terça-feira, 29 de setembro de 2015

A Grama do Vizinho




Recentemente terminei de ler um livro e, quando parei pra fazer esse texto, não consegui, de tão desnorteado que eu estava. O livro se chama Pequenas Grandes Mentiras, ou Big Little Lies, pra quem gosta de ler a versão original das coisas.

Não vou fazer uma resenha do livro, mas preciso de uma pequena introdução (e vou tentar falar o mínimo possível sobre a trama, pra não estragar a surpresa, porque sim, vocês DEVEM ler esse livro!). Com Madeleine, Celeste e Jane como protagonistas, o livro conta como as três foram unidas pelo destino, já que seus filhos estudavam na mesma escola, a Escola Pública de Pirriwee, uma escola que não tolera nenhum tipo de bullying, e todos ficam surpresos quando surge um caso de bullying no lugar.

Mas o livro não fala apenas sobre bullying. Pequenas Grandes Mentiras é, além de uma história de amizade, uma história sobre violência doméstica, estupro, egocentrismo, dramas de um casal divorciado, e sim, um assassinato. Mas o que mais me chamou a atenção ali foi a violência doméstica.

Uma das protagonistas sofria nas mãos do marido rico, milionário, que, sempre após cada discussão, após cada aperto mais forte no braço, ou rosto sufocado no sofá, dentre outras coisas, trazia para a esposa um presente caro; um colar de pérolas, um vestido caríssimo, uma viagem em família... E todos esses momentos eram registrados no Facebook, com legendas bacanas, poses engraçadas com os filhos, a esposa sorridente. E todos os admiravam muito. Mulheres tinham inveja da personagem, os homens também. Aparentemente? Eles eram ótimos. Mas ninguém sabia o que ela passava em casa, ou no tipo de monstro que ele se tornava quando contrariado.

Teve uma vez, quando eu era dessas pessoas depressivas de Facebook (ah, não me olhem desse jeito), que postei uma frase, e não sei porque que a minha mente guardou isso, que era mais ou menos assim: 
"Todo mundo é feliz, menos eu." (bem depressivo, né?) 
Lembro também que minha amiga Andresa comentou: 
"Nem todo mundo."
Esse livro me fez pensar justamente nisso: na grama do vizinho! A vida no Facebook é muito bacana! Todo mundo sai, se diverte, bebe, adora o trabalho, adora a família... Não só no Facebook, mas em outras redes sociais também. E não, não é uma crítica às redes sociais, ou às pessoas que postam seus momentos felizes na Internet, eu juro que não é. Esse texto é pra dizer que, se a sua vida não está tão boa agora, não pense que a do amiguinho está melhor só porque ele postou foto no Rock in Rio, ou porque a coleguinha postou uma foto com os amigos e uma barca de comida japonesa. "Ai, fulano foi com a mulher e o filho pra praia dessa vez. Semana passada foi shopping... Queria essa vida!". Vai, boba(o), vai pedindo pra ter a vida alheia, vai.

Não estou falando que as pessoas no seu círculo de amizades virtuais sofram violência doméstica, algum tipo de abuso sexual ou algo que o valha (embora não seja impossível). Antes de invejar alguém, pense duas vezes. Pode ser que naquela foto na praia, linda, com uma legenda maravilhosa, a pessoa esteja pensando nas contas vencidas, no quase despejo do apartamento, ou que tenha sido demitida... Ou que talvez esteja pensando em se suicidar... Aquele casal com os filhos felizes na foto deve passar um perrengue do caralho danado com aqueles demoninhos, e você lá: "Own, que crianças mais lindas... Dá vontade de ter uns dez!".

Se a sua grama não está num tom de verde agradável pra você, dê um jeito de mudar isso, mas nada de focar na grama alheia, porque isso não costuma levar a gente pra frente. Use como incentivo a vida que está na sua frente, a palpável, e não aquela cheia de curtidas e comentários.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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3 comentários:

Tiago Henrique disse...

Texto enriquecedor! Adorei.

Glauco Damasceno disse...

Brigado, Tiago!!!!

Glauco Damasceno disse...

Brigado, Tiago!!!!