sábado, 5 de setembro de 2015

Londrina





Cheguei numa madrugada de fevereiro de 1997. Era cinco da manhã. As folhas das árvores dançavam lentamente ao sabor da brisa suave da escuridão. Carregava o peito cheio de esperança e medo, mas ao percorrer aquelas ruas limpas e largas rumo ao meu novo lar, senti que poderia ser feliz naquele lugar. Gostei da cidade e do ar de glamour que ela exalava. A primeira impressão foi de encantamento. Imaginei que os primeiros raios de sol me trariam agradáveis surpresas. 

Tinha saído de uma cidade nordestina no estado de Sergipe, um lugar sem muita beleza, tirando as praias, e nenhum glamour, o extremo oposto de Londrina, mas onde vivi os melhores dois anos da minha vida. Convivi com pessoas calorosas, hospitaleiras, alegres, fiz amigos muito especiais e passei por experiências que só se vive uma vez, como o primeiro beijo e o primeiro amor. Por isso, ao partir fui em prantos. Sem opção de escolha, só me restava torcer para que tudo desse certo e eu pudesse encontrar pessoas tão incríveis quanto aquelas que estava deixando pra trás. 

Londrina é a segunda maior cidade do estado do Paraná, fica na região Norte e possui mais de 500 mil habitantes. É uma cidade agropecuária, sendo bastante famosa pelo cultivo de café. Também tem uma das melhores universidades estaduais do Brasil, a UEL (Universidade Estadual de Londrina), atraindo assim estudantes de todo o país. Sendo assim, é uma cidade relativamente rica, que abriga muita gente esnobe. 

No início foi bem difícil a adaptação. Acostumado com gente e hábitos simples, de repente me deparei com pessoas que tinham muito mais do que eu em sentido material. Carro, casa própria, escolas particulares, viagens internacionais, lugares caros. E eu, que nunca havia me sentindo desvalorizado por ser pobre, comecei a me sentir discriminado e foi uma das piores sensações que já tive. O ambiente não era propício, havia um desencaixe entre eu e aquela nova sociedade que se desvelava diante de mim e isso me matava. Eu queria, precisava desesperadamente fazer