terça-feira, 8 de setembro de 2015

Damasceno, Como Minha Mãe




Eu lembro da primeira vez que eu fui a um shopping com meus pais. Nós tínhamos ido ao Sider Shopping, em Volta Redonda, que não é aquela coisa que se diga “minha nossa, que shopping”, mas eu tinha seis, sete anos, eu acho. Tínhamos ido porque minha mãe e eu íamos participar de um concurso chamado “A cara da mamãe”. Foi divertido, fomos ao McDonald’s pela primeira vez, comemos pipoca de carrocinha, rimos; um dia em família. 

Lembro também de uma vez que eu fui comprar feijoada com a minha mãe num boteco que tem aqui perto de casa. Era noite, acho que sexta-feira, e a feijoada de lá era uma delícia, não sei se eles ainda fazem. Quando entramos, uma mulher bem estranha veio mancando pro nosso lado e disse: “Olha Zulma, eu já estou andando!”. Minha mãe soltou um “Ai, meu Deus” baixinho, como quem diz “Que marmota é essa?”, sorriu pra mulher e falou qualquer coisa para felicitá-la e, ao mesmo tempo, não estender a conversa. 

Teve também a vez que minha mãe me salvou no colégio, quando um garoto que não ia com a minha cara reuniu uns dez, quinze garotos pra me bater na saída, e minha mãe apareceu como que sentindo que eu precisava de ajuda e saiu comigo do colégio. Se colocou na minha frente e, quando um dos garotos me deu um chute, ela segurou o meu braço e disse “EI, SEM BATER!”. Pensei na mesma hora: “Estamos ferrados, minha mãe não aguenta correr, eu não posso deixar ela sozinha, então vou apanhar até a morte.”. Ali ela conversou com o líder, chegaram a um acordo e fomos pra casa, de braços dados, de cabeça erguida, enquanto éramos xingados. 

Outra coisa que eu me lembro bem foi de quando nós fazíamos parte daquela organização religiosa e fomos, junto com outras pessoas, fazer um culto na casa de uma moça, no aniversário do filho mais novo dela. Na hora da festa, apareceu alguém com uma bandeja de refrigerantes, e minha mãe surgiu do meu lado, e seguiu o seguinte diálogo, entre dentes: 

- Glauco, o refrigerante é daquelas marcas esquisitas. 
- Não brinca... 
- Fica tranquilo, vou rodar e ver se descolo uma Coca-Cola pra gente. 

Quando meu pai sofreu um acidente de ônibus, indo pra Vitória para um seminário da igreja, e só tínhamos a notícia de que sete pessoas haviam morrido, minha mãe se sentou comigo na cama e disse “Glauco, fiquei sabendo que houveram mortes, mas ninguém sabe quem foi. Se o seu pai estiver entre os sete, a gente não vai chorar pra eles, nem fazer escândalo, nem essas coisas. A gente vai chorar aqui dentro de casa, ninguém precisa saber pelo que a gente ta passando, nem que a gente ta sofrendo.”. E choramos horrores. 

Lembro também do nosso código secreto de comunicação durante os cultos. Se precisasse chamar a minha atenção enquanto o culto rolava, era só dar um pigarro, e eu sabia exatamente que ela tava me chamando. Infelizmente, as pessoas começaram, uma a uma, a sacar a ideia, então todo mundo olhava pra minha mãe também. 

Eu costumava sentar no chão da sala, entre as pernas dela, enquanto ela espremia as espinhas do meu rosto, e ríamos muito, falando mal de um monte de gente. Também me contava dos tempos em que cozinhava na casa dos ricos do Rio de Janeiro, de como ensinava aquele povo fresco a comer coisas simples, mesmo que ela não dissesse a eles que estavam comendo um simples peixe grelhado, enquanto eles comiam achando que era um prato totalmente exótico. Ah, ela e as demais cozinheiras, empregadas e tal, adoravam bater papo com Cid Moreira, chamavam ele de “Seu” Cid. Ele adorava contar causos pra elas. 

Lembro de como eu ri pra caralho quando ela cantou "Eu sou sobrinho do Valdemar", numa tradução descontraída de "This Is The Rhythm of the Night". Minha mãe costuma dizer “Glauco, por isso que ninguém gosta da gente, somos muito língua solta”, e ri. 

