domingo, 23 de agosto de 2015

Boicote à Vida




A intolerância travestida de ofensa, moral e bons costumes, vai mostrando suas garras proporcionalmente ao abalo do status quo onde viado bom é o que fica em seu gueto, quietinho, e aparece apenas como alívio cômico estereotipado e pejorativo, ou como prestador de serviços que essa parcela risível da sociedade entende como femininos, agregando um preconceito a outro tão ou mais pernicioso. 

Quando a viadagem rompe os muros do gueto e resolve dar a cara à tapa, como lidar? Afinal, tinhamos lá nosso cantinho, não? Por que ameaçar a sociedade que tacitamente nos cedeu esse espaço onde podemos ser o que quisermos? Precisa casar? Ter filho? Aparecer na TV? Querer ser visto? Onde já se viu! Ponha-se no seu lugar, bicha! Ninguém é obrigado a ver suas indecências em rede nacional, ruas e avenidas, que absurdo! Saudades do tempo em que esses viados sabiam seu lugar! 

Esse lugar nunca existiu, foi imposto e abraçado por nós gays na absoluta falta e impossibilidade de podermos coabitar o mesmo espaço que a maioria hetero. Ainda que nocivo sob alguns aspectos, esse gueto construiu nossa identidade e ajudou um sem fim de viados (eu incluso) a sentir-se aceito, parte de algo e não isolado do e no mundo. Por anos vivemos assim, dos restos e rebarbas atirados a nós feito esmola mas, o tempo é inexorável e com ele as mudanças que nenhuma força obscura pode deter ainda que possam (apenas) atrasar e obstruir sem fazer com que se diminua o ritmo da marcha posta em movimento por pessoas, situações e desejos muito além de sua ilusão de controle. 

É do humano a aversão total a qualquer mudança. Somos assim independente de credo, cor, orientação sexual, apetite, forma ou desejo. Somos criaturas do comforto, do padrão, do estável, do conhecido. Tudo que foge disso nos apavora, gela a espinha, traz calafrios e pânico e, como todo e qualquer animal acuado, partimos para o ataque esquecendo da claridade que nos foi agraciada por anos de evolução, pelo simples fato de termos medo. 

Estamos numa fase de transição, saímos do armário e não há mais volta. Ficar onde estamos, aceitando o pedaço que temos no latifúndio, é aceitar mais uma esmola, um cala a boca e assim, só nos resta uma alternativa: ir em frente, adiante. Certo que muitos de nós pagarão preços diferentes por essa decisão: uns, apenas algumas frases ou indiretas aqui e ali; outros, com algum status ou posição; alguns com a pele e um naco de carne; e tantos outros, menos afortunados, com a vida. Somos as bruxas na cidade onde todos gritam não lobo, mas viado e as estacas estão atiçadas para arder nossa carne gay, exalando aos ares um aroma de purificação que, na verdade, irá empestear todos as narinas com o odor não de carne, mas de consciências incineradas; a culpa vai aderir aos poros para nunca mais sair. 

Por isso mesmo, ações como a de O Boticário, Coca-Cola e outros tantos precisam existir cada vez mais, para fazer entender a esses imbecis parcos de discernimento que a ofensa maior reside no fato de agirem como fascistas sanguinários, reacionários estúpidos desejosos de um mundo moribundo, apegando-se com unhas e dentes aos pedaços podres que ainda lhes restam. E inundam com seus latidos de ódio como se estivéssemos obrigando, forçando, agredindo, demandando algo que não fosse simples, singelo e de direito universal e equalitário, respeito. Poucas vezes vi uma campanha tão bem feita e que valoriza o sentimento, o amor, o respeito, a união ainda mais nos tempos em que vivemos. 

Mas não, essa corja prefere agir como se fôssemos nós, gays, a ameaça maior aos seus filhos e família (instituição falida há séculos) e não a violência cotidiana que nos acossa. Não os desmandos dos governantes tentando fechar suas contas com nosso trabalho e dinheiro. Não é a sua crítica vazia à corrupção, enquanto fura fila do mercado, no trânsito acelera para não deixar o pedestre passar ou o outro carro entrar, enquanto deixa o carrinho do mercado largado em qualquer lugar ou o arremessa em direção ao auto mais próximo (que não o seu), faz de conta que está no mais profundo sono enquanto o idoso fica em pé e se tem de lhe ceder o lugar, reclama. Não devolve o troco que veio a mais porque a obrigação era do outro ter feito a conta certa, paga pelo atestado fajuto para seu filho cabular aula ou para matar um dia no trabalho, acredita que passando o outro para trás, vai chegar na frente quando, nessa fábula, somos todos a tartaruga e o coelho já morreu faz tempo. 

Não. Nada disso importa, porque os gays estão tomando o poder, impondo sua ditadura, seu estilo de vida, seu modo, seu jeito goela abaixo da sociedade, esse é o problema. Geralmente quando não sabemos identificar o que está errado conosco e ao redor, buscamos um bode expiatório para aliviar nossa consciência desprovida de espelhos, e agora somos nós gays o bode da vez. Quando e se lograrem acabar conosco, oro pela próxima camada social que escolherem até que, finalmente, sobrará apenas a vocês para banir e preencher o papel. 

Quer boicotar algo? Boicote seu preconceito, sua ignorância, sua intolerância, seu medo. Boicote esse desejo que você não entende e não é seu, foi posto em sua mente e peito por pessoas de inteções nefastas e que desejam usar sua pele para cobrir o lobo que são. Boicote tudo isso e adote uma postura mais humana e conciliadora. Ou acabará tendo de boicotar a vida quando menos esperar.

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Leandro Faria  
Alexandre Melo, nosso colunista convidado de hoje, é da capital de São Paulo, amante do centro velho decadente e dos seus botecos. Leitor compulsivo,viciado nos clássicos dos anos dourados do cinema e música 'das boas'. Pensa que escrever é muitas vezes melhor que falar e adora mostrar velharia a quem não as conhece.
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