segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Amor e Merecimento








"A gente aceita o amor que acha que merece..."
As Vantagens de Ser Invisível (Stephen Chbosky)

As Vantagens de Ser Invisível, livro de Stephen Chbosky que deu origem ao filme de mesmo nome, deveria ser obrigatório para qualquer adolescente em processo de descoberta e transição. Entretanto, apesar de protagonizado por três adolescentes, ele não é um livro apenas juvenil, já que fala para todos os públicos, tocando a cada leitor com sua trama bela e envolvente. Mas, deixo claro, esse texto não é uma resenha (inclusive porque já falei sobre o livro e sobre o filme lá no Pop de Botequim, nosso co-irmão direcionado à cultura pop). A ideia da coluna de hoje surgiu ao me lembrar da frase que abre esse texto, que considero uma pequena verdade que muitos de nós sequer nos damos conta.

Apenas para contextualizar, o livro é uma coletânea de cartas enviadas pelo jovem Charlie a alguém que não identificamos. Mas nessas cartas vamos conhecendo o cotidiano de Charlie, suas inquietações e problemas. Em determinado momento, ao falar sobre sua irmã, descobrimos que ela namora um rapaz que a maltrata, inclusive fisicamente. Charlie não consegue entender como alguém bela como sua irmã se permite viver um relacionamento claramente abusivo e resolve questionar um professor, que na verdade é um verdadeiro amigo, sobre os motivos que a levam a fazer isso. E ele recebe a resposta simples e que, tantas vezes, não conseguimos verbalizar ou sequer aceitar: a gente aceita o amor que acha que merece!

Porque é exatamente assim que funciona para todos nós. Apesar da romantização, sabemos que não somos flechados pelo Cupido ou possuídos por alguma entidade que nos obriga a amar alguém exatamente do jeito que ele é. Amor é construído a partir da paixão e, querendo ou não, pelas escolhas que tomamos a partir disso. E nós, como indivíduos, aceitamos ou não o que vem com esse amor, que pode ser muito bom ou, algumas vezes, bastante desagradável. E o que importa, no fim das contas, é que somos nós os responsáveis por nossas escolhas e cabe somente a nós redirecioná-las quando nos equivocamos

Mas, o que vemos muito à nossa volta são pessoas amarguradas e sofrendo em relacionamentos fracassados ou destrutivos, unicamente por não se acharem merecedores de algo melhor. O pior é que esse comportamento, muitas vezes, nem é percebido. A acomodação e o medo de ficar sozinho fazem com que se acostumem com o pouco ou o mediano, esquecendo-se que merecem coisas muito melhores. É uma espécie de cegueira afetiva triste e solitária, mas que cabe a apenas a pessoa que se afundou nela tomar a decisão de abandonar o barco que poderá afogá-la.

Parece clichê (e é, tenho certeza disso), mas somos nós que construímos os nossos caminhos. Somos responsáveis por nossas ações e, principalmente, pelas merdas que fazemos nessa vida. E se aquele príncipe encantado de outrora se transformou em um dementador sugador de energias no presente, cabe a você dar o pé na bunda dele, sabendo que você merece mais que uma relação doentia. Se a princesa dos seus sonhos mostrou-se uma manipuladora de primeira linha, pra que insistir em uma relação que apenas irá lhe consumir? Não se esqueça: você aceita o amor que acha que merece.

Eu me acho um cara prático e tento levar a minha vida dessa forma. Mas já sofri por amor, já chorei soluçando abraçado ao travesseiro em posição fetal, já senti dores emocionais que pareciam físicas. Mas até nesses momentos eu sabia quem era o responsável por aquilo tudo que estava acontecendo comigo. As pessoas fazem conosco aquilo que permitimos que elas façam. Mas também somos nós que devemos retomar o controle da situação e perceber que migalhas de amor não alimentam ninguém. E se existe um botão on/off para amor próprio e reação, segue um spoiler da vida: somente você pode acioná-lo.

Porque amar é maravilhoso. Partilhar a vida, fazer planos, sentir-se bem ao lado de alguém que também decidiu estar ao seu lado é uma experiência que todo mundo deveria viver. Mas fazer isso a qualquer custo, até mesmo se anulando, sofrendo apenas para estar com alguém, não é o que eu chamo de amor e sim uma visão distorcida do que o amor deveria ser. Afinal, merecemos muito, mais e o melhor. 

E já que comecei o texto (que parece autoajuda, mas é na verdade apenas uma porção de pensamentos aleatórios em formas de bites e bytes no mundo da internet) com uma citação de As Vantagens de Ser Invisível, termino desejando que todos nós possamos nos sentir infinitos, como os personagens principais se sentem em determinada passagem daquela história. E certo de que cada um é completo porque tem o amor que lhe faz bem e nos torna melhores, exatamente como sabemos que merecemos. Não é mesmo?

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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