sábado, 15 de agosto de 2015

O Essencial Sobre Mim





Completei 34 anos essa semana. Idade sem graça, né? 33 é bonito, a idade de Cristo; 35 é redondo, o fechamento de um ciclo; mas 34, qual é a graça? Enfim, divago. Por causa do niver, comemorado de forma bem intimista, com amigos íntimos e muito amados, e algumas conversas aleatórias depois, me vieram algumas reflexões, que me trouxeram a esse texto, que nada mais é que um apanhado bem resumido de minha trajetória até aqui e um tipo de esclarecimento, a quem interessar possa.

Aos nove anos comecei a me tornar um pequeno viciado em novelas. Mais do que isso, me vi irremediavelmente fascinado pela possibilidade de criá-las. Era o ano de 1990, a política fervia com as falcatruas do então presidente Fernando Collor de Mello e os brasileiros passavam por maus bocados. Mas, completamente alheio a toda a chatice governamental, eu só queria saber de Rainha da Sucata, Barriga de Aluguel, Mico PretoGente FinaLua Cheia de AmorArapongaMeu Bem Meu Mal, na Rede Globo, e Pantanal, na Manchete, todas as novelas daquele ano.

O fascínio pela teledramaturgia me levou a decorar todos os nomes dos atores que participavam daquelas tramas e depois descobrir quem era quem. Em tempos em que a única fonte de informação sobre o mundo da televisão eram o Vídeo Show e algumas revistas, como Contigo, e a internet e o Google eram algo impensável, essa tarefa não era das mais fáceis. Mas quem pode conter e mensurar uma paixão? Em questão de dias, já tinha uma lista enorme em meu caderno escolar, de nomes, como Regina Duarte, José Wilker, Cássia Kiss, Suzana Vieira, etc. Dali pra criar a primeira história, com o inusitado título de Piscina de Fogo, foi um pulo. Na verdade, era apenas uma ideia de novela, onde a única coisa que eu colocava no papel era o elenco inteiro da Globo, rebatizado com nomes que eu gostava. Só lembro que na minha cabeça, Piscina de Fogo continha muito glamour, riqueza e ambição, uma grande fogueira das vaidades.

Essa era minha brincadeira de infância preferida, uma brincadeira solitária, como a criança que eu era, onde eu podia inventar e ser quem eu quisesse, extravasando os pequenos desejos e loucurinhas da minha cabeça com cenas de brigas, tapas, romances e despedidas entre as paredes do meu quarto. Foram inúmeros projetos de novela, que não eram escritas, mas pensadas e encenadas, com direito a chamadas, trilhas-sonora e até sessão de fotos pra capa do disco, com poses, caras e bocas, tudo estrelado por mim. Nunca dividi minhas fantasias com ninguém, não na infância. Era tudo um grande movimento secreto. Meu infinito particular. Alguns títulos que ainda lembro: De Olho no LuarPor Trás de Uma Porta FechadaLagoa de Sangue e Sem Perdão.

Essa paixão, chamada por alguns, pejorativamente, de vício, formou e moldou minha personalidade, meus gostos, minha maneira de ver a vida e o mundo. E provou-se, não só um hobbie passageiro de infância, mas a descoberta de uma grande vocação, um amor profundo e um sonho quase inalcançável.

Foi aos 15 anos que comecei a acalentar o desejo de ter uma novela exibida em rede nacional, como uma possibilidade real. Imediatamente entendi que o caminho seria árduo e longo e, por muito tempo, desacreditei que o sonho pudesse tornar-se real. Tracei meu caminho e trilhei-o, muitas vezes por vias tortuosas. Não tive apoio em meus sonhos, nem ninguém que apostasse neles de verdade. Pai e mãe não queriam isso pra mim, achavam, e talvez achem até hoje, que é tudo uma grande bobagem. Parentes achavam engraçado e um tanto quanto surreal. Amigos sempre foram os que mais deram força, mas ainda assim ficam com um pé atrás: "Nossa, que bacana, ele escreve, quer fazer novela. Vou ter um amigo novelista. Mas será mesmo que um dia ele vai conseguir? É tão difícil!"

A despeito de tudo e de todos, segui em frente. E por todo meu histórico de vida, criação, educação, religiosidade, tudo pra mim foi e é mais difícil. Perdi muito tempo vivendo em uma redoma de vidro, protegido dos monstros mundanos, sem conhecer de fato a vida como ela realmente é. Como filho único, sempre fui paparicado e tive tudo de melhor na medida do possível. Por motivos diferentes, meus pais tiveram pouco estudo. Minha mãe por ser mulher, pobre e viver na roça, no interior do Nordeste na década de 50, com muito esforço conseguiu estudar por dois anos. Meu pai, por puro desinteresse, parou de estudar na sexta série, mas teve todas as oportunidades. Darei um desconto a ele, pelo histórico da mãe alcoólatra e louca, da qual ele teve que aguentar todos os surtos por ser o filho mais velho, obrigando-o a casar-se com 18 anos para fugir do inferno que era seu doce lar. Enfim, por não terem tido a experiência educacional necessária e se entregarem de corpo e alma a uma instituição religiosa assim que se casaram, meus pais nunca levaram muito a sério o planejamento de minha educação secular. Para eles, bastava concluir o ensino médio. Faculdade? Jamais passou pela cabeça deles que um dia eu desejaria cursar uma. Ser escritor e trabalhar na televisão? Inimaginável! Parece que as coisas fugiram um pouco dos planos que eles tinham imaginado pra mim. E saímos perdendo todos. Eles, decepcionados por minhas pretensões de vida estarem tão distantes das deles; e eu ressentido por eles não terem levado em consideração que meus desejos poderiam ser diferente dos deles, e terem me preparado melhor pra enfrentar o mundo como ele realmente é.

