quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Não Basta Ser Pai, Tem Que Ser Paulo




A semana começou com uma data daquelas pra aquecer o comércio, o Dia dos Pais, mas que eu, mesmo assim, não consigo passar longe do meu. Meu pai e eu somos dois caras muito diferentes. Quando eu era pequeno, não via nada dele em mim, exceto os olhos – isso sempre foi muito igual e até o astigmatismo e a hipermetropia fizeram questão de migrar geneticamente. Mas é impressionante como, hoje em dia, morando longe dele, eu enxergo muito mais as nossas similaridades.  

Meu pai nasceu em Mogeiro, interior da Paraíba. Com 14 anos, veio para o Rio de Janeiro, morar numa área pobre na casa de uma irmã que ele nem conhecia – a diferença de idade era tanta que, quando ela partiu rumo ao Rio ele era muito pequeno para se lembrar, já adolescente. Filho de Sebastião e Davina, teve quinze irmãos (reconhecidos, porque há varias lendas a respeito do velho Bastião), dos quais onze vingaram, além dele. Lidar desde cedo com a mortalidade infantil era uma realidade muito comum no Nordeste e com essa numerosa família não foi diferente.

Tendo que trabalhar desde cedo pra se sustentar, tornou-se comerciante. Conheceu minha mãe não tinha nem 22 anos. Casou-se com 24. Com 26 recém-completados, era pai. De mim. Aos 27, foi pai da minha irmã. Aos 39 se separou da minha mãe. Aos 45 eles reataram. E vivem juntos até hoje.

Eu, como é sabido, sou jornalista, nascido em Niterói, Rio de Janeiro. Comecei meu relacionamento também bem novo, aos 20 anos, e me casei aos 25 – com cerimônia e papel passado, aos 27. Não tive filhos ainda, embora considere que tenha a minha família.

Meu pai adora um pagode e uma cerveja. Eu não suporto nem um, nem outro; sou mais chegado num pop/rock e numa Coca-Cola. Mas um samba com caipirinha os dois gostam. Por falar em samba, ele torce pra Portela; eu, pra Viradouro. Ele é tricolor e eu, flamenguista (ele bem que tentou, eu nasci no ano em que o Fluminense foi campeão Brasileiro, mas não deu; segui os passos da minha mãe e do meu avô materno). Ele se amarra numa buchada de bode e numa galinha ao molho pardo; em se tratando de pratos típicos nordestinos, tô mais pra um acarajé ou uma moqueca baiana.

Ambos somos Paulo Sobral na carteira de identidade. Além dos olhos verdes, a genética nos trouxe outras coisas em comum. Somos bem branquelos (ele consegue ser ainda mais; fica vermelho até embaixo da barraca). Temos uma pinta igual, no mesmo lugar, no pé direito. As orelhas são miúdas (perdi a conta das vezes em que ouvi que ia morrer novo por causa disso...). Além da necessidade de usar óculos, herdei dele as unhas encravadas, um osso protuberante a mais no pé e as entradas no cabelo – nada que não dê pra superar. Também não suportamos salsa crua (descobri que isso é genético na minha aula de Biologia no colégio) nem alecrim em excesso na comida. E amamos qualquer coisa com coco.

Nunca fui muito de ter isso de pai-herói. Até porque ele sempre foi bastante de carne e osso; sempre deixou seus defeitos tão evidentes quanto as suas qualidades e nunca quis se destacar de mim ou da minha irmã como alguém superior. Pelo contrário: ouvi dele um tempo atrás, cheio de orgulho, que ele se empenhou pra que eu e ela fôssemos melhores do que ele, mas que ele não tinha noção de que nós iríamos além do que ele esperava. Além disso, é tão difícil pintar de herói alguém tão à nossa semelhança! Mas talvez resida aí o ato mais heroico de alguém: ser herói sem contar vantagem por isso.

Meu pai viu o seu pai morrer analfabeto. Depois, presenciou seus dois filhos se formarem em universidades públicas: um jornalista, a outra arquiteta. Viu seu filho lançar um livro e se preparar para lançar outro. Saiu da criação machista e retrógrada do Agreste da Paraíba para assistir ao vivo à cerimônia do casamento do seu primogênito com outro rapaz. E o fez, como ele mesmo disse, porque jamais deixaria de amar seus filhos por qualquer motivo.

Que me desculpem todos os outros, mas meu pai é O CARA. E merece todo o meu amor e reverência.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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