terça-feira, 25 de agosto de 2015

Maxwell: Verdade Secreta





Alex ficou me encarando, estarrecido, enquanto eu sorria, o copo erguido, pronto pra um brinde. Ele sorriu forçado, brindou e deu um gole, me encarando enquanto fazia. 

- Jonas, da contabilidade está atrás de você, duas mesas; da entrada eu vi a Cintia, da engenharia, sentada a nossa esquerda, e atrás de mim está o filho do Mendez. 
- Eu também vi. Pensei que não notaria. 
- Você não me conhece, então. – Ele sorriu e moveu as sobrancelhas pra cima e pra baixo, três vezes. – E então, o que você tem que fazer? 

Alex podia não valer absolutamente nada, mas não posso negar a inteligência dele. 

- Embebedar você e gravar uma declaração, dizendo quem você realmente é, o que faz, etc. 
- Assustador, não? – Ele gargalhou, e eu pude sentir o pânico naquela gargalhada. Alex prezava pela identidade secreta, vamos chamar assim. 
- Bastante... – Me senti um idiota depois, mas eu tinha que comentar a respeito. – Então... menos de dois meses, hein... rápido. 
- Max... – Alex sorriu e colocou o copo em cima da mesa, devagar, me olhando. 
- O quê? – Ri alto, olhando para os lados, mapeando o lugar. 
- Agora não é hora, e esse não é o lugar pra falarmos disso, não é mesmo? 
- Eu sei, eu sei... – Suspirei. – Eu tenho que cumprir uma missão. 
- Você aceitou... 
- Vamos enrolar mais um pouco, depois você me encontra no meu apartamento, e eu te ajudo. – Saudei com o copo cheio e virei tudo de uma vez. 

Ficamos conversando sobre amenidades por mais alguns minutos, até que pedimos a conta. Como morava perto, cheguei rápido. Liguei a cafeteira e deixei ela trabalhando enquanto tirava o sapato e esticava os dedos dos pés. Bebi água e fiquei parado pensando na situação toda. 

Não pensei muito, pois Alex chegou pouco depois de mim. Calado, ele entrou, a expressão séria. Me olhou por um tempo, e eu não gostei nem um pouco do jeito que ele me olhava. 

- Você não supera as coisas mesmo, né? 
- Como assim? – Do que ele estava falando? Eu não fazia ideia. 
- Eu estava sentado naquele bar, pensando no porquê de você ter me avisado sobre isso e desse interesse em me ajudar, e só tem uma explicação: Você quer que eu fique em débito com você, não é, Max? 
- Como é que é?! – Eu não acreditei no que ele estava dizendo, sério! 
- Sim, porque você não ia me ajudar assim, por pura bondade de coração... Eu lembro bem das músicas que você postava no Facebook, dos textos que mais eram indiretas pra mim do que tudo... Você não superou o fato de que eu não era feliz com você e de estar tentando ser feliz com outro, não é verdade, Max? 

Eu fiquei parado com os braços cruzados, encarando a cara de pau do Alex. Sério, ele não ficou vermelho por dizer uma asneira dessas, gente! E tinha mais! 

- Pensou o que? “Oh, eu vou ajudar o Alex e ele vai ver o quão bom eu sou, e como foi idiota ao me deixar, e vai voltar correndo pros meus braços!”. Mas acabou, Max! Acabou! Conheci outro cara há menos de dois meses do nosso término? Sim, e não me arrependo disso! 
- Espera aí! – Pensaram que eu ia ficar ouvindo esse monte de absurdo, né?! Erraram. – Se você parasse de apontar o dedo pra mim e falar sem parar, ia me ouvir dizer que eu quero te ajudar, mas não por você, e sim por mim! Eu quero me aliar a você pra podermos derrubar esse cara! Algo grande! Algo realmente significativo! Mas que ilusão a minha, pensar que poderia contar com um covarde como você, que não faz a menor questão de sair do armário por vergonha do que é! Ou eu estou mentindo?! 

Alex me olhou de um jeito que me deu muito medo... É sério, eu não entendi o olhar dele naquela hora. Uma mistura de raiva e ódio e... algo que eu não sabia o que era. Até que ele começou a falar. 

- Então é isso? É isso o que você sempre pensou de mim? Eu não tenho vergonha de quem eu sou, Max. Nunca tive. Nunca vou ter. Eu tenho medo, ok?! Já deu uma olhada nas estatísticas? Já viu quantos gays, bi, trans, travestis... quantos de nós morrem? São agredidos? Humilhados? Eu sou covarde sim, mas não por vergonha de ser quem eu sou, e sim por não ter a coragem que você e muitos outros têm de bater no peito e dizer “Eu sou gay” e encarar as consequências. Foi por isso que eu terminei com você. Porque eu olhava pra você e sentia a sua tristeza quando queria andar de mãos dadas comigo na rua e eu não deixava; ou quando queria me levar nas boates gays e eu batia o pé dizendo que preferia outra coisa... Eu te deixei pra você ser livre, seu idiota, porque você merece alguém que realmente te dê o que você merece: a liberdade de ser quem você é. 

Eu fiquei parado ouvindo cada palavra que saía da boca do Alex e não conseguia acreditar. Então... Eu não sabia o que dizer, não conseguia organizar os meus pensamentos. Apenas olhava pra ele, os olhos cheios d’água, me encarando e respirando forte. 

- Alex... – Limpei a garganta. Ah, qual é, eu não podia começar a chorar ali, ia ser dramático demais. – Você e eu podemos derrubar esse cara, apenas... 
- Não, de jeito nenhum. Não quero me envolver nisso. 
- Mas Alex... 
- Negativo. Eu não posso me envolver nesse escândalo. 
- Então você prefere trabalhar oprimido desse jeito? 
- Sim. Eu dou um jeito de sair depois, mas não faça isso comigo. Não dê uma de Olivia Pope. 
- Quem? 
- Olivia Pope... Scandal? Shonda Rhimes...? – Continuei fazendo não com a cabeça. – Grey’s Anatomy
- AH SIM! A série dos médicos! 
- Isso! E Scandal é um seriado que comecei a assistir, estou muito envolvido. – Ele ama esses seriados. 
- Bem... Não sei quem é essa Olivia Pope, mas eu sei que vamos ter que partir para o Plano B. 
- Que é? 
- Senta aí. Vou fazer mais café. A noite vai ser longa.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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