domingo, 6 de setembro de 2015

A Liberdade de Ser Livre





Pra falar de amor com liberdade eu afirmo: não acredito em nada pra sempre. Uma vez li uma frase muito linda que dizia: para que seja eterno é necessário que se transforme. O que nos leva à conclusão que, até o que imaginamos ser pra sempre vai ter que se transformar e, uma vez transformado, já deixou de ser o que era. E então novos horizontes, rumos e destinos são novamente lançados à sorte. Mas também não sou de repetir o que já foi um verso famoso de pagode da década de 90, “que seja eterno enquanto dure”. Acho meio cruel, não? Depositar tudo o que você tem e pode numa coisa que pode durar um dia. Mas que tenha sido, então, eterno. Não foi. Essa coisa de tudo ser o tempo inteiro intenso e lindo e flores não existe na vida real – nem na minha, nem na da galera poliamor. Tem coisas que são e outras que não. Simples. O efêmero também teu seu valor. 

E aí você se pergunta: o que diabos então estou fazendo aqui? Se nada é pra sempre, e nem tudo pode ser eterno mesmo que seja por um dia, o que fazemos aqui e por que ainda sofremos tanto por amor? Bom, em parte sofremos porque cultivamos o sofrimento. Desde a escolha acidental de parceiros (às vezes, nem tão acidental assim) até a manutenção de relações doentias. O único sofrimento de uma via só é o platônico – e estendê-lo é um prazer masoquista inacreditável. Mas a resposta para o que estamos fazendo aqui ninguém tem. Não estamos fazendo nada na verdade. Ninguém mandou a gente se apaixonar, casar ou ter filhos. Isso é cultural e pode até ser natural, mas não é lei. Gosto de funcionar pela lei porque ela é tão permissiva quanto punitiva e quase sempre amada e odiada pelas mesmas questões. Nascemos e crescemos e no meio do caminho tinha uma pedra que se chamava amor. E agora? Agora a gente ama, ué. Acontece assim. 

E por que dói quando acaba? Por que nos sentimos satisfeitos quando acabamos de almoçar, mas choramos quando terminamos uma relação? Por que damos sentidos diferentes à mesma ação? Enquanto você reflete aí sobre essa pergunta e espera minha resposta, eu já vou lhe preparando para a grande chave mestra dos segredos universais: a ignorância (bendita seja). 

Não sei responder a minha própria pergunta. A verdade é que ainda somos ignorantes em relação ao amor. E mesmo que você tente escrever com palavras lindas e carregadas de mágoa da sua relação que acabou, você também não vai me convencer. A gente aprendeu que é assim e ponto. Do mesmo jeito que aprendemos que menina gosta de menino. Daí já dá pra ver que deu tudo errado. Igual a todo mundo e, escorpiana que sou, também sofro cada término como se perdesse um braço. Juro que nunca mais desacredito no amor, digo que só quero sexo e nada além, até que despretensiosamente cruzei com a amiga da amiga de uma outra amiga na porta do cinema e meu coração até acelerou. Jurei que não foi nada sem esquecer esse sorriso, que acabou cruzando meu caminho uma segunda vez. E uma terceira, uma quarta, um abraço, um e-mail e quando vi já estava lá de novo. Mas, cada vez que me apaixono – prevendo o fim – penso no que trouxe de lição dos meus ‘braços perdidos’ do passado. O que deu errado e de quem foi a culpa. E olha, quase sempre não é culpa de ninguém e ao mesmo tempo é das duas partes. Talvez um não tenha levado a sério a coisa de respeitar o parceiro, e o outro tenha achado que a vingança o faria voltar de joelhos. A verdade é que você precisa olhar pra trás para ver estereótipos de relações e pessoas que te fazem mal, ter consciência que relações doentias não são prazerosas (nem mesmo a curto prazo) e se contentar que muitas vezes você vai ter certeza que encontrou alguém diferente e vai quebrar a cara alguns meses depois. Porque nem sempre você sabe que sua relação vai ser abusiva, ou mesmo que a pessoa que você se apaixonou vai se revelar violenta. Tem coisas que só descobrimos no dia a dia e dá uma raiva danada quando pensamos que amamos gente assim. Mas a gente ama e o ciclo continua. 

