sábado, 22 de agosto de 2015

Playboy: Do Glamour à Decadência





Eu sempre gostei muito de revistas. Bancas de jornal, pra mim, eram um oásis, parava em qualquer esquina que tivesse uma e ficava ali por longos minutos garimpando todas as novidades. Revista de decoração, comportamento, turismo, televisão, culinária. Todas me apeteciam. Tive a fase colecionador, obviamente. Lembro de, em meados dos anos 90, ficar viciado na Contigo!, tinha pilhas. Também colecionei Capricho, Querida, G Magazine e Junior. Nova Cosmopolitan, Claudia, Marie Claire, Superinteressante, Mente & Cérebro, Vida Simples, Caras, Quem, Chiques & Famosos, Ana Maria, Próxima Viagem, Viagem e Turismo. Todas essas também devorava. Em consultórios médicos, salões de beleza e afins, fazia a festa com aquele monte de revista velha. 

Hoje em dia, esse hábito tem arrefecido bastante, embora ainda goste delas e o prazer de folhear uma revista, tomando um cappuccino em algum café da cidade, seja uma das coisas mais deliciosas a se curtir, sinto pouco a pouco uma paixão dar seus últimos suspiros de vida, assim como uma das publicações mais antigas e renomados da indústria editorial. Falo da mais famosa "revista do homem", a clássica Playboy. Tenho um carinho todo especial por essa revista e é uma lástima pensar que seus dias de glória chegaram ao fim. 

A Playboy desnudou as mulheres mais bonitas, desejadas, famosas e inesperadas em suas páginas, e adquiriu um status raro em seu meio. Sempre como sinônimo de bom gosto e sofisticação em seus ensaios, a publicação reuniu um time estelar de atrizes, cantoras, atletas, dançarinas, assistentes de palco e personalidades em geral, ao longo de seus 40 anos de história, completados nesse mês de agosto (o mês lindo em que eu também nasci). 

Apenas situando como tudo começou, antes de prosseguir com meu lamento: a revista Playboy é uma publicação de entretenimento erótico, direcionada ao público masculino heterossexual. Foi fundada em 1953, por Hugh Hefner. A primeira edição norte-americana, teve na capa a atriz Merilyn Monroe, sendo levada curiosamente às bancas sem número na capa da edição, pois seu criador não tinha certeza de sua continuação. Na época de seu lançamento, a revista destacou-se como pioneira na exibição de fotografias de mulheres nuas. Possui edições internacionais em vários países. No Brasil, é publicada pela editora Abril desde 1975. A princípio chamada de Homem, a primeira estrela a aparecer na capa por aqui, já com o nome Playboy, foi Betty Faria, na edição de seu terceiro aniversário, em agosto de 1978. De lá para cá foram inúmeras capas memoráveis. 

Mas, por que a revista Playboy tem tanta importância pra mim, a ponto de ganhar uma coluna minha só pra ela, aqui no Barba Feita? Primeiro, porque uma publicação que consegue se manter por 40 anos na mídia, merece. Segundo, porque a aura de glamour, poder, luxúria e sofisticação que sempre permeou a revista, sempre me fascinou. Educado para acreditar que todas as mulheres que saíam peladas em suas páginas eram vagabundas e vulgares, ainda menino não conseguia entender como aquelas atrizes das quais gostava tanto, que apareciam na novela em papéis encantadores, podiam ser tão baixas nas páginas de uma revista pornográfica como a Playboy. Pensar naquilo me deixava muito confuso, mas também cheio de curiosidade em saber como eram as fotos. Será que elas mostravam tudo mesmo? Por essa época, as famosas que estavam em evidência e estrelaram Playboy foram Cristiana Oliveira (fev/92), Luíza Tomé (dez/93), Maria Padilha (mar/94), Cissa Guimarães (ago/94) e a Paquita que me deixou em choque, Andréia Sorvetão (dez/95). Lembro que me corroía de curiosidade de vê-las no recheio da revista. E era mera curiosidade de menino, sem nenhuma conotação sexual; o que me atraía a contemplar por longo tempo as capas nas bancas era a feminilidade sensual, ousada e corajosa daquelas mulheres glamourosas. Coisa de bicha, que só bicha vai entender, enfim. 

