quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O Inapelável Fim




Deparar-se com a morte nunca é fácil. Embora sejamos os únicos seres vivos que nascem e aprendem ao longo da vida que irão morrer, lidar com a própria finitude é uma tarefa para poucos. Existem algumas situações na trajetória humana que são quase atestados prévios de morte, como já foi (e hoje é em menor escala) a AIDS, e ainda são o Mal de Alzheimer e o câncer. Foi justamente essa última (ou últimas, porque existem diversos tipos) doença que mais me fez refletir nos últimos dias: nessas duas semanas recentes, por questão de trabalho, estreitei novamente os meus laços com a maior instituição de tratamento do câncer no Brasil, o INCA. E tive ainda mais certeza do quanto estamos despreparados para falar deste nosso indesejado e famigerado fim da linha: o bater de botas.

O câncer é uma doença cruel. Abala o emocional de qualquer um. Faz a grande maioria se deparar com cirurgias e tratamentos agressivos, que nem sempre dão resultado. É doloroso para o corpo e para a alma; por vezes deforma partes do corpo, deixa a pessoa careca e com feridas. Traz para alguns a dureza de já ter a certeza de que não há mais tratamento possível e que deixará seus filhos órfãos em breve; ou pais “órfãos”, ao verem um filho ou filha partirem antes deles – algo tão antinatural que sequer existe um termo para pais nessa condição.

Ao mesmo tempo, é uma doença que se permite despedir e desapegar. E ainda: refletir sobre o que se fez nessa vida. Conversando com a diretora da unidade de Cuidados Paliativos do INCA (quando o paciente não tem mais possibilidade de tratamento e passa a receber acompanhamento para ter mais qualidade de vida no pouco tempo que o resta – a média, são dois meses), ela me disse ser muito comum ver as pessoas buscarem correr contra o tempo que perderam se dedicando a outras coisas menos importantes, garantindo um epitáfio mais honroso. Tentam se dedicar aos que amam. Prepararam-se para sua futura ausência com dignidade e respeito ao que construíram enquanto viveram. Às vezes, tudo o que querem é rever o cachorro ou o porquinho-da-índia que não poderão ver novamente, pois não retornarão mais à própria casa.

Ouvi também de outra médica: 
“Quem disse que o principal tratamento para o câncer é a cura? Na verdade, o principal é essa pessoa se sentir cuidada.” 
E é verdade. O câncer é uma realidade. Já é a principal causa de mortes não-naturais do mundo e no Brasil é a segunda – passará a ser a primeira num prazo de cinco a dez anos. Um retrato de uma humanidade que envelhece cada vez mais, que tem hábitos de vida cada vez mais questionáveis, somado à disseminação hereditária própria da doença. Temos que aprender a lidar com isso e saber cuidar dos que passam por uma provação como essa. Pacientes e família, pois é um desafio familiar.

Como diz o velho ditado, para tudo nessa vida tem solução, menos a morte. Nós, às vezes, nos esquecemos disso e deixamos o assunto guardado naquele baú do porão que ninguém mexe. Vivemos em uma sociedade que busca a felicidade a qualquer custo e que execra o debate acerca do inapelável fim. Contudo, ele chega para todos nós. Aprender a lidar com isso é uma arte – dura e em eterna construção. Mas uma arte necessária.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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