domingo, 27 de setembro de 2015

Antes Só...




Era uma segunda e tínhamos acabado de chegar de viagem. Estávamos num bar perto do nosso hotel e eu notei, ainda na primeira caneca de cerveja escura, que o abraço aconchegante daquele edredom branquinho me parecia cada vez mais interessante. Tomei mais algumas mesmo assim, mas comecei a desanimar com a ideia de passar os 40 minutos seguintes tentando decifrar o mapa do metrô apenas para ter, em outro bar vazio, as mesmas conversas que poderíamos perfeitamente manter deitados de conchinha - de preferência com algum reality ruim da MTV americana piscando na TV ao fundo. Quando o já esperado "E agora, pra onde vamos?" surgiu, respondi da forma mais gentil que poderia, explicando meu cansaço e lembrando que o dia seguinte começaria cedo. Não fui grosseira. Não bati o pé. Não dei chilique. Apenas expressei um desejo. 

Corta para a voz em off do Morgan Freeman, comentando em tom de discreta superioridade: "Mal sabia ela que..." 

Eu, que meio que já aprendi a esperar o pior das pessoas, não antecipei a tempestade que simplesmente cogitar não ir para um segundo bar numa noite de terça desencadearia. Ouvia, num misto de 10% de raiva e 90% choque, que eu "vivia me gabando" das coisas que eu fazia antes de estarmos juntos, mas que não sabia me divertir com ele. Que eu era capaz de ficar na rua até altas horas com outros caras ("outros caras" era um conceito muito presente no nosso relacionamento), mas não com ele. E, por fim, o clássico "você deveria fazer um esforço" - aplicado ocasionalmente à nossa vida sexual também. Essa é a versão light de tudo que eu ouvi aquela noite, que acabou com as apontadas de dedo que, em linhas gerais, diziam que eu havia me vendido como uma garota ousada, vid4lok4 e sexualmente implacável, mas que com ele eu era uma chata. Ou eu havia mentido sobre mim mesma, ou eu simplesmente era melhor para os """"outros caras""""do que pra ele. As duas alternativas eram terríveis, porque não me considerava uma mentirosa nem uma pessoa menos interessante quando estava com ele. Eu inclusive pensava que agia muito mais de acordo com a minha real personalidade com ele do que com os """""""outros caras"""""". Aquilo que ele estava vendo - aquela pessoa aparentemente terrível que, às vezes, preferia estar quietinha do que enchendo a cara noite adentro - era a tal "eu". E isso não era o bastante. 

Claro que, após o chilique, acabei desenvolvendo uma repulsa quase física à ideia de ir para outro bar. Tudo bem, porque a graça acabou ali. Não tinha mais clima pra nada. Pra cerveja, pra metrô, pra conchinha. Comecei a chorar na caminhada de volta pro hotel, mas continuei no quarto. Ele era minúsculo, e tivemos que dormir na mesma cama. Chorei a noite inteira, do lado dele. Acordei com a cara triplicada, parecendo um marshmallow, e continuei meu choro no banho. Minha habilidade de chorar ininterruptamente por horas, como vocês devem ter percebido, é um dom verdadeiramente extraordinário. Eu simplesmente não conseguia parar, num sentimento misto de impotência e falta de ar, presa num quarto de hotel minúsculo com uma pessoa que me queria por perto como um acessório. Ele era pra ser um dos caras legais. Ele era um cara legal. Mas de alguma forma, no meio do caminho, mais uma vez eu estava brigando por não corresponder à ideia que alguém tinha de mim. Voltei para o quarto e ele, provavelmente vendo que a torneira na minha cara não ia fechar tão cedo, me abraçou e fez um pedido tímido de desculpas. Decidi aceitar ali, pra não acabar a viagem. Aceitei mas não aceitei. Acionei a contagem. Ele havia apertado o grande botão vermelho - aquele que dispara os alarmes de "cuidado, pista sinuosa e cheia de culpa e ressentimento" à frente. Era questão de tempo até terminarmos definitivamente. Acho que duramos mais dois meses. 

