sábado, 1 de agosto de 2015

O Que Você Demora É O Que O Tempo Leva




"Entre por essa porta agora e diga que me adora. Você tem meia-hora pra mudar a minha vida."

Voltou ao Brasil após 15 anos na Europa. Partiu para viver em Granada, na Espanha, aos dezoito anos, onde se formou e fixou residência. Deixou pra trás uma pendência. Um sentimento, um sonho, uma possibilidade. Um desejo não consumado. Foi embora com o gosto daquele beijo e a lembrança das carícias trocadas em segredo, que se cristalizaram em sua memória. 

Na noite da despedida, ela namorava Lucas e João Pedro namorava Alice. Após algumas cervejas, garrafas de vinho e baseado, não demorou muito a perceber que os pares estavam trocados. Sentiu-se irremediavelmente atraída por quem não era seu namorado e foi correspondida. Em meio a madrugada, aproveitaram o sono de seus respectivos pares e aqueceram-se em frente às últimas fagulhas da fogueira que fizeram no início da noite, tomaram mais vinho, envolveram-se em um cobertor e trocaram fluidos intensos. Toques. Afagos. Suspiros. O coração descompassado. Tudo muito novo e quase assustador. Não imaginaram aquele envolvimento, não planejaram, apenas aconteceu e foi tão profundo, que ela já começara a imaginar como contar a Lucas que não era ele quem queria. Mas, a outra parte recuou, não tinha estrutura psicológica pra enfrentar aquela situação, sua relação já tinha mais tempo que a dela e preferia manter em segredo o acontecido, não queria magoar ninguém. 

Agora, Lídia voltara disposta a reencontrar esse amor do passado. Queria saber o que tinha acontecido com sua vida, se ainda pensava nela ou se conseguira esquecê-la. Ao chegar no hotel, dormiu algumas poucas horas, ansiosa. Tomou um banho morno ao acordar, secou o cabelo com secador, passou creme pelo corpo, pôs uma maquiagem leve. Uma chuva fina caía insistente. Colocou o endereço na bolsa. Nervosa, preferiu pegar um táxi a dirigir. O peito cheio de esperanças, depois de tanto tempo reencontraria a mais doce e inesquecível recordação de sua adolescência. 

Respirou fundo. Apertou a campainha do apartamento 13. A porta se abriu. Ele estava ali, na sua frente, barba, cabelos loiros um pouco mais longos, lindo, homem feito. Nem de longe lembrava o garoto impetuoso de quinze anos atrás, mas reconheceu-o na hora. Era ele, João Pedro. Ficou um pouco confusa. 

- João Pedro! É você?
- Sim Lídia, sou eu. Fiquei tão diferente assim? Vem cá, me dá um abraço! 

Lídia voltou ao passado ao sentir o abraço afetuoso de João Pedro. Adentrou o apartamento. Acomodou-se no sofá da sala. 

- Fica à vontade Lídia. Nossa, já faz tanto tempo! Como você tá? Quando voltou? 
- É, bastante tempo. Quinze anos! Mas eu tô bem, como você pode ver. Cheguei ontem. 
- Ontem?! E já veio rever os velhos amigos? Isso que é saudade, hein. Mas nós também sentimos muito a sua falta! Você bebe alguma coisa? 
- Não se preocupe comigo. Eu quis vir logo, porque não tenho muito tempo a perder. 
- Entendo. Você se tornou uma mulher muito ocupada. Uma mulher de negócios. Mesmo assim, eu vou preparar um drink pra gente. 
- Eu aceito, se você tiver um chá. 
- Um chá? 
- Sim. Você tem? 
- Chá é o que não falta nessa casa. Que sabor você quer? 
- Pode ser de frutas cítricas. 
- Espera um minuto, enquanto ponho a água pra ferver. 

Enquanto João Pedro estava na cozinha, Lídia reparou no porta-retrato na estante e seu coração parou por um segundo. Agora tudo fazia sentido. Em seguida, João chegou com o chá.

- Você se casou João Pedro? 
- Sim. Você viu o retrato? Sabe quem é ela? 
- Alice 
- Claro, a Alice. Vocês eram inseparáveis, lembra? 
- Eu não podia imaginar. Achei que fosse só um namoro de adolescência. 
- Pois é. Acontece que entre idas e vindas, a gente acabou descobrindo que fomos feitos um pro outro. Até tentamos te mandar um convite pro casamento, mas seus pais disseram que você tava atolada de compromissos e, infelizmente, não ia poder comparecer. 
- Meus pais. Típico deles, responder por mim. 
- Você não ficou chateada né? 
- Claro que não! Quanto tempo vocês estão casados? 
- Completamos oito anos recentemente. Tivemos aquela crise típica dos sete, mas sobrevivemos. 
- E onde ela está agora? 
- Foi buscar Isabela no colégio. Já, já ela tá por aí, vai adorar te ver! 
- Quem é Isabela? 
- Nossa filha. Tem 6 anos. Uma graça! 

