sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Sobre Meteoros





Michel - para alguns Mike - não nasceu Michel. Possuía um nome que odiava. Por isso não serei eu que aqui revelarei. Desde os 16 anos era um rapagão que fazia-se desejar. Mas ele nem se importava com isso. Achava que as pessoas exageravam, mas isso não o impedia de ganhar uns presentes de uns homens e senhoras mais velhos que achavam que ele merecia por fazer um favorzinho aqui e ali. Ora fazendo um trabalho de jardinagem, ora como pintor, coisas que ele fazia muito mal, mas mesmo assim o pagavam. Lembrava aquele dia na casa do velho Olegário , quando fora ajudar a limpar o sótão. Não se importou de fazer em trajes íntimos e do velho ficar sentado apenas a observar, a vantagem era que o homem nem sequer tocou nele. Muitas vezes o tocavam. E muitas dessas vezes ele não gostava. Imponha limites. Podem olhar, mas não me toquem. Não gostava daquelas mãos velhas e frias sobre ele.

Deixou a escola, não gostava de estudar. Um dia, um homem a quem fizeram um pequeno favor sugeriu que fosse a um cinema ganhar uns trocados. Achou o lugar estranho e decadente, mas fez sucesso com os habitués do local, a grande maioria velhos e não gostou disso. Eles queriam lhe tocar. Alguém suspirou no escuro que ele não pertencia aquele lugar. Ele tinha certeza disso. Ficou assustado. Um rapaz com traços fortes e “olhos de ressaca” lhe indicou uma sauna que, segundo ele, era um local melhor. O que o rapaz queria era livrar-se do concorrente.

E a sauna foi um local que ele gostou. Pessoas de lugares diferentes lhe falavam sobre suas vidas. Ele gostava de ouvir, pensava que talvez um dia, quem sabe, ele conhecesse algum daqueles lugares. Nunca havia saído da cidade, mas quem sabe? E ele podia escolher com quem sair, quem deixasse lhe tocar. Um dia, um cliente que lhe lembrava o velho Olégário, lhe convidou para fazer uns filmes. Mas não era bem o tipo de filme que sua mãe pudesse ver. Declinou do convite, mesmo o homem lhe assegurando que os venderia apenas para o estrangeiro. Tinha medo. Lembrara um vizinho que um dia teve fotos íntimas espalhadas pela rede. Demorou um bom tempo para o rapaz sair de casa e quando o fez, foi para ir a rodoviária. Nunca mais ninguém o viu. Definitivamente não faria aquilo mesmo que lhe pagassem muito bem. Mas o velho era insistente e não desistiu. Um dia lhe propôs que fosse com ele a Europa e aquilo alertou alguma coisa dentro dele. Essa era uma boa proposta. O homem sabia que aquele rapaz iria fazer sucesso.


Mas o que faria num lugar onde não conhecia ninguém e nem sabia falar o idioma? Mas o velho lhe disse que havia alguns rapazes como ele, ele não precisava fazer filmes, mas poderia trabalhar em saunas, clubes noturnos ou até mesmo atender algumas pessoas em casa. Ele achou a proposta tentadora, mas tinha medo. Porque aquele homem estava querendo tanto ser bom? Ele não teria nada com ele mesmo que o pagasse, a ideia de ter aquelas mãos rugosas em seu corpo lhe assustava, pensou em desistir, estava perto de assim fazer, mas ele teria outra oportunidade como aquela?

Aceitou. Mesmo aterrorizado aceitou.

O velho imaginava que estando na Europa e ele vendo com seus próprios olhos o quão séria a sua proposta era, ele mudaria de ideia e viraria astro de vários filmes. O mesmo velho havia revelado vários rapazes no passado, mas estava a dever a algum bom tempo e nunca mais encontrara uma estrela. Michel, que naquele momento ainda não era Michel - nem Mike, poderia ser o seu canto do cisne, pensara.

E a Europa era uma explosão de cores! Nunca pensou que pudesse chegar tão longe, lembrava dos conselhos da mãe, mas por ora naquele momento ele não pensava na difícil vida que levara. Quem sabe sua família poderia ter uma vida mais digna. Contudo, ele não pensara muito aquele momento, ele estava deslumbrado. Já não entendia porque teve tanto medo. Tudo estava vindo muito rápido, tanto que ele já nem lembrava mais o rapaz que era. A princípio faria apenas um filme, com a condição que jamais eles fossem exibidos em seu país, algo que ele mesmo sabia que poderia ser complexo controlar. Mas ele fez e na Europa ele era outra pessoa. Um filme, depois outro e mais outro. Já estava filmando em vários locais e dando entrevistas. Ele não era apenas um rapaz bonito, havia algo em seu olhar.

Obviamente, a essa altura a família já sabia, mas ele estava rico o suficiente para que todos engolissem seco aquilo tudo. Alguns até lhe chamavam pelo nome que criara. Sua mãe era a única que não aceitava, nem o trabalho, nem o dinheiro, nem tampouco o fato do filhe renegar seu nome. Mas aceitaria o filho de volta desde que parasse com tudo aquilo que, segundo ela, não era trabalho. Sentia saudades do rapaz, via que ele estava demasiado feliz e isso lhe incomodava.

Incomodava porque tudo estava indo muito rápido, como um meteoro. E meteoros sempre colidem em algum lugar...

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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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