sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Sobre Cometas (ou Aquele Momento Em Que Você Gostaria de Ser o Johnny Hooker)



Ato 1: Você ainda pensa? 
O terrível momento em que tudo parece não ter mais sentido. Arraste-me para longe, deixe-me morrer! Aquele momento era real. E agora? Como continuar? O que fazer? Contudo, de repente, o branco já não existia sozinho. Ele traz consigo o silêncio. Não apenas o meu. Não demorou para que as luzes começassem a sugar minha alma. Já não sentia-me vivo. Talvez estivesse mesmo morto. Ótimo seria, poderia findar este solstício 

Ato: 2: Volta 
As trevas surgem e dominam o ambiente. Nada mais. Por um pequeno momento tudo se apaga. Os segundos parecem horas. Um pequeno erro pode levar para muito longe. As trevas quebram o silêncio. Um choro de criança. Milhões de perguntas ao mesmo tempo. O que houve? Tudo bem? Não, nada está bem. O que vem agora? Um copo d’água por favor. Rostos inquisidores, bravos, mas acima de tudo amedrontados. O que estava acontecendo, alguém poderia dizer? E aquela criança que não para de chorar? E essa água que não vem? 

Ato 3: Chega de lágrimas 
Minha única coisa verdadeira aquele momento. Desculpas, desculpas, desculpas. Todas esfarrapadas, atiradas para todos os lados. Agora já se fazia perceber o pânico. Ele não era apenas meu. Uma mentira contada apenas por mim para mim mesmo todos os dias. Ninguém mais acreditou além de mim. Eu acreditei em minha própria mentira. Agora seria encarar a verdade. Mas qual verdade se nem eu mais sabia? 

Ato 4: Boato 
Tantos outros nomes serviriam de apelido agora. O que farei? Ainda escuto essa pergunta dentro da minha cabeça a latejar. Melhor seria criar-me asas. Mas elas não cresceram e o que estou a dizer? Porque não oferecem-me o final das falas? Não! Eu era uma fraude. Não podia ser ajudado. Jamais. Só me restava o exílio. Talvez um dia fosse perdoado. Porque ainda me olham? Gostaria de ter sido um pesadelo. 

Ato 5: Amor marginal 
Passara por mim rápido, louco, astuto. Corri atrás dele, Ele saberia como trazer-me de volta e encontrar a saída daquele lugar que não me pertencera. Sentia vários pés ao meu alcance, mas conseguia ser tão rápido quanto aquele coelho branco. Já estava do lado de fora em plena rua movimentada com mais olhares contra mim, malditos olhares que me perseguem como aqueles pés atrás dos meus. Sentia frio. Deixem-me morrer ou voltar. Se aquele coelho tinha pressa, eu tinha mais. Eu não criaria asas, mas abriria os olhos. 

Ato final: Segunda chance 
Acordo. Olho em volta e vários tubos entram e saem do meu corpo. Eu estava vivo, mas cansado, talvez de tanto correr atrás daquele maldito coelho. Minha cabeça doía. Meus olhos iam para o teto, para os lados, mas não me movimentava. Ele acordou, pude ouvir dizerem, pareciam comemorar. Sim, eu estava vivo, sim, sim, deixem-me em paz, chega de mim! E quais eram mesmo as palavras que me deixaram amarrado a essa dor? 
"E quer saber? Eu desisto." 
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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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