se: você pode enviar suas perguntas para o nosso e-mail: BarbaFeitaBlog@Gmail.com ou via inbox na nossa página no Facebook. Pode deixar que sua identidade será preservada, sempre! 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Não Basta Ser Pai, Tem Que Ser Paulo




A semana começou com uma data daquelas pra aquecer o comércio, o Dia dos Pais, mas que eu, mesmo assim, não consigo passar longe do meu. Meu pai e eu somos dois caras muito diferentes. Quando eu era pequeno, não via nada dele em mim, exceto os olhos – isso sempre foi muito igual e até o astigmatismo e a hipermetropia fizeram questão de migrar geneticamente. Mas é impressionante como, hoje em dia, morando longe dele, eu enxergo muito mais as nossas similaridades.  

Meu pai nasceu em Mogeiro, interior da Paraíba. Com 14 anos, veio para o Rio de Janeiro, morar numa área pobre na casa de uma irmã que ele nem conhecia – a diferença de idade era tanta que, quando ela partiu rumo ao Rio ele era muito pequeno para se lembrar, já adolescente. Filho de Sebastião e Davina, teve quinze irmãos (reconhecidos, porque há varias lendas a respeito do velho Bastião), dos quais onze vingaram, além dele. Lidar desde cedo com a mortalidade infantil era uma realidade muito comum no Nordeste e com essa numerosa família não foi diferente.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Sobre o Texto da Semana Passada





Eu me lembro até hoje do dia que eu mandei um e-mail pro Leandro. Vi um post do Mikes pro Pop de Botequim e, depois de dar uma vasculhada no blog, pensei: "Que bacana, será que tem vaga?". Mandei um e-mail todo formal pro Leandro, falando do meu interesse em entrar pro PdB, e passamos o dia trocando e-mails e falando besteira. Eu sabia que estava ingressando num blog de colaboração gratuita, mas não consigo evitar e-mails formais, é algo automático.

Depois de muita conversa, adotei a #VergonhaAlheia e tô com ela até hoje. Eu adorei, de verdade; poder me soltar na Internet foi bem interessante, colocar toda essa criatividade pra fora, usar o meu deboche pra algo útil, tudo bem bacana.

Um tempo depois, Leandro surgiu com a ideia de criar o Barba Feita, um blog voltado para todos os públicos, sobre vários assuntos, mas focado em assuntos LGBT, no público LGBT. Na hora eu topei; pensei comigo: "Poder ser viado na Internet e falar sobre ser viado, na Internet, vai ser bem bacana!". Depois bateu aquele medo...

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Amor e Merecimento








"A gente aceita o amor que acha que merece..."
As Vantagens de Ser Invisível (Stephen Chbosky)

As Vantagens de Ser Invisível, livro de Stephen Chbosky que deu origem ao filme de mesmo nome, deveria ser obrigatório para qualquer adolescente em processo de descoberta e transição. Entretanto, apesar de protagonizado por três adolescentes, ele não é um livro apenas juvenil, já que fala para todos os públicos, tocando a cada leitor com sua trama bela e envolvente. Mas, deixo claro, esse texto não é uma resenha (inclusive porque já falei sobre o livro e sobre o filme lá no Pop de Botequim, nosso co-irmão direcionado à cultura pop). A ideia da coluna de hoje surgiu ao me lembrar da frase que abre esse texto, que considero uma pequena verdade que muitos de nós sequer nos damos conta.

Apenas para contextualizar, o livro é uma coletânea de cartas enviadas pelo jovem Charlie a alguém que não identificamos. Mas nessas cartas vamos conhecendo o cotidiano de Charlie, suas inquietações e problemas. Em determinado momento, ao falar sobre sua irmã, descobrimos que ela namora um rapaz que a maltrata, inclusive fisicamente. Charlie não consegue entender como alguém bela como sua irmã se permite viver um relacionamento claramente abusivo e resolve questionar um professor, que na verdade é um verdadeiro amigo, sobre os motivos que a levam a fazer isso. E ele recebe a resposta simples e que, tantas vezes, não conseguimos verbalizar ou sequer aceitar: a gente aceita o amor que acha que merece!

domingo, 9 de agosto de 2015

HIV e Profilaxia Pós Exposição: Curiosidades e Informações





Vamos falar de prevenção do HIV? Um dos assuntos que bombou nessas últimas semanas foi o primeiro protocolo de PEP (Profilaxia Pós Exposição) divulgado pelo Ministério da Saúde. 

