quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Sentença




Todas as noites Chicão acordava suado
coberto até o nariz, seu olhar horrorizado
temia o que diziam que morava embaixo de sua cama
ou dentro de seu armário
temia o próprio escuro
se sentia pequenino coberto pelo lençol
pequeno demais pra separar
seu mundo de ficção
daquilo que realmente existia à sua volta.
Mas os anos se passaram
e Chicão tornou-se grande
mas a sua cabeça continuou bem pequena
e Chicão agora não temia mais o escuro
temia a própria sombra
assombrado pelas notas que havia nos jornais
falando de assalto, de sangue no asfalto
de balas perdidas e de vidas mais ainda.
E Chicão resolveu agir ao invés de reagir
achando que lutava contra essa violência
mas na verdade dando fôlego a essa indústria inacabável
indústria do medo, do dedo no gatilho.
E Chicão foi morar num condomínio fechado
alarme, cerca elétrica, grades, arame farpado
no carro, vidros pretos, todos eles blindados
com seus filhos, seguranças, todos eles armados
bem armados, mal amados.
E Chicão não saía mais
se protegendo, perecendo, perdendo a batalha
a cada trinca a mais na porta
a cada arma a mais em casa
a cada noite a mais sem sono
sentado em sua poltrona
com a boca escancarada cheia de dentes
esperando a morte chegar.
E um dia ela chegou
e não houve arma, alarme ou vidro blindado
que evitasse o inevitável.
Voltando para casa, entrando em seu carro,
Chicão sentiu o cano frio da pistola
e enquanto se apavorava não reparava
que esse era o momento que tanto esperava.
Pra que tanto ensaio se agora era real?
E Chicão reagiu quando não podia
e a pistola que até então era fria
queimou em sua cabeça.
Mais um corpo no chão,
mais um assalto, mais sangue no asfalto,
mais uma nota assombrosa nos jornais.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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