Lídia quase engasgou com a resposta de João Pedro. 

- Mas e você? Fala de você, dos seus negócios na Espanha. Tá casada, solteira, divorciada? E o Lucas? Vocês namoravam na mesma época que eu e Alice começamos, lembra? Pretende vê-lo? 
- O Lucas é coisa do passado. Brincadeira de criança. E a gente não namorava, só ficava de vez em quando. Eu achava que acontecia o mesmo entre você e Alice, nunca imaginei que fosse tão longe. 
- O Lucas gostava muito de você. Mas você sempre foi meio distante, né Lídia? 

Nesse momento Alice chega com Isabela. A pequena corre para os braços do pai. Alice surpreende-se com a presença de Lídia tantos anos depois. Isabela quer saber quem é a visita. 

- Essa é Lídia, uma velha amiga do papai e da mamãe. 
- Oi Lídia. 
- Oi Isabela. 
- Como vai, Lídia? - Alice pergunta ainda surpresa. 
- Muito bem, Alice e você?
- Pode apostar que completamente surpresa! 

João pede licença a Lídia e avisa que vai preparar o banho de Isabela, enquanto as duas ficam a vontade pra pôr o papo em dia. Sozinhas na sala, finalmente Lídia consegue cumprir seu propósito ali. 

- Vejo que o João te serviu um chá. Aceita uns biscoitos pra acompanhar?
- Não Alice, tá tudo bem assim. 
- Mas me diz, que novidade é essa depois de tanto tempo?
- Voltei por sua causa Alice.
- Por minha causa? Como assim? 
- Você esqueceu? 
- Esqueci de que? Do que você tá falando? 
- De nós duas, aquela noite no acampamento na beira da fogueira, envoltas num cobertor velho, dividindo a mesma garrafa de vinho no gargalo. 
- Você ficou louca? Me aparece aqui na minha casa, 15 anos depois, pra ressuscitar uma história que aconteceu em outra vida. Olha à sua volta Lídia, essa é minha casa, eu sou uma mulher casada, tenho uma filha, uma família. O que deu em você, pirou? 
- Eu não sabia de nada disso, nem tô entendendo. Por que você fez isso? Porque se casou com o João Pedro? 
- Por que? Você se abala de lá da Espanha até aqui, pra saber por que eu, uma mulher de 32 anos, me casei com o homem que era meu namorado desde adolescente e formei uma família, é isso?
- Eu amo você, Alice, eu sempre te amei, vivi todos esses anos te amando. Aquela noite nunca mais saiu da minha cabeça. Quando eu decidi te procurar, imaginei que você pudesse estar comprometida, sabia que esse era um risco que eu corria, mas não com um homem! 
- Mas você achou que eu fosse o quê? Uma lésbica como você? Sinto muito, mas o que aconteceu entre nós naquela noite foi só um deslize, no máximo uma experiência. 
- Tem certeza disso Alice? Eu vim disposta a levar você comigo, pra que a gente pudesse viver o que foi interrompido no passado. Eu rompi um relacionamento de dez anos pra vir em busca de você, mas eu não sei amar sozinha. Se você me disser não, definitivamente, eu vou pra nunca mais voltar, e dessa vez eu prometo ser apenas uma vaga lembrança de outra vida. 
- Meu Deus, eu tô perplexa! Já tinha ouvido falar de como vocês lésbicas são intensas, impulsivas e até um pouco loucas, mas eu não pensei que fosse tanto! 
- E eu pensei que quando você se recusou no passado a terminar tudo com o João Pedro e ficar comigo, era porque estava confusa, assustada, mas que ia passar e você ia assumir aquilo que é de verdade. Porque eu sei o que você é de verdade, Alice, por mais que negue. E se quiser continuar sendo uma covarde, se escondendo nessa fachada que você criou de família feliz, é um direito que lhe cabe. Se mudar de ideia e resolver de uma vez por todas tornar-te quem tu és, não esquece, que é melhor tarde do que nunca. Nesse envelope tem os endereços e os contatos do hotel que eu estou aqui e da minha residência em Granada. Fico no Brasil por no máximo mais 10 dias. Adeus ou até logo! 

Deixou o envelope na mesinha de centro e se foi. Alice segurou-o e apertou contra o peito. 

Lídia tinha razão, se ela seguisse o seu coração, não pensaria duas vezes, se atiraria em seus braços e consumaria o desejo encubado ali mesmo naquela sala, depois arrumaria as malas e partiria rumo à Espanha para viver o único e verdadeiro amor que sentiu na vida. Mas, havia João Pedro, que era um bom marido. Havia Isabela, que era sua razão de existir. Havia os parentes, que não suportariam o vexame. E havia sua imensa covardia, que era maior que qualquer outra coisa.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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