domingo, 30 de agosto de 2015

Silêncio! Pessoa de Inteligência Mediana e Aspirações Modestas Pensando




Vez ou outra começa a circular um texto daqueles de virada de vida. E taca-lha compartilhamento de "como eu larguei meu emprego multibilionário para seguir meu sonho de ser engolidor de facas", ou "o dia em que deixei a presidência para viajar de monociclo pela América Latina", prontamente rebatidos por um "por que abrir meu próprio negócio de cupcakes de cerveja foi a pior decisão da minha vida". O teor é mais ou menos o mesmo: pessoas com empregos regulares que largaram a ideia de estabilidade e renda fixa para investir num sonho lúdico de uma carreira - mais que isso, de uma rotina - fora da caixa. O desfecho muda mas, ruim ou bom, sempre termina em algum tipo de expansão de horizontes. 

Eu sou a primeira a abrir o link, devorando cada linha como quem consome algum tipo de pornografia de nicho na calada da noite. Sou exatamente o tipo de pessoa que escreveria esse tipo de texto - com potencial criativo, filhote da tal geração y (esse barulho alto foi meu bocejo), razoavelmente entediada com a minha vida de poucas viagens e fotos de comida e gatos no Instagram. Leio o texto. Pauso para pensar. Reflito sobre o status quo. E aí abro uma Coca Zero e volto a caçar promoção no Net Now. 

Ao contrário dessas pessoas, eu não quero uma startup (sei nem o que é ou se escreve com hífen), não penso em abrir minha própria empresa de camisetas irônicas com estampas engraçadinhas de Breaking Bad (sério, gente, vamos melhorar isso aí), não estou à procura de um emprego seguindo algum circo itinerante ou degustando cervejas ao redor do mundo. Ok, talvez um emprego degustando cervejas ao redor do mundo não seja má ideia, se alguém estiver disposto a negociar isso aí comigo. Mas ainda assim. Não é um sonho. Não é uma aspiração. Como todo meu tédio, minha morosidade, meu embaraçoso hábito de passar sábados sozinha de cueca samba-canção vendo Gilmore Girls de novo e de novo, eu não sei o que mais eu poderia querer da minha vida. E é aí que as coisas complicam. Não é que eu não tenha coragem de seguir meus sonhos... É que eu não sei o que eles são. 

Por mais que eu adore a ideia de passar o resto da vida pulando de cidade em cidade conhecendo gente nova e postando fotos em praias remotas da Tailândia, não sei em que circunstância exatamente isso aconteceria. Talvez, se eu descobrisse que sou princesa de alguma pequena nação monárquica europeia e dinheiro deixasse de ser uma preocupação, mas convenhamos que as chances disso são pequenas. Se fosse pra escolher alguma fantasia bem louca, eu gostaria de publicar um livro e conseguir reconhecimento mundial, mas não faço ideia do que poderia ser e, sinceramente, não estou aplicando muito esforço pra isso. 

Eu tenho minhas fantasias bobas, que aparecem quando estou correndo ou tendo um dia particularmente ruim no trabalho, mas a verdade é que eu simplesmente não sei. Não sei se gosto do que faço, não sei se quero fazer outra coisa, não sei se sou boa, se sou ruim, se posso me aplicar a ser melhor ou se sou absolutamente miserável. Não sei o que eu sou mas, mais importante, não sei o que eu QUERO ser. Suspeito que muita gente se sinta de forma parecida, mas, vendo os amigos correndo atrás de seus primeiros roteiros, conseguindo promoções nos empregos corporativos, casando em outros países, é difícil admitir, pros outros e pra si mesmo, que você acha lindo isso tudo aí mas não necessariamente se enxerga vivendo desse jeito. Ou de jeito algum, para todos os efeitos. 

E taí um paradoxo curioso. Na tal "geração de pessoas que se acham muito especiais", quantos de nós não se sentem particularmente especiais? Ou não se veem mudando o mundo, criando coisas novas, ~empreendendo? Talvez alguns de nossos sejam ansiosos demais para viver sem fluxo de renda, desorganizados demais para viver na estrada, preguiçosos demais para viver buscando tendências ou a "nova coisa". E quantos têm vergonha de admitir isso? Eu sei que eu tenho. Vez ou outra, as coisas ficam particularmente sombrias, e eu comento sobre minha insatisfação com a minha vida em geral. Sou recebida pelos "mas o que você QUER ser?". Sei que a intenção é ajudar, mas eis um jeito rápido e eficiente de me fazer querer cavar um buraco no concreto e enterrar a cabeça pra sempre. 

A pressão acaba saindo até de quem quer justamente diminui-la, que acha que te estimulando a liberar todo esse suposto potencial está fazendo um favor. Não basta você ser, você tem que achar a máxima expressão de si, sua passagem pelo mundo tem que fazer algum tipo de statement. Todo dia sem acontecimento vira uma oportunidade perdida, e parece que cada segundo que você não gasta maximizando sua juventude é um desperdício de potencial. Eu não sei se eu tenho potencial. Eu não sei se eu QUERO potencial. Se for pra escolher meu sonho mais louco, agorinha, seria um cantinho silencioso e acolhedor onde ninguém está me empurrando, me cobrando, me pedindo nada. 

Talvez algum dia eu destranque alguma ambição adormecida, talvez eu me prove uma pessoa fora da caixa, talvez eu perceba que passei minha vida dormindo e decida me tornar cantora de cabaré, ou talvez pular de abismos com aquela roupa de segurança questionável que te faz parecer um morcego colorido. O meu ponto é que, por enquanto, eu tenho que me contentar. Não necessariamente com a minha vida ou as minhas circunstâncias, mas com o não saber. Com a minha falta de objetivos definidos, de planos loucos, de comprometimento com algum estilo de vida específico. Eu não sei o que eu sou, o que eu poderia, ou o que eu quero ser. Mas talvez, se todo mundo parar de falar ao mesmo tempo, eu algum dia consiga descobrir.

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Leandro Faria  
Fernanda Prates tem 25 anos, mora no Rio há 21 e consome glúten regularmente. Ama lutas, filmes de ação dos anos 80, pasta de amendoim e palavras. Seus hobbies incluem: deixar de sair para ver TV, entrar em pânico por coisas pequenas e comprar roupas online. Segue em busca da felicidade, mas se contenta com cerveja enquanto isso, escrevendo sempre no último domingo do mês como convidada aqui no Barba Feita.
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