Na época não entendi porque aquilo me pegou de um jeito tão intenso, quando outras brigas acabavam sem grandes repercussões emocionais. Hoje eu vejo que é porque foi ali que percebi que aquele relacionamento estava caminhando para o mesmo lugar que todos os outros - cobrança, barras forçadas e o detestável "se você me amasse, você faria". Quando eu conto essa história, muita gente comenta que ele foi um babaca - e hoje, depois do meu habitual ritual de auto-imolação e transferência interna de culpa, eu vejo que ele foi -, mas aquela não era a primeira vez que eu ouvia o mesmo discurso numa embalagem diferente. Ele não era um babaca. Ele era um namorado acima da média, mas ainda assim uma pessoa como todas as outras, vulnerável ao contexto social. Quantas vezes eu ouvi, em tom menos ou mais amigável, que "era só fazer um esforcinho"? A gente inclusive aprende que é assim mesmo que relacionamento tem que ser. É sacrifício, é concessão, é abrir mão. A gente aprende isso na segunda série, quando o amigo empurra a gente no escorregador e a tia explica que é só o jeitinho dele "mostrar que gosta da gente". A gente aprende isso nas comédias românticas, quando é necessário ver o cara sendo um bostão por duas horas pra poder verdadeiramente apreciar o discurso choroso de arrependimento no portão de embarque. Ouvimos que é impossível estar com alguém sendo totalmente nós mesmos. Estamos constantemente nos anulando, nos contorcendo pra caber em caixinhas comportamentais. Flertamos casualmente com o abuso. De certa forma, somos variações daquele garotinho e garotinha no escorregador, tentando determinar até que ponto estamos dispostos a abrir mão do nosso conforto e bem-estar em nome de uma ideia convencional de amor romântico. Aprendendo sobre nossos limites apenas após percebermos que eles foram extrapolados. 

Por que estou falando disso? Primeiro porque eu texto é meu e eu falo do que eu quiser, seu mala. Segundo, que semana passada fiz 26 anos, e a gente começa a pensar nesses causos. No meu aniversário de 25, comemorado num bar lotado, eu tinha um namorado e um grupo fixo de amigos com quem eu saía toda sexta. Nesse... Digamos que não. Estou numa fase particularmente solitária, com poucos bons amigos que respeitam meu espaço o suficiente pra entenderem meus momentos de introspecção. Fiquei melancólica por alguns dias, reprovando internamente minha inabilidade extrema de engolir sapos. Com namoro, com amigo, com trabalho, com família. Sempre acabo acionando o tal do botão vermelho, com um senso de identidade pessoal forte demais para acomodar muitas concessões. A minha natureza, combinada com traços comportamentais, fazem de mim um ser bastante egoísta na descrição convencional da palavra. De uma forma geral, escuto que sou "fria", sempre a primeira pessoa que procuram quando querem terminar um namoro, aquela capaz de analisar a situação de forma pragmática e sem rodeios. Meu amigo vai casar, e nem ocorreu a ele incluir um "+ 1" no meu convite. Ele presumiu que eu iria sozinha. Já tive quatro namorados sérios, mas de alguma forma ainda sou associada a uma pessoa solitária - os meus relacionamentos tratados numas de dias contados. É de conhecimento público que eu não quero ter filhos, que casar não é objetivo de vida. Admito que gostaria de ter mais flexibilidade em certos sentidos, mas depois de certo tempo a gente começa a aceitar alguns traços de personalidade como coisas nossas. E passa a medir melhor o ponto em que uma concessão vira violação - a peça-base do muro destruidor de relacionamentos conhecido como ressentimento. 

