sábado, 19 de setembro de 2015

A Medida do Orgulho





Existe um sentimento de orgulho exacerbado dentro de mim. Não o orgulho de satisfação por algum feito realizado ou o sentimento de soberba e arrogância, mas o orgulho que é sinônimo de brio, amor próprio e dignidade. Embora esse orgulho seja considerado bom e de extrema importância pra auto-estima do indivíduo, admito que, às vezes, sofro por causa dele, devido à intensidade com a qual sinto tudo.

Me acusam de dramático, exagerado, radical, difícil, querer ser o centro das atenções e o dono da verdade, quando a única verdade é que sou um incompreendido mesmo, até por aqueles que dizem gostar de mim enormemente.

Eu simplesmente amo profundamente os que tem a sorte de serem contemplados por este sentimento meu e me magoo com atitudes ou falta de, que são consideradas prosaicas, bobas e sem importância pela grande maioria das pessoas. Sinto cada vez mais que os outros se importam muito pouco, ou absolutamente não se importam, com regras de convivência e amizade básicas, e eu, definitivamente, não sei lidar com isso. Com essa leviandade pelo sentimento alheio.

Carinho, respeito e consideração estão no topo da lista quando se trata das pessoas que eu escolhi pra andar comigo e fazer parte do restrito grupo de amados do meu coração. Eu não abro a guarda fácil. Observo, analiso, escolho a dedo, mas quando me entrego é de corpo e alma, sem ressalvas, e o mínimo que eu peço é a mesma proporção de carinho, respeito e consideração. Mas não tem sido fácil. Quando reivindico que me amem na mesma medida, sou taxado de tudo, menos de adjetivos nobres, acompanhados por um ar de enfado. As pessoas estão erradas ou eu que preciso mudar? Sou carente demais ou apenas um leonino vaidoso?

Sim, as pessoas estão erradas, pois elas não imaginam como é grande e verdadeiro o meu sentimento. E sim, eu preciso mudar, porque amar demais faz criar expectativas demais, e machuca demais. E te faz sofrer, e isso é uma loucura, porque o outro não pode se responsabilizar pelas tuas expectativas. E muito menos ser eternamente responsável por ter te cativado, como já declarou categórica a raposa d'O Pequeno Príncipe.

Também pode ser um pouco de carência da minha parte, por ser filho único e com todo o amor do mundo dentro de casa, me sinto meio perdido, tendo que lidar sozinho com as pessoas, longe da proteção materna contra a falta de amor no mundo, o amor que eu julgo merecer. E talvez tenha aí também uma pitada da tal vaidade leonina.

O fato é que tenho cansado de dar murro em ponta de faca, de tentar convencer as pessoas que estou ali por inteiro pra elas e que eu preciso sentir que elas também estão inteiras pra mim. Que me amam com a mesma intensidade. Mas tenho colecionado pequenas decepções de pessoas que tenho em alta conta. O que tenho feito? Tentado mudar. Tento me moldar ao seu modo displicente de gostar. Até por gostar muito dessas pessoas e não querer perdê-las por completo por conta das minhas cobranças. Não se cobra amor, nem carinho ou consideração. É chato e indigno. E sou orgulhoso demais pra isso. Ao mesmo tempo, quando se gosta muito de alguém, deixamos o orgulho de lado e nos humilhamos por um pouco de amor e afeto genuínos. Ajo assim em alguns momentos, mas quando me dou conta não me suporto. Odeio mendigar amor e consideração.

Aí entra o meu orgulho, do qual falei no início. Depois de algum tempo insistindo nessa via de mão dupla, em que os sentimentos precisam da mesma medida pra perdurar, o grandioso e radiante orgulho manifesta-se em sua forma mais plena. Vou matando devagar os sentimentos, sufocando-os pouco a pouco, até que não sobre mais nada. Mesmo que exista um desejo íntimo de voltar atrás, uma vontade de partilhar coisas com aquela pessoa, o orgulho não deixa. O amor-próprio grita mais alto. O raciocínio é o seguinte: se não pode me dar da forma que quero, não quero de forma nenhuma. Não é bonito, nem virtuoso, mas é minha maneira de sentir as emoções. Oito ou oitocentos. Tenho buscado o equilíbrio, a medida do orgulho, mudado a conta-gotas, mas eu me amo acima de tudo e não admito que firam meu orgulho. E meu calcanhar de Aquiles é amar sem ser amado, desperdiçar meus mais caros sentimentos.

Tem um rastro de mortes no meu caminho. Mas matar dá muito trabalho. O melhor mesmo é esquecer a existência da pessoa; aquela pessoa que confirmou presença no seu aniversário mas não foi e não deu nenhuma satisfação, ignorando que você fez reservas precisas. Aquela pessoa que viajou pra sua cidade dizendo que queria te encontrar e quando lá chegou, não só não te encontrou, como não disse nem um tchau ao voltar pra cidade natal. Aquela pessoa que quando você esteve na cidade dela e queria muito encontrá-la, te deu um perdido e ficou meses sem visualizar as últimas mensagens que você deixou no WhatsApp dela. Aquela pessoa que jura ser sua melhor amiga, mas a cada dia que passa estreita mais os laços de amizade com alguém que não te suporta. E, finalmente, aquela pessoa que não te suporta, mas finge que sim, porque é covarde demais pra admitir os sentimentos "feios" que tem, porque tem uma necessidade absurda de vestir a máscara de boazinha, mas não passa de um embuste cheio de recalque.

Parecem motivos tolos e pequenos para magoar-se? Pode ser. Talvez eu seja psicótico, quem sabe? Mas é assim que funciona comigo. Detesto pessoas levianas e ponto. Já bem dizia Pedro Bial, no mantra mundial Filtro Solar: Não ature gente de coração leviano. Não aturo! Mas tenho aprendido a lidar. Não sofrer. À primeira pontada no peito, de raiva e revolta, por algum tipo de indiferença da parte de quem gosto, o melhor a fazer é respirar fundo, manter o ar blasé, lançar o sorriso do gato de Alice e apagar suavemente a importância que aquela pessoa um dia teve na sua vida. E se um dia bater uma falta da pessoa, admitir que nem tudo precisa ser pau e pedra, algumas decisões podem ser flexíveis. Acho que essa é a medida do orgulho, impor-se de forma firme, mas saber quando recuar. Ainda não cheguei na segunda parte, mas estamos trabalhando para isso.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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