A primeira Playboy que folheei, foi de uma desconhecida, alguma modelo em evidência daquele ano de 1995, e finalmente descobri que sim, elas mostravam tudo. Depois vi a de Luíza Ambiel, a mais famosa garota da banheira do Gugu, lembram? Mas até aí, nada de emocionante. A obsessão por Playboy e suas capas estreladas começou em abril de 1996. Eu simplesmente era doentiamente apaixonado por Paloma Duarte. Desde sua estreia na Globo, em 1993, achava-a uma bonequinha, uma princesinha, delicada, meiga, doce. Ela já tinha feito duas novelas, Renascer e Tropicaliente. Estava ansioso por sua estreia em O Fim do Mundo, em maio daquele ano. O que eu não esperava sob nenhuma hipótese, era que um mês antes minha musa teen estaria estampada na capa e recheio da Playboy, a revista mais demonizada que eu conhecia. Foi um choque brutal sair cheio de inocência do colégio, naquela tarde de abril de 1996, e descobrir na banca ao lado do ponto de ônibus que eu pegava, que a doce Teca, de Renascer, e a carente Amanda, de Tropicaliente, que sofreu suas dores juvenis embaladas pela canção Menina, de Netinho, não passava de mais uma dessas atrizes vagabundas e vulgares, que iludem a gente na televisão. Ou seria ousada, corajosa e glamourosa? Por gostar tanto de Paloma, comecei a encarar as mulheres de Playboy com outros olhos e, desde então, nunca mais deixei de acompanhar uma capa. 

A primeira que comprei, tremendo de vergonha em pedir na banca, foi a edição de fevereiro de 1998, a primeira de Scheila Carvalho, uma de minhas musas. Ainda naquele ano de 1996, vi também a capa de Maitê Proença, na edição do 21° aniversário. As fotos daquela mulher no sul da Itália, são uma das coisas mais lindas e poéticas que já vi na vida. Inesquecível! 

Virei um pesquisador de Playboys, queria saber todas as famosas que já tinham posado e não parei de me surpreender, quanto mais pesquisava mais me surpreendia, até achar um site com todo o acervo da revista e, finalmente, descobrir todas as capas, o que me proporcionou muitas horas e dias de diversão. A forma como encontrei esse site é bem engraçada. Sou o tipo de pessoa que jamais esquece um rosto, seja na TV ou vida real. Um belo dia, quando trabalhava de caixa num supermercado, vi ao longe, passando em outro caixa distante do meu, uma loira parecida com uma das integrantes do extinto grupo "musical" Axé Blond (quem lembra disso, meu pai?!). Dias depois, a dita cuja, que descobri ser frequentadora assídua do mercado, passou no meu caixa, e era mesmo a tal da guria. Eu, que além de não esquecer um rosto, também guardo nomes muito bem, fui tirar a teima e perguntei se ela era a Thaís Gatolin do extinto grupo. Ela confirmou com um largo sorriso, de quem se sente reconhecida mesmo doze anos depois e fora da mídia. Só que não para por aí, minha gente. Se vocês não lembram desse nome, eu refresco vossas memórias. Thaís Gatolin, uma das integrantes mais carismáticas do grupo, teve um badalado affair com Rodriguinho d'Os Travessos. Dele vocês tem que lembrar, não é possível! O cara bombava na época com o pagodinho romântico que explodiu no final dos anos 90. Era um negrinho de cabelo amarelo, igual o do Belo, e até que era engraçadinho. Hoje ele tirou a tintura, assim como Belo, e virou um negrão, meio gordo, meio musculoso, uma figura estranha. Mas não percamos o foco e voltemos à Thaís. Então, ela se envolveu com Rodriguinho, fizeram juras de amor em rede nacional, ficaram amigos da Xuxa e quase tornaram-se um casal midiático muito famoso. Eu disse quase, porque aí ela engravidou, eles ficaram juntos mais um tempo, depois acabou. A única coisa que sei é que a última vez que a vi, ela estava sozinha com a mãe e o filho fazendo compras num supermercado popular da cidade, muito distante de toda a fama que experimentou na juventude. Só que nos áureos tempos, Thaís também foi capa de Playboy, uma Playboy bem safadinha, ao lado das coleguinhas de grupo, Gizelle e Daniella. E lá fui eu correr atrás do Google pra desencavar esta edição de junho de 2000 e confirmar que a loira madura que passava frutas e verduras no meu caixa era a mesma que fazia brincadeiras eróticas com as amiguinhas, num quarto de hotel. 

