segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Reticências (...)





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É domingo à tarde. Eu, que normalmente preparo minhas colunas de segunda durante a semana, no mais tardar aos sábados pela manhã, começo a ficar preocupado. Sabem aquele clichê da página em branco, da falta de inspiração? Batido, eu sei, mas tão real nesse momento.

Lá fora, o dia de céu azul e o sol brilhante me chamam. Eu ainda tenho que correr meus 5 Kms no Aterro, quero dar uma volta, ver gente, respirar ar puro. Mas a ideia da coluna não sai. Quero falar sobre poliamor, inspirado em um programa do GNT, mas ainda não sei como desenvolver o tema; quero fazer uma coluna sobre diálogos reais e imaginários, mas a ideia é ainda embrionária; tenho cartas para escrever, mas não agora, não nesse momento. E no passar das horas eu me cobro: como assim você não tem ideias para a sua coluna de amanhã?

Eu ando pela casa, onde estou sozinho nesse fim de semana. Bem, nem tão sozinho, afinal, os verdadeiros donos da casa são Wolfgang e Dimitri, que espalham suas partículas de preguiça pelo ambiente, miando eventualmente para chamar minha atenção quando querem comida, carinho, água direto da torneira da pia do banheiro ou simplesmente brincar e correr por aqui, não necessariamente nessa ordem.

Eu deito na cama, assisto realities culinários, zapeio pela infinidade de canais da TV por assinatura, vejo todas as opções do Netflix e me levanto. Eu tenho que escrever. Mas pego o celular. São tantos apps, notificações, conversas aleatórias e novidades. Rio com bobagens no WhatsApp, falo com meus queridos, confiro as atualizações no Facebook e no Twitter. Lembro que tenho de escrever a coluna, mas me distraio com aquele vibrar urgente de último momento chamando a minha atenção de volta para o celular.

A coluna. Foco, Leandro, foco! Vamos voltar para a ideia da coluna. Vasculho minha mente e quase me transporto para um filme de faroeste, onde a ação (que ação?) se desenrola em um ambiente sem pessoas e com apenas uma bola de feno sendo levada pelo vento no meio da rua. Busco referências, vasculho a caixa de ideias jogadas foras, relembro situações e possibilidades. O que eu acho?

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As reticências dominam o meu cérebro, as ideias me abandonam e eu penso em um café. Consigo sentir o aroma da bebida e penso: "se não saiu nenhum texto até agora, pra que insistir?". Me levanto e vou para a cozinha parcialmente arrumada, faltando apenas que eu guarde a louça lavada do almoço que fiz somente para mim hoje. Ajeito talheres, guardo os pratos e me lembro: "o café, é claro, o café, eu vim preparar um café!". Ligo a cafeteira expressa, e naquele pote com cápsulas de várias cores, mergulho a mão e fecho os olhos, com preguiça de decidir o tipo de café e apenas tomar logo a bebida que tanto aprecio.

Cápsula na máquina, um toque no botão de On e o barulho do café expresso ficando pronto me faz pensar na vida. Com o aroma do café enchendo a cozinha, penso em ligar pra minha mãe, em arrumar a minha mochila, em separar a roupa da academia, na resenha de Que Horas Ela Volta? que preciso escrever para o Pop de Botequim e que minha corrida hoje não pode ser postergada. Eu penso na vida, na rotina nossa de cada dia e de como podemos ser desinteressantes em nosso cotidiano, vendendo aos outros somente aquilo que achamos que temos de melhor.

De volta para a frente do notebook eu tomo o café, que é um presente para minhas papilas gustativas e penso nesse texto. Penso nas reticências. Reflito sobre as ideias que agora me somem. E começo a digitar, lembrando de todo o nada em que pensei até o momento de começar a escrever esse texto sobre elas, as reticências que insistem em me assombrar.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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