É importante dizer que não estou dizendo que todo relacionamento com concessões é necessariamente abusivo. Ou que abusos emocionais devem ser interpretados como concessões. Estou dizendo que somos diferentes em nossas vontades, personalidades e, claro, limites. Estou aos poucos aprendendo os meus, e que, embora provavelmente mais estreitos do que a média nacional, eles não são negociáveis. Pode ser que eles mudem daqui a alguns anos. Pode ser que aos 35, depois de anos de sextas passadas em casa vendo Rocky de regata e calcinha com rúcula no dente, eu pese as coisas e decida que de repente vale violar os meus impulsos mais primitivos de autopreservação para ir acampar num feriado prolongado. Eu, felizmente, mudei muito nessa vida. Mas a realidade é que até hoje, aos 26 anos, acabei me sentindo da mesma forma em todos os meus relacionamentos: sufocada, distanciada de mim mesma, brigando com as minhas vontades e necessidades para preservar uma imagem de mim mesma que aparentemente eu mesma projeto em aproximações iniciais. Miserável e violada. Irremediavelmente egoísta. Sozinha. 

Então, no meio dessa crise toda, esbarrei nesse vídeo da Eartha Kitt (http://bust.com/eartha-kitt-s-response-to-compromising-for-a-man-is-priceless.html), no qual ela simplesmente ri na cara do entrevistador quando ele sugere que ela teria que "compromise" (algo como "abrir mão das coisas") por um homem. Ela se diverte bastante às custas do cara (que é um puta dum mala) mas completa, comentando que é fã de estar apaixonada, que acha ótimo, mas pelas razões certas. Puxa. Quis que ela ainda estivesse viva. Quis que ela viesse me abraçar e dizer que vai ficar tudo bem no final. Passei a minha vida me convencendo de que o meu jeito está errado, que eu sou egoísta, que, a não ser que eu queira morrer sozinha, tenho que aprender a ser menos de mim pra acomodar mais dos outros. Mas a Eartha me entende. Eu não sou fria. Eu adoro me apaixonar. Eu adoro falar que amo alguém e ouvir isso de volta. Adoro fazer massagem, enroscar braço no cinema, enojar a todos com declarações ridiculamente piegas no Instagram. Às vezes eu sinto falta de ter alguém. Mas quando bate a melancolia, quando eu noto que tem comida no meu cabelo desde o almoço mas não tinha ninguém por perto pra avisar, eu lembro daquele dia, na viagem, quando gastei uma noite na minha cidade preferida chorando por me sentir insuficiente. Penso nas vezes em que eu tive que ouvir, de formas menos ou mais sutis, que era uma decepção. Nos dias em que me neguei todas as minhas vontades para acomodar as dos outros. Nas noites em que não pude respeitar os meus silêncios, constantemente invadidos pelo barulho dos outros. 

Admito, dada a escolha eu preferiria não morrer sozinha. Mas sei que isso pode acontecer. Sei que posso flexibilizar meus limites um dia, sei que posso encontrar um cara legal e disposto a tolerar minhas idiossincrasias, mas sei também que posso manter pra sempre esse violento instinto de autopreservação. E que pode ser que ninguém aceite. Sei que posso em tornar uma velha maluca que coleciona tartarugas de estimação e detesta gatinhos filhotes ou o som da risada das crianças. Eu gostaria de encontrar alguém. Mas, enquanto isso não acontece, eu tenho Netflix. Eu tenho as palavras. Eu tenho vocês. Eu tenho Coca Zero, eu tenho meus tênis de corrida, eu tenho convites malucos para programas de índio em noites de quinta. Eu tenho, cada dia mais, em quantidades talvez acima da dose médica recomendada, a mim mesma. O resto a gente resolve.
Leandro Faria  
Fernanda Prates tem 25 anos, mora no Rio há 21 e consome glúten regularmente. Ama lutas, filmes de ação dos anos 80, pasta de amendoim e palavras. Seus hobbies incluem: deixar de sair para ver TV, entrar em pânico por coisas pequenas e comprar roupas online. Segue em busca da felicidade, mas se contenta com cerveja enquanto isso, escrevendo sempre no último domingo do mês como convidada aqui no Barba Feita.
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