E, afinal, que diabos é profilaxia pós exposição? É o nome dado para o uso de medicamentos após uma exposição, no caso, do HIV. Na prática, isso é o uso de medicamentos antirretrovirais – os mesmos do tratamento da AIDS – por 28 dias, para evitar que uma pessoa exposta ao vírus HIV seja infectada. É o que chamamos carinhosamente de pílula dos 28 dias seguintes. 

sábado, 8 de agosto de 2015

Dois Passivos Não Se Beijam?





Muitos heterossexuais imaginam a vida gay de forma bem mais simples, descomplicada e livre do que ela realmente é. Se você é hétero e pensa sobre os gays como a maioria dos que tem a mesma orientação sexual que a sua, prepare-se, este texto contém spoilers sobre o "mundinho gay", que talvez você nunca tenha imaginado. Talvez você fique decepcionado, talvez pense como somos babacas ou ainda fique feliz por descobrir-se mais livre e descomplicado em sua sexualidade, de fato. Já se o caríssimo leitor for gay, saberá perfeitamente do que estou falando.

Teoricamente, gays seriam mais livres e leves em sua sexualidade, sem tantas cobranças, regras e imposições. Mas tudo isso não passa de teoria, já que na prática o bicho pega. Talvez um dia tenha sido assim, mas hoje, o "mundinho" virou uma chatice.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Sobre Cometas (ou Aquele Momento Em Que Você Gostaria de Ser o Johnny Hooker)



Ato 1: Você ainda pensa? 
O terrível momento em que tudo parece não ter mais sentido. Arraste-me para longe, deixe-me morrer! Aquele momento era real. E agora? Como continuar? O que fazer? Contudo, de repente, o branco já não existia sozinho. Ele traz consigo o silêncio. Não apenas o meu. Não demorou para que as luzes começassem a sugar minha alma. Já não sentia-me vivo. Talvez estivesse mesmo morto. Ótimo seria, poderia findar este solstício 

Ato: 2: Volta 
As trevas surgem e dominam o ambiente. Nada mais. Por um pequeno momento tudo se apaga. Os segundos parecem horas. Um pequeno erro pode levar para muito longe. As trevas quebram o silêncio. Um choro de criança. Milhões de perguntas ao mesmo tempo. O que houve? Tudo bem? Não, nada está bem. O que vem agora? Um copo d’água por favor. Rostos inquisidores, bravos, mas acima de tudo amedrontados. O que estava acontecendo, alguém poderia dizer? E aquela criança que não para de chorar? E essa água que não vem? 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O Valor do Dinheiro é Real




Há um ano eu decidi largar minha vida no Brasil e virar voluntário em uma escola na Inglaterra. Mas não se preocupe, esse não é mais um texto que tenta te convencer que viajar é o caminho para se conquistar a felicidade eterna. Quero falar de algo mais simples: o meu espanto ao vir passar as férias no Brasil e me deparar com o preço surreal das coisas. 

Como voluntário na Inglaterra eu tinha uma ajuda de custo mensal de 160 libras e podia fazer um número limitado de horas extras. Com esse dinheiro eu consegui comprar um computador, uma câmera fotográfica, um tablet novo, me entupir de bebida na balada com uma certa frequência e conhecer seis países diferentes. Não tinha uma vida de luxos, mas tinha uma qualidade de vida que não tinha no Brasil. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O Inapelável Fim




Deparar-se com a morte nunca é fácil. Embora sejamos os únicos seres vivos que nascem e aprendem ao longo da vida que irão morrer, lidar com a própria finitude é uma tarefa para poucos. Existem algumas situações na trajetória humana que são quase atestados prévios de morte, como já foi (e hoje é em menor escala) a AIDS, e ainda são o Mal de Alzheimer e o câncer. Foi justamente essa última (ou últimas, porque existem diversos tipos) doença que mais me fez refletir nos últimos dias: nessas duas semanas recentes, por questão de trabalho, estreitei novamente os meus laços com a maior instituição de tratamento do câncer no Brasil, o INCA. E tive ainda mais certeza do quanto estamos despreparados para falar deste nosso indesejado e famigerado fim da linha: o bater de botas.

O câncer é uma doença cruel. Abala o emocional de qualquer um. Faz a grande maioria se deparar com cirurgias e tratamentos agressivos, que nem sempre dão resultado. É doloroso para o corpo e para a alma; por vezes deforma partes do corpo, deixa a pessoa careca e com feridas. Traz para alguns a dureza de já ter a certeza de que não há mais tratamento possível e que deixará seus filhos órfãos em breve; ou pais “órfãos”, ao verem um filho ou filha partirem antes deles – algo tão antinatural que sequer existe um termo para pais nessa condição.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Corrida Contra o Tempo




Eu estou de volta. E não apenas ao Barba. Calma, eu explico.

