segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Com Amor, L.




Oi, quanto tempo, né? Pois é, eu sei, ando sumido, mas você deve me entender, afinal, você sempre me entendeu e, mais que isso, sempre soube que eu faria o possível para sair (e me manter longe) da nossa cidade. Depois que isso aconteceu, minhas visitas aos meus pais tem rareado ao mínimo possível e são rápidas e eficientes em meu objetivo de matar a saudade deles. E você, que nunca foi chegada em uma rede social ou virtualidades, também não facilitou que mantivéssemos contato. Ok, ok, esse sou eu desviando a minha culpa, mas você também sabe que eu sempre fui assim.

Esses dias estava conversando com um amigo sobre a minha vida e lembrei de você, da nossa história, de como você sempre esteve lá para mim. E de como eu fui covarde depois que tudo acabou, e nunca sentei e conversei sobre os motivos reais que levaram todos nossos planos a serem desfeitos em um belo dia qualquer. Não quero que você entenda; não, esse não é o objetivo aqui. Quero apenas colocar pra fora coisas que me incomodam e que eu nunca consegui verbalizar e botar em ordem na minha cabeça.

Eu te amei. Muito. Mas o que você não sabe é que o cara que te amou é bem diferente do cara que eu me tornei. Aquele Lê do passado era hipócrita, vivia com medo de desagradar a um monte de gente e sufocava quem ele realmente era por uma conveniência social. Basicamente, ele não podia ser o que eu me tornei hoje e, mesmo aparentemente feliz, como eu falei esses dias, eu era apenas equivocado. Isso, aliado à inexperiência inerente da idade, fez com que eu me magoasse bastante e, sem querer, ferisse pessoas queridas à minha volta. E, desculpe-me, você certamente foi uma delas.

A gente cresceu  junto, frequentou a mesma instituição religiosa, partilhou a mesma crença que não era nossa e, naquele momento da minha vida, ficarmos juntos fez tanto sentido. Você era linda, querida e, levada pelo momento, parecia feliz com aquele beijo. E você era a minha melhor amiga, uma das pessoas que eu mais confiava no mundo. Eu lembro dos meus pais quando souberam e da reação das outras pessoas quando começamos a namorar. Foi surpreendente para todos, mas também fazia todo o sentido. Mesmo que não fosse óbvio, éramos você e eu namorando e, quando as pessoas assimilavam essa informação, se davam conta de que isso era super natural.

E foram muitos bons momentos ao seu lado. A descoberta como namorada de alguém que sempre estivera ali como melhor amiga foi excitante, bonito e uma experiência incrível. Você cumpriu seu papel muito bem e, apesar dos percalços iniciais (beijo pro meu ex-sogrão!), a gente deu certo enquanto durou. "Praquele" cara de 2002, namorar contigo era a coisa mais certa do mundo e, eu tenho certeza, os planos de casamento, filhos e uma casinha branca de varanda eram sinceros. E mesmo quando terminamos e reatamos um tempo depois, tudo parecia apenas estar se assentando em seu devido lugar.

Mas, como você sabe, a gente não pode fingir pra sempre. Mesmo feliz ao seu lado, me faltava algo. E, por mais escroto e clichê que possa parecer dizer isso, o problema não era você, era eu. Eu te amava, eu queria estar contigo, mas eu não era feliz de verdade. A aura de vida perfeita que me permeava era tênue e não condizia com tudo que acontecia internamente comigo, com aquilo que eu queria viver e experimentar, com o cara que, no finzinho de 2006 e início de 2007 eu estava efetivamente me preparando para me tornar. Um cara realmente legal e livre de amarras que me faziam infeliz e, sem sombra de dúvidas, apenas te faria infeliz também.

Nós terminamos. Da melhor maneira possível, já que sempre fomos práticos além da conta. Sei que você nunca duvidou do meu amor, assim como eu nunca duvidei do seu. E saiba, era amor mesmo. Mas um amor diferente, como eu posso ver hoje, com a distância e clareza que somente o tempo nos proporciona. O meu erro, e acho que é esse o motivo desse mea culpa, foi nunca ter sido honesto e sincero o suficiente contigo, te falando exatamente o que se passava comigo. Eu era jovem demais, bobinho e não queria te magoar. Não tenho certeza se consegui.

Eu então me mudei da nossa cidade, segui a minha vida e tomamos caminhos diferentes. Passamos a nos ver raramente e o que vivemos virou uma boa lembrança de um tempo distante para mim. Na minha nova cidade eu comecei a me permitir ser eu mesmo, como eu já estava ensaiando e, quando conheci meu primeiro namorado, fui surpreendido quando a minha melhor amiga me contou que você havia ligado para ela e, no meio da conversa, contado que estava preocupada comigo e foi direta perguntando a ela se o cara que se tornara recorrente em minhas fotos era o meu namorado. Ela não respondeu diretamente, mas te deu a resposta que você precisava. 

O engraçado é que nos encontramos uma ou duas vezes depois disso e você nunca tocou no assunto. E mesmo sabendo que você havia questionado a minha amiga, eu também deixei passar. Medo do julgamento, da sua crítica? Talvez, mas hoje eu vejo que teria sido muito legal falar sobre o assunto com você. E se eu tivesse ganhado um tapa na cara ou sido chamado de escroto dos infernos teria sido merecido e, confesso, acho que até mesmo bom para mim. 

O que efetivamente quero te dizer hoje é que estou feliz. Muito e como nunca fui antes em minha vida. E que desejo de verdade que você também esteja. Não sei muito de como você anda, já que não temos mais amigos em comum e as poucas informações repassadas pela minha mãe não são lá muito completas, mas você me pareceu muito bem na última vez que nos encontramos. Estava bonita, sorridente, com tantos planos e projetos profissionais e pessoais. Tomara que a vida esteja sorrindo para você, do jeitinho que você merece.

Saiba, por fim, que eu não me esqueço de você, do que vivemos e sei da sua importância na minha vida. Você estava lá quando tudo parecia desconexo, quando eu queria sumir do mundo, quando eu chorei convulsivamente devido a problemas familiares cuja resolução estavam fora das minhas mãos. Você foi uma boa namorada? Sim, foi! Mas acima de tudo, você sempre foi uma excelente amiga, presente, preocupada e mostrando que uma hora tudo ia passar. E não é que passou?

E assim, depois de tanto falar (viu como eu continuo verborrágico? Algumas coisas nunca mudam!), me despeço. Vai que um dia nossos caminhos se cruzam e eu possa te dar um grande abraço, despido de hipocrisias e bastante aliviado por ter exposto aqui tudo que eu sempre quis te dizer e nunca tive coragem? Seria muito, muito bom!

Seja feliz, moça bonita! Continuo te desejando tudo de bom e melhor, hoje e sempre.
Com amor, L.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei ler!! Ao mesmo tempo que é sincero e joga a verdade no peito de quem for, consegue ser carinhoso e amoroso. Quem dera que todos os Homens tivessem a CORAGEM de ser sinceros quando terminam um relacionameno. Antes tarde do que nunca. CORAGEM tardia, é melhor que a ausência dela.

Beijo grande.

Anonima...