sábado, 29 de agosto de 2015

Haja Paciência!




Sobre relacionamentos amorosos, e a dificuldade sobre-humana de iniciá-los - quiçá mantê-los!, dois fatos essa semana me fizeram refletir.

Eu e meu amigo PAM (de quem já falei aqui, em outra crônica) temos uma linha de raciocínio muito parecida em se tratando a relacionamentos. Não somos desesperados, selecionamos muito bem as pessoas com quem ficamos, não suportamos esses viados que morrem de carência e se jogam em cima do primeiro que aparece pra chamar de seu. Entendemos, cada vez mais, que o amor é para os maduros.

Mas depois de muito desdenhar essa "necessidade básica" gay de ter alguém nem que seja por status, nem que seja pra dizer em silêncio "olha como eu sou uma bicha bem amada" e esfregar, de nariz em pé, o boy, na cara da sociedade LGBT, depois de questionarmos tudo isso e desprezar esse tipo de pensamento e atitude, estamos entrando naquela fase de desejar encontrar alguém no mesmo nível, pra compartilhar experiências, sensações, conquistas, sexo, mas longe de toda essa banalização baixa que a gente vê diante do nosso nariz o tempo todo. Estamos ficando maduros para o amor e queremos ele sim. Não estamos acima do bem e do mal, nem somos superiores a essas bichinhas que não tem critérios, só porque esperamos, por assim dizer, a pessoa certa. Não somos virgens puros, sonhando em entrar na igreja de vestido branco, véu e grinalda, mas também não vamos nos jogar de cabeça na putaria toda. Simplesmente, porque não é a nossa praia.

Dito isso, é bom deixar claro uma diferença básica entre PAM e eu. Ele está sempre envolvido em pequenas aventuras, ficantes esporádicos. Se divertindo com os errados enquanto não acha o certo. Mas é tudo tão discreto e leve, e nem sempre rola sexo, é mais aquela necessidade de um carinho mesmo. Mas PAM sabe que esses caras com quem fica, não querem nada sério. Por ele, até tentaria ir adiante, arriscaria iniciar um namoro, mas os caras desaparecem depois de duas ou três ficadas.

Recentemente, ele conheceu um garoto incrível numa balada. PAM ficou tão empolgado com o tal sujeito, que não quis nem me contar detalhes antes de acontecer um segundo encontro, por medo de que não desse certo. Passaram dias falando-se ao telefone e PAM, super envolvido, de repente não citou mais o tal cara e já estava marcando encontro com outro, quando questionei-o o que tinha acontecido. Ele disse simplesmente que o tal garoto era estranho e tinha dado uma sumida.

No último fim de semana o cara reapareceu e toda a empolgação reacendeu. Ficaram juntos o final de semana e PAM até decidiu me apresentar o rapaz, na comemoração do meu aniversário. Fiquei super feliz por PAM. Finalmente conheceria alguém que ele realmente estava gostando e que tanto preservou a fim de que desse certo. Pois não é que em questão de 3 dias os dois brigaram, o cara surtou e excluiu PAM do WhatsApp? O motivo, meus caros? Pasmem: o cara "perfeito" surtou porque PAM não queria apresentá-lo como namorado pra mim e todos os meus amigos que estarão presentes na comemoração. E por mais que PAM quisesse que tudo desse certo e que o relacionamento que era ainda um embrião virasse namoro, usou de maturidade e não se deixou deslumbrar pela simples ideia de um rótulo. Nisso, ele conseguiu conhecer de fato quem era o tal príncipe da balada, que parecia o cara certo no momento ideal. Fiquei triste e curioso pra conhecer o sujeito, mas feliz por meu amigo ter se mostrado tão maduro e diferente de todo o resto que vemos por aí.

Diferente de PAM, eu saio com menos homens. Minha rotatividade é bem menor. Bateu uma carência, me ajeito do jeito que dá. Sexo fácil é o que não falta e, quando quero, não me faço de rogado. O problema é que sou romântico, então perco mais tempo procurando um bom bate-papo do que um encontro sexual.

No app estou cheio de matchs que não dão em nada e diálogos de três frases: "-Oi, -Tudo bem?, -De onde?". Por este motivo, quando comecei a conversar há duas semanas com um mocinho no Tinder, agi da forma mais displicente possível. Não achei que fosse dar em nada e nem me empolguei muito. Era só um carinha com quem trocava meia dúzia de palavras à noite quando chegava do trabalho, e só. Então, estava tão desencanado que passei um final de semana inteiro sem dizer ao menos um oi. Na segunda, quando vi que a última frase tinha sido dele, resolvi cumprimentá-lo. Ansioso, questionou meu sumiço no sábado e no domingo. Naquele momento, comecei a pensar que dali poderia sair alguma coisa. Algo que até o momento não havia passado pela minha cabeça.

Nos falamos todos os dias durante uma semana. No final de semana ele sentiu minha falta. Na segunda, me passou o WhatsApp e saímos do app para algo mais reservado. Aquilo podia dar samba, pensei. De repente, mudei de displicente pra ansioso, queria vê-lo, falar com ele novamente, planejei convidá-lo pra ir ao cinema. Mandei mensagem o dia inteiro, ele não respondeu. Quando se pronunciou, foi frio. Estranhei, mas convidei pro cinema. Disse que viajaria, mas marcaríamos outro dia. Detectei em 24 horas: distância, frieza e desinteresse. O que tinha acontecido com o cara que sentiu minha falta no final de semana? Depois que ele recusou meu convite, larguei de mão. E não pensem que fui afoito, fiz tudo na maior tranquilidade, mas meu convite parece ter afugentado o bendito.

Agora eu pergunto: POR QUÊ? O que acontece com o ser-humano homossexual, masculino, brasileiro? O que eles pensam da vida? Por que são tão loucos, instáveis, egoístas, egocêntricos, falocêntricos? Por que não se permitem um encontro casual, um café, uma cerveja, uma conversa, um olho no olho? Por que tão covardes e vazios?

Não generalizo, mas vamos combinar que assim é a maioria! E a minoria segue assim, como eu e PAM, esperando pacientemente, desejando, sonhando. Firmes, fortes e resistentes.   

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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2 comentários:

Samir Roque disse...

Sou super como você e tenho um amigo estilo o PAM onde possui mais encontros que eu. Não sinto falta do sexo, e sim falta de alguém que eu goste e que assim possa me satirfazer também sexualmente. Mas creio que o melhor que fazemos e ficarmos bem com nós mesmos e as outras coisas vão dando certo. Acho que desfocalizar é a solução e assim vou agir a partir de agora e quando aparecer alguém de verdade pra mim, estarei aqui. Amei real o post.

Unknown disse...

"We are all so much together, but we are all dying of loneliness".