Quando meu relacionamento acabou (eu sei, voltamos a isso; mas calma, é a última vez, prometo), meu emocional ficou incrivelmente abalado, de um jeito que não deveria ter ficado. Eu chorava sóbrio, bêbado, me desconcentrava, ficava irritado, depressivo, às vezes um sentimento por dia, às vezes tudo num dia só. Chegou ao ponto em que eu não estava ME aguentando. Eu tinha que fazer alguma coisa a respeito, certo? Certo. Mas cadê que eu conseguia? Silvestre, Vinicius, Levy e PH e minha chefe, eu não sei como esses cinco me suportaram, porque olha...

Até que eu consegui fazer o que precisava pra poder tocar a minha vida: eu me "desliguei". Ok, certo, a gente sabe que não existe isso, que não tem interruptor, nem nada; não precisam me dizer, eu sei disso. Mas eu consegui. Consegui olhar pra outros homens, achá-los bonitos, ir pra balada, beijar, flertar no bar, tudo isso. Foi uma maravilha. Pelo menos no início...

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Equívocos





Por uma dessas coincidências da vida, o Esdras Bailone, nosso colunista dos sábados, teve a mesma formação religiosa que eu. Na verdade, foi mais por isso que ficamos amigos, já que um belo dia eu escrevi algo que dizia um pouco sobre o assunto em meu antigo blog particular, o Esdras leu, me mandou um email e começamos a conversar. Nascia aí uma bela amizade.

Esses dias, ao se deparar com uma foto de uma conhecida dele no Facebook, que também já foi da mesma religião que um dia frequentamos, o Esdras se lembrou de mim e me falou sobre a legenda colocada por sua amiga nessa foto de seu passado:
"Foto de um tempo que eu achava que era feliz, mas era equivocada. Ainda assim: bons tempos."
E eu achei tão precisa essa colocação, me vendo no lugar dela, que eu nem conheço, e compartilhando do mesmo sentimento. Afinal, por tanto tempo em minha vida eu achava que era feliz sem nem me dar conta de que eu não sabia o que era exatamente a felicidade. Eu, assim como a amiga do Esdras, era apenas equivocado. E me dar conta disso agora me faz encarar a felicidade por outro prisma.

domingo, 2 de agosto de 2015

Quite Nice People




Como eu tenho tanto medo de pessoas? A maioria das pessoas são bem legais.

Como eu sou tão apaixonado por pessoas? A maioria das pessoas são bem estúpidas. 

Tenho um sério problema de superestimar pessoas. Não é culpa delas, sabe. Eu simplesmente faço esse tipo de coisa sem pensar. Eu simplesmente tenho a tendência de achar que as pessoas são sempre muito melhores do que elas realmente são, e isso não significa que elas sejam ruins de qualquer maneira; algumas até são bem normais, mas minha mente, predisposta a pensar mais do que deveria sobre qualquer coisa, coloca pressão em cima de quem ela gostar. Ah, essa é outra coisa que eu costumo fazer bastante também: gostar das pessoas. Mas, ao mesmo tempo, desgosto de boa parte delas.

sábado, 1 de agosto de 2015

O Que Você Demora É O Que O Tempo Leva




"Entre por essa porta agora e diga que me adora. Você tem meia-hora pra mudar a minha vida."

Voltou ao Brasil após 15 anos na Europa. Partiu para viver em Granada, na Espanha, aos dezoito anos, onde se formou e fixou residência. Deixou pra trás uma pendência. Um sentimento, um sonho, uma possibilidade. Um desejo não consumado. Foi embora com o gosto daquele beijo e a lembrança das carícias trocadas em segredo, que se cristalizaram em sua memória. 

Na noite da despedida, ela namorava Lucas e João Pedro namorava Alice. Após algumas cervejas, garrafas de vinho e baseado, não demorou muito a perceber que os pares estavam trocados. Sentiu-se irremediavelmente atraída por quem não era seu namorado e foi correspondida. Em meio a madrugada, aproveitaram o sono de seus respectivos pares e aqueceram-se em frente às últimas fagulhas da fogueira que fizeram no início da noite, tomaram mais vinho, envolveram-se em um cobertor e trocaram fluidos intensos. Toques. Afagos. Suspiros. O coração descompassado. Tudo muito novo e quase assustador. Não imaginaram aquele envolvimento, não planejaram, apenas aconteceu e foi tão profundo, que ela já começara a imaginar como contar a Lucas que não era ele quem queria. Mas, a outra parte recuou, não tinha estrutura psicológica pra enfrentar aquela situação, sua relação já tinha mais tempo que a dela e preferia manter em segredo o acontecido, não queria magoar ninguém.