terça-feira, 18 de agosto de 2015

Maxwell: Missão Homofóbica




Oi, eu sou o Maxwell, mas podem chamar de Max, todo mundo chama, já me acostumei. Sou um cara normal: fumo, bebo, transo, gasto com coisas supérfluas (descobri recentemente que esse é o termo certo, e não “supérfulas”), vou ao cinema, me exercito... Enfim, o básico pra um cara de vinte e quatro anos. 

Me formei em Recursos Humanos e passei um ano e meio trabalhando como gerente de uma loja de doces, porque, imaginem só, as empresas não gostam de contratar pessoas sem experiência. Adoro a coerência desse povo. Três pessoas, uma vaga. E eu consegui. Entrei pro RH de uma famosa fábrica de carros no Rio de Janeiro. Salário bom, lugar bacana, até aí tudo bem. Até eu descobrir que seríamos quatro pessoas na sala: duas mulheres e, agora comigo, dois homens. Seria tudo normal se o outro não fosse o infeliz do meu ex-namorado!  (Um ano e meio de namoro e ele me diz o que? Que acha melhor nos separarmos, porque ele tem dúvidas sobre o futuro, e a vida, e a família... Ah, mas isso faz o meu sangue subir...) 

OK, eu fui um ator e agi como se nunca tivesse visto o cara na minha vida! Se bem que... Não foi tão difícil assim. Passei pelo período de experiência, o que foi um inferno, sério! Agora eu podia relaxar um pouquinho, mas bem pouco. Modéstia à parte, eu era bom no que fazia, mas... Eu sentia que faltava alguma coisa, sabem? Eu podia fazer mais do que simplesmente montar planilhas e cuidar do plano dentário dos funcionários e seus dependentes. Porém, eu tinha que jogar com as cartas atuais, então... 

Num belo dia, isso foi uma terça-feira, fazia sol, eu me lembro bem, porque o ar-condicionado da sala tinha quebrado e eu suei feito um porco, o nosso superior ligou no meu ramal e me chamou até a sala dele. Eu já fui tremendo, né? Sabem como é. Entrei devagar e sentei na cadeira em frente à mesa. Fiquei encarando o Sr. Mendez terminar um telefonema. A cadeira rangia por conta do peso dele e o homem aparentava um cansaço imenso. Sério, ele arfava como se tivesse passado a manhã toda correndo. Fiquei um pouco preocupado... Me concentrei nele quando colocou o fone no gancho. 

- Tudo bem, Max? – a voz lembrava a daqueles caras malandros, sabem? Largados e tal... 
- Tudo bem sim, senhor Mendez. 
- Olha, estou gostando bastante do seu trabalho aqui, viu? Bem profissional, competente... 
 - Obrigado, senhor. – tentei sorrir sem aparentar nervosismo. Falhei miseravelmente. 
- E... – ele fez um “tsc” com a boca. – Eu tenho uma tarefa pra você. 
- Que tipo de tarefa, senhor? Pode dizer e eu faço. – ótimo, Max, conseguiu expor todo o desespero contido na sua alma... 
 - Você me parece confiável, então vou dizer: eu não suporto esses gays. Sério! Tentando nos forçar a aceitar o estilo de vida nojento deles, todo dia, dia e noite, isso me enoja. 
- Ok... – tentei não engolir em seco. E não entrar em pânico. 
- E eu desconfio que o Alex seja gay. – ó, olha o meu ex aí! 
- Jura?! – perguntei, num misto de vontade de rir com vontade de socar a cara do homem. 
- Sim... Nesses sete meses que você está aqui, notou alguma coisa? 
- Olha... – droga, o cara me pegou! Pensa, Max, pensa! – Não que eu tenha reparado, senhor... Tanto trabalho na minha mesa que não consigo olhar pro lado! Digo, ainda bem! 
- Imagino. Pois bem, eu quero que faça o seguinte: arranque dele uma confissão. Convide-o pra sair, enche ele de cerveja e faz ele falar. Grava e traz pra mim. Não sou obrigado a ter esse tipo de gente aqui. 
- Mas senhor Mendez... Se ele for, me parece ser bem... inofensivo, acho. 
- Não interessa. Não sou obrigado a conviver com essa gente. E Max, eu não estou pedindo. E tem mais...

Mendez seguiu falando e eu levei uma série de “socos” na boca do estômago a cada palavra proferida. Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo, nem no que ele estava me mandando fazer. Ok, então eu não tinha escolha. Ou eu aceitava, ou rua. E, caras, eu não podia perder esse emprego. Não pensem mal de mim! 

Saí da sala do homem enorme e fui pro banheiro. Tentei organizar os pensamentos, controlar a respiração, e pensar no que diria a eles quando voltasse. Eu tinha a oportunidade de me vingar do Alex; poderia agir como um agente do Destino e dar a ele a punição por me deixar arrasado do jeito que eu fiquei. Mas... ele tinha o direito de escolher quando quisesse sair do armário, caramba! Eu não podia forçá-lo desse jeito. Então eu voltei pra sala, coloquei um sorriso no rosto e, quando me perguntaram o que ele queria, eu disse que era uma tarefa muito especial, e sigilosa. Escrevi um bilhete para Alex, coloquei numa pasta e entreguei pra ele. Apontei para o bilhete e voltei pra minha mesa. Uns minutos depois... 

- Alguém está afim de beber hoje? – Sarah não podia, ia comemorar dois anos de namoro com o japonês dela, e Mona Lisa não bebia no meio da semana. 
- Eu topo. – Alex virou pra mim, e eu devia ter escrito no bilhete pra ele soar mais natural. O cara disse num tom um tanto quanto lacônico e assustado. 

Então a primeira parte da minha missão homofóbica estava prestes a começar. E eu não fazia ideia de como ia resolver tudo isso. 

É claro que eu não consegui trabalhar pelo resto do dia. Desde a hora que Mendez me chamou até a sala dele, por volta das quatro da tarde, até as seis, eu não consegui me concentrar em, absolutamente, nada. Finalmente o expediente acabou e eu tinha algo mais ou menos planejado. Fiquei maquinando nisso dentro do ônibus da companhia. Alex também estava lá, sentado mais pra frente, eu reconhecia os cabelos castanhos dele de longe. 

Nos encontramos num bar da Lapa meia hora depois. Eu cheguei antes pra espantar o nervosismo. Foi quando ele chegou, de calça jeans, e a camisa social azul ciano que eu dei pra ele. Se sentou e me cumprimentou. 

- E então, qual é a do mistério? – Ele perguntou se servindo (eu já tinha pedido cerveja e dois copos).
- Você está na mira do Mendez. 
- Estou? Por que? – ele franziu o cenho. 

Olhei pra ele dentro dos olhos, respirei, reuni todas as minhas forças, e sorri descontraidamente. 

- A resposta é simples. Você foi visto de mãos dadas com o seu novo namorado. 
- (...) 
- Sorria, Alex... – eu disse, quando vi o pânico se instalar no rosto moreno claro dele. – Nunca se sabe quem pode estar observando...

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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