Algumas vezes, você já percebe que a coisa não vai dar muito certo. Eu não acredito em ‘amor da vida’. Quando a pessoa diz que achou o amor da vida eu tenho vontade de falar: “Olha só, paixão é mesmo uma delícia, intensidade tira você dos eixos, mas calma lá! Amor da vida você não acha, você faz”. Perderia uns amigos e uns amores com essa frase. Mas é que paixão desenfreada acaba. Ninguém acha o amor da vida na esquina. Você vai saber se alguém pode construir coisas com você pela vida conforme for conhecendo, se entregando, descobrindo. Isso não vai acontecer só porque ela é bonitinha ou porque ele deixou a namorada por sua causa. Sei que é duro, mas esse amor todo que a gente busca não acontece tão rápido assim. 

E quando falam amor de outras vidas? De onde tiram isso? Por que pensar que a mesma alma encarnou tantas vezes e todas as vezes como seu parceiro (a)? Que coisa mais sem graça. Só não é pior do que a metade da laranja. Gente, vamos aprender de uma vez por todas: ninguém completa ninguém. Vocês se identificam, se atraem pelas semelhanças, se atraem pelas diferenças, compartilham os mesmos gostos, os mesmos pensamentos, o mesmo partido político, podem compartilhar até a mesma escova de dente (não, obrigada), mas não é por isso que alguém te completou. São as suas experiências que vão te completar até o fim da sua vida e não as experiências do outro. O maior bem que podemos adquirir enquanto estamos nessa provação eterna que é a vida, se chama liberdade.

E antes que me venham com neoliberalismos amorosos, não falo nesse sentido. Eu ainda gosto do clichê, do romance a dois (e não a seis), não gosto de relacionamento aberto no Tinder e adoro jantar no dia dos namorados. Ter liberdade, ser livre e ser de todo mundo são três coisas bem diferentes. Liberdade é uma conquista, ser livre é um estado e ser de todo mundo é uma escolha. Tudo é válido, baby, só deixa bem claro como você quer seguir pra não ter briga depois. 

A liberdade quem te dá é você mesmo, quando se liberta – literalmente – do abuso humano que se esconde no véu florido do amor. Ter que dar satisfações é tão desrespeitoso quanto trair, na minha (humilde) opinião. Por que eu preciso te dizer que saí às 17:45h do trabalho e fui tomar uma cerveja (foi só uma amor, eu juro) com o fulano no bar ali perto de casa? Por que avisar isso é ok e responder a mesma coisa quando você perguntar ‘e aí amor, como foi seu dia?’ não é? A liberdade só depende de você não deixar esse tipo de comportamento – e eu poderia citar outros trezentos – ser padrão na sua vida. 

Já ser livre é um estado de espírito. Eu sou livre, por isso sou sua namorada. Eu estou livre, por isso escolhi estar aqui com você. Quer declaração mais linda que essa? Não tem amarra que faça alguém ficar quando não quer. Ameaça pode até funcionar por um tempo. Chantagem emocional, ciúmes, vou me jogar na frente de um carro, vamos comprar um cachorro pra você nunca me deixar, também. Mas uma hora cansa, né? Isso mostra que a fidelidade está além (ou aquém) da liberdade, e inclusive é sempre bom lembrar que relacionamentos abertos diversas vezes são campeões em prisões. A prisão emocional é a maior falta de liberdade que se tem na vida. 

Então, antes de procurar o amor-da-vida-pra-sempre, pensa em achar sua liberdade. Se sentir livre pra ser você, pra pensar o que você quiser, pra falar o que você bem entender e depois, quem sabe, o amor não acontece? Mas não amarra ele nesse poste do pra sempre não. Amor tem que voar.

*Imagem de Abertura: Nan and Brian in Bed, 1983, by Nan Goldin
Leia Também:
Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: