quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Conheça a Sua Verdade





Estou assistindo com certo atraso (ok, seis anos para ser mais preciso) à primeira temporada da série americana Glee. Já havia muito tempo que tinha os boxes de DVDs em casa, mas foi de alguns meses para cá que parei para assistí-los. Além do meu gosto por musicais, o que causa empatia inicial com a série (que é muito bem feita, tem bons vocais e ainda nos dá a oportunidade de apresentar com um novo significado músicas que cantávamos com embromation acompanhando o rádio no passado), existe algo de fantástico em Glee que é a constante mensagem de “seja quem você é”.

Existem lá diversos estereótipos presentes: o professor de música que torce para que os seus alunos tenham mais sucesso do que ele teve; a treinadora insuportável das cheerleaders (a melhor personagem da série); o treinador de futebol americano sem qualquer tipo de vaidade; a orientadora educacional cheia de TOCs; a aluna que se acha Barbra Streisand e acredita ser melhor do que todos os demais colegas; o boa praça que é capitão do time de futebol americano e se torna líder do grupo musical; as bitches e os bad boys que começam a se redimir após o contato com os losers e veem que, na verdade, não são tão diferentes assim – e aqueles que não mudam mesmo e continuam ameaçando fisicamente. E ainda há o adolescente gay que passa pelo momento da aceitação do pai bronco e, ainda assim, luta por vezes contra a sua sexualidade para tentar provar algo para esse mesmo pai.

Esses estereótipos só fazem sentido porque são a realidade. Numa sociedade como a norte-americana, baseada no sistema de vencedores e perdedores, de heróis imediatos, de busca por holofotes, essas figuras se repetem de forma cíclica em qualquer canto do país. Não precisamos ir muito longe: situações como bullying e apartheid por popularidade são realidade em muitas instituições brasileiras. Eu mesmo já tratei disso aqui ao falar de comoo colégio no qual passei 11 anos da minha vida mais parecia um high schoolestadunidense. Identifico várias figuras dessas acima por lá.

Mesmo com tudo isso, muitas das vezes são as adversidades que nos mostram a nossa verdadeira essência. No único momento em que fiz terapia em minha vida, lembro-me do psicólogo recorrer a uma frase de Jesus (não, ele não estava tentando converter ninguém) que dizia “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Em nenhum momento ele disse que a verdade seria única. Mas, sim, que cada um deveria conhecer a sua própria verdade. Porque viver na mentira é uma prisão eterna e que causa sequelas irreparáveis.

Sempre tive muito problema em decepcionar as pessoas. Esse foi o grande cerne da tal terapia que mencionei acima. Curioso é que por pelo menos duas vezes em minha vida tive que tomar decisões que poderiam desapontar aqueles que eu mais amava à época: quando assumi a minha sexualidade e ingressei na minha religião. Costumo dizer que ambas não foram escolhas, mas, sim, descobertas. Escolha seria viver numa hipócrita mentira que me garantisse a aceitação fácil da família e da sociedade, mas que me mataria por dentro.

Sei que Glee perde fôlego nas temporadas futuras. Inclusive, assistir agora às cenas de Lea Michele com Cory Monteith gera certa melancolia ao saber que o rapaz já faleceu (na idade em que eu estou hoje, diga-se de passagem). Mas Glee cumpriu sua função enquanto existiu. Certamente ajudou diversos adolescentes (e adultos) a se entenderem melhor. E a seus pares a saberem como lidar com situações que fogem do seu controle – afinal, a felicidade e a personalidade dos outros é algo individual e intransferível. Rachel, Finn, Will, Sue, Quinn, Puck, Mercedes, Santana, Kurt e cia terão sempre um espaço guardado na história da dramaturgia americana. E nos meus tempos livres nos próximos meses.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

rubemsan santana disse...

Não assisti toda a série mas é divertido.
"Porque viver na mentira é uma prisão eterna e que causa sequelas irreparáveis." Realmente é algo que estou superando aos poucos...