Vivo tentando fazê-la me ensinar a cozinhar, mas, assim como eu não consigo ensinar Música, por ter aprendido sozinho, ela não consegue me ensinar a cozinhar, porque aprendeu a fazer olhando os outros fazerem. 

Recentemente minha mãe passou por uns perrengues, que eu não vou mencionar, mas que mexeu bastante comigo. Vê-la daquele jeito, incapacitada, dependente, doente... fez algo estalar dentro da minha mente. Então fui até ela, segurei no rosto com as duas mãos, do mesmo jeito que ela fez comigo várias e várias vezes quando eu ficava doente, olhei nos olhos dela e disse que ia ficar bem, que tudo ia ficar bem, enquanto conversava com meu pai, que aguardava minha irmã e cunhado chegarem pra levá-la ao médico. Virei pra minha mãe e disse: “É uma encheção de saco, né mãe?!”, e podem dizer o que quiserem, que foi impressão minha, que ela não estava raciocinando bem, mas, quando eu disse isso, ela olhou pra mim e sorriu. Ela entendeu o que eu estava dizendo sim, não importa o que digam. 

Pessoas como minha mãe e eu, detestamos depender dos outros, seja da família ou não, pra fazer qualquer coisa. Pode parecer orgulho, ou que fazemos pouco caso das pessoas, mas não é, acreditem. Minha mãe sempre se virou sozinha quando morava na roça, eu aprendi a me virar sozinho, graças aos conselhos dela. Pode parecer mórbido, pessimista da minha parte, eu sei, mas eu já estava planejando tudo, caso aquilo que vocês sabem bem o que eu quero dizer, acontecesse, mas não aconteceu, ufa! 

Eu não ia me perdoar se aquilo que vocês sabem bem o que eu quero dizer acontecesse e ela não ficasse sabendo a verdade sobre quem eu realmente sou, nem pelo meu plano idiota de viver como um filho arrogante e desobediente, pra que ela tivesse vergonha de mim por ser assim, e não por quem eu sou. Várias, ou talvez todas as discussões tempestuosas que tivemos, por termos a mesma personalidade, passaram pela minha cabeça, e eu estava determinado a não deixar que aquilo acontecesse com ela, e já tinha preparado o que ia dizer, caso não houvesse solução. 

Meu pai andava de um lado para o outro, minha irmã chorava enquanto ajudava a carregá-la para o carro, e eu pensei: “O que ela faria? O que minha mãe faria nessa situação?”. Respirei fundo, ajudei com as roupas, a levá-la para o lado, meu pai foi também e eu fiquei em casa. Já tinha muita gente, e eu sei o que minha mãe diria: “Já tem muita gente indo, vou ficar em casa aguardando notícias. Me liga assim que chegarem lá.”

Fiz uma garrafa de café e não dormi mais, isso foi numa madrugada de domingo pra segunda. Minha irmã ligou quando chegou, ligou quando foi atendida e, às sete horas minha mãe chegou, andando, mandando a Honda (nossa cadela) calar a boca, ou seja, estava tudo bem outra vez. Virou pra mim e disse: “Glauco, você viu que eu quase bati com as dez?” (pra quem não sabe, bater com as dez é aquilo que vocês sabem bem), e eu olhei pra ela e disse “Eu vi sim”. Ou seja, estava tudo bem novamente. 

Fiquei pensando no perrengue que nós passamos naquela noite, que meu pai intitulou de “A Noite Mais Sombria”, que é o título de um livro que ele leu, e cheguei à seguinte conclusão: meu nome é Glauco, e eu sou um Damasceno, como minha mãe, que respira fundo, faz o que tem que fazer, e espera pelo melhor resultado, mesmo quando a vontade de gritar e espernear esteja quase saindo pela boca. Nada vai me derrubar. Pelo menos, não sem uma boa briga. 

P.S.: Ela acabou de entrar no quarto e dizer "Você é um bosta" e saiu rindo horrores, porque eu peguei o controle da televisão e trouxe pro quarto. É mole? HAHAHAHAHAHA!

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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