sábado, 8 de agosto de 2015

Dois Passivos Não Se Beijam?





Muitos heterossexuais imaginam a vida gay de forma bem mais simples, descomplicada e livre do que ela realmente é. Se você é hétero e pensa sobre os gays como a maioria dos que tem a mesma orientação sexual que a sua, prepare-se, este texto contém spoilers sobre o "mundinho gay", que talvez você nunca tenha imaginado. Talvez você fique decepcionado, talvez pense como somos babacas ou ainda fique feliz por descobrir-se mais livre e descomplicado em sua sexualidade, de fato. Já se o caríssimo leitor for gay, saberá perfeitamente do que estou falando.

Teoricamente, gays seriam mais livres e leves em sua sexualidade, sem tantas cobranças, regras e imposições. Mas tudo isso não passa de teoria, já que na prática o bicho pega. Talvez um dia tenha sido assim, mas hoje, o "mundinho" virou uma chatice.

Viados (com i mesmo, porque veado é animal) não se permitem mais, rotulam-se e rotulam os outros. O passivo debocha e menospreza o outro que também gosta de dar a bunda. O afeminado não pode ser ativo. O ativo não pode ser afeminado. O bombado pode ser um deus grego, mas se gostar de ser penetrado perde o encanto. O magrinho tem que ser passivo. O corpulento, ativo. O baixinho, passivo. O alto, ativo. O cara é lindo, mas é nordestino e tem cabeça chata, não rola. São infinitas as variações de regras de impedimento que um gay coloca para não se relacionar com o outro, como se tudo simplesmente só girasse em torno de sexo, sexo, sexo e mais sexo. Claro que sim. Vivo nesse "mundinho" a tempo mais que suficiente para ter esquecido a ingenuidade lá atrás (sem trocadilhos) e não sou bobo de dizer o contrário, embora eu seja uma exceção à regra. Mas já que na vida da grande maioria gay, 90% das questões gira em torno de sexo, por que não ser mais solto e relaxado, curtir as inúmeras formas de prazer que nossa sexualidade pode nos proporcionar sem impor-nos tantos empecilhos?

É óbvio que existem preferências, e eu entendo todas elas. Aliás, eu bem tenho as minhas, mas não as coloco como regras absolutas em minha vida. Um exemplo simples: tenho preferência por homens morenos, pele e cabelo. Loiros dificilmente me atraem, quase nunca, mas se um loiro interessante chegar em mim e conseguir me ganhar na lábia, não me fecharei pra essa experiência.

Não sei se ainda consegui me fazer claro na intenção do texto, mas o que me trouxe a ele foi uma historinha que aconteceu com um amigo íntimo. Vou contá-la e acho que entenderão com mais clareza.

Meu amigo é sexualmente passivo, nunca foi ativo na vida; é o que chamo de passivo ortodoxo ou PAM (Passivo Até a Morte, te amo, migo!). Segundo ele, por mais que achasse algum carinha interessante, o simples fato de saber que ele era passivo o brochava na hora. Mesmo se o cara quisesse dar só uns beijos nele, não rolava. Eis que um dia, meu amigo PAM se encontrou com um garoto super legal do app. Saíram, foram a um restaurante, conversaram e tudo fluía às mil maravilhas, mas o cara não tinha muita iniciativa. Sempre acostumado a ser cortejado, meu amigo estranhou, mas beleza, o rapaz era incrível. Convidou-o pra dar uma esticada e tomar um vinho em sua casa. Na privacidade do lar o cara ficaria mais solto e a coisa toda rolaria. Meu amigo já tava em ponto de bala. Mas chegando em casa, nada. Beberam vinho, conversaram, conversaram e conversaram mais um pouco, até que PAM não se aguentou e fez a fatídica pergunta: Você é passivo, né?. A resposta positiva não brochou PAM como costumava acontecer. Ele continuou desejando beijar o garoto legal e interessante que conheceu naquela noite. E os dois ficaram e, segundo meu amigo, foi delicioso. Sem sexo. Só carícias, chamego, amassos, tudo bem higiênico. Mas foi bom. Meu amigo se permitiu, não impôs nada, nem pra si nem pro outro e conheceu uma pessoa super bacana. Hoje são amigos, mas se um dos dois desse uma cedidinha, quem sabe não podiam ser algo mais e bem felizes?

É disso que eu tô falando, minha gente. Deu pra entender agora ou já tava claro desde o início? Permitir-se conhecer pessoas, entregar-se ao desejo do momento, que pode ser tão singelo como esse que meu amigo viveu. Não ficar esperando o ativo sarado capa da Men's Health ou o passivo discreto com jeito de macho da bunda dura.

O importante é beijar na boca e ser feliz, desde que não tenha mau hálito. Isso sim é impraticável!

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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