segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Círculo Vicioso





Levantou-se da cama e ficou admirando o outro corpo nu, adormecido sobre os lençóis de algodão. Colocou os óculos, ajeitou o cabelo e pensou: 

- Putaqueopariu! Por que eu sempre me arrependo no dia seguinte de pegar essas merdas na noite? Maldita cerveja! 

Foi até o banheiro, tomou um banho e só desejava que quando voltasse ao quarto ele já não estivesse mais lá. Mas não, as pessoas não são práticas; pelo contrário, são muito óbvias. 

-A água estava boa, gostosão? Eu queria tomar um banho antes de sair. –o outro lhe disse assim retornou ao quarto. 
-Não, está gelada! Não tenho chuveiro elétrico. Melhor você tomar um banho em casa. – ele respondeu, já desejando que aquele estranho, cujo nome já nem mais se lembrava, fosse embora o mais rápido possível. 

O outro fez uma cara de poucos amigos mas mesmo assim se levantou e veio em sua direção com os braços abertos, provavelmente esperando um abraço, do qual ele se desviou sem pestanejar. Sentiu nojo. As pessoas tinham cada idéia! Ele já havia feito sua boa ação, já havia transado com aquela criatura que à noite lhe parecera interessante, mas que agora, na luz do dia, apenas lhe causava repulsa. 

Sem ter muito o que fazer então, o outro se vestiu rapidamente e pegou o caminho da rua, deixando antes, sobre a cômoda, um papel anotado com seu número de telefone. 

-Me liga! – o outro disse. 
-Sonha com isso! – ele pensou. 

Fechou a porta, deitou na cama, olhou para a camisinha usada no chão, para as roupas largadas, para o copo d’água ao lado do vidro de comprimidos. Levantou, pegou um, tomou junto com a água; tinha de agir antes da dor de cabeça voltar. 

Um novo dia, uma nova promessa; o mesmo enredo. Tudo sempre terminava exatamente como começava. Ele não tinha jeito, era sempre assim. 

Será que um dia aprenderia?

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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