Então deixei mamãe de cabelo em pé, aos 21 anos, e saí de casa com a cara e a coragem, totalmente despreparado, mas decidido a correr atrás da formação que sempre almejei. Foram inúmeros perrengues, sufocos, situações periclitantes. Posso dizer que só não passei fome. E tudo pelo sonho. Mais do que isso, pela única forma de ter uma existência feliz e realizada. Não abro mão disso. Necessito dessa realização tanto como o ar que respiro. E por isso continuo na luta. Lá se vão 13 anos de batalhas e, embora mais perto da linha de chegada do que há treze anos, sinto que ainda falta muito. Às vezes dá um cansaço. Você vê o tempo passando feito rastilho de pólvora e, embora sua pele continue um pêssego, a idade começa a pesar. Você já não tem mais paciência para quem tá começando e dividir a mesma sala de aula com um(a) pirralho(a) de 18 anos te parece humilhante.

Você vê seus amigos da mesma idade, as vezes até mais novos, estáveis na vida, realizando coisas que você deseja, e a sua realidade te esbofeteando a cara todos os dias com empregos de quinta, moradias complicadas e conta bancária que te faz chorar. E você se pergunta se vale a pena tudo isso. E tenta se convencer que sim, é tudo por um sonho profissional, como um estudante de medicina que tenta anos a fio entrar no curso, ou um aspirante a astronauta. Mas, por quanto tempo tentar? Por quanto tempo batalhar, engolir sapo, se humilhar até ser enaltecido? Por quanto tempo encarar o sofrimento até prosperar? Sem respostas!

A única coisa que sei é que na riqueza ou na pobreza, na fama ou na lama, comendo feijão com farinha ou salmão, em Itaquera ou nos Jardins, a minha essência não muda. Nunca desço do salto. Sempre mantenho a classe, o requinte, a elegância. Não nasci em berço de ouro, mas tive uma educação discreta, refinada e sofistiquei isso com o tempo, sozinho, vendo minhas novelas, meus filmes, lendo revistas, livros. Adorando frequentar a casa das amigas ricas de mamãe. Adquiri junto com meu sonho de novelista, bom gosto, desde muito cedo. E uma espécie de glamour natural formou o meu caráter, e não, isso não é pedantismo, é a verdade sobre mim. E uma característica que muitos encaram como arrogância, prepotência e/ou antipatia, mas bastam poucos dias de convivência pra descobrirem que sou uma flor de pessoa.

Sobretudo, por mais que eu ame estar perto de gente luxuosa, viajada, culta e intelectualizada que vive uma vida distante da minha e com quem eu consigo manter um diálogo de igual pra igual, porque complexo de inferioridade eu nunca tive e não pretendo ter, nunca, jamais, em tempo algum, fingi ser alguém que não sou. Sou pobre, assalariado, lascado e até um pouco frustrado. Mas sou também e, principalmente, escritor, artista, talentoso, batalhador e sonhador. Amo o glamour que a vida pode e ainda virá a me proporcionar, e não vou fugir disso ou fingir ser medíocre e me conformar com uma realidade e com pessoas mixas só porque hoje, nesse exato momento, eu não posso acompanhar o ritmo de vida abundante e próspero de amigos próximos e queridos.

Esta é a MINHA ESSÊNCIA!

Posso parecer ridículo, patético e deslumbrado pra você, mas não pense que me conhece melhor que eu mesmo só porque convive comigo há um, dois, cinco ou dez anos. Você não me conhece. Meu nome é Aldeíde Candeias, e eu ainda vou incendiar essa cidade!*

Desculpa gente, mas pra um texto que começou falando de novela, o final não poderia ser diferente!
*Frase dita pela personagem de Lília Cabral, na novela Vale Tudo (1988)
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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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Um comentário:

Daniel Machado disse...

É tudo muito bonito a forma que você vê o mundo....Temos que sonhar sim, e jamais desistir...Mas acho que independente de nossas amizades, duradouras ou não, não podemos perder nossa essência, como você citou...Mas o mais importante: Nunca perdermos nossas raízes, e nunca fazer amizades pra ter status, e sempre sermos nós mesmos...Essa é a essência de tudo...é através desta essência que chegamos aos nossos objetivos...Quando um amigo , mas amigo de verdade te fala coisas boas, ele quer seu bem...As vezes temos que descer do salto e rever nossas atitudes, isso não é feio, aceitar seus erros...e procurar melhorar sempre....Grande abraço amigo!!! Lindo teu texto...E eu apoio teus sonhos...Não importa o tempo...