E, justamente, por causa do advento da internet e suas facilidades de acesso a tudo online é que a mídia impressa vem perdendo espaço nos meios de comunicação. Acontece com a música, que cada vez mais tem abolido as gravações em CDs físicos, levando-os ao pouco à extinção, as lojas de CDs e DVDs. E tem acontecido com revistas e livros. Tenho medo e pânico do e-book. Por esta razão, o mercado editorial passa por uma crise que atinge em cheio a cultuada Playboy. A revista não é mais a mesma há algum tempo. Sua última grande capa foi em agosto de 2013, em seu 38° aniversário, onde trazia a última protagonista das 9, Nanda Costa, em fotos eróticas em Cuba. E foi neste mesmo ano que rolou um boato de que a Playboy fecharia suas portas, bem como aconteceu com a Capricho e a jovem Lola Magazine, que eu amava e também colecionava. Mas a Playboy seguiu a diante, mesmo capenga, e está aí até hoje, só não acredito que por muito mais tempo. Pois a revista que sempre primou por grandes beldades em seu casting, anda preguiçosa e relapsa na escolha de suas capas. 

A mais esperada era sempre a de agosto. Por ser comemorativa, os leitores sabiam que a estrela seria grandiosa e, salvo raras exceções, a revista nunca decepcionou em seu presente de aniversário aos leitores. Porém, de dois anos pra cá, a publicação demonstra que devagarinho está descendo ladeira abaixo. Ano passado fotografou Jéssika Alves, uma menina com cara de recém saída da pré adolescência, com zero sex appeal, que interpretava uma babá na então novela das 9, Em Família. E este ano, em que comemora o 40° aniversário, uma data marcante e importante, ela tem a pachorra de fazer uma edição mequetrefe, com 40 mulheres que já foram capas e que, segundo o slogan, foram fundamentais na história da revista. Comprei a edição, porque vi ali um sinal nítido de decadência e desde 2013 queria escrever sobre essa crise que se abateu sobre ela e minha relação de carinho e admiração com a mesma. 

Só digo que entre as 40 selecionadas, concordo com no máximo umas 10, como Vera Ficher, Luma de Oliveira, Alessandra Negrini, Claudia Ohana, Grazzi, Cleo Pires, Bruna Lombardi, Magda Cotrofe, Christiane Torloni e Claudia Raia. Faltaram tantas e tantas que foram marcantes e inesquecíveis e que colocaram a Playboy no patamar que ela chegou. Onde colocaram Ângela Vieira, Deborah Secco, Danielle Winits, Renné di Vielmond, Isabela Garcia, Flávia Alessandra, Tássia Camargo, Sônia Braga, Ísis de Oliveira, Mara Maravilha, Simony, Roberta Close, Xuxa e dezenas de outras que realmente fizeram história? 

Se a crise tá braba e a Playboy está em seus últimos dias, onde nem ex-BBB's aceitam mais posar pra publicação, que fechem as cortinas com dignidade. Essa edição de aniversário de 2015 poderia ser mais caprichada, tratada com mais acuro e carinho. Foi simplesmente um amontoado de fotos antigas, sem nu frontal, nem um texto explicativo contando a história e o contexto das fotos. Um trabalho porco. 

E assim termino meu lamento, não como o cara que ia pro banheiro homenagear as gostosas da capa, mas como aquele que ficava fazendo poses no espelho, simulando uma "mangina" e sonhando em um dia ser uma musa da Playboy.

Leia Também:
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
FacebookTwitter


Um comentário:

Pietro Damasceno disse...

Maravilhoso o seu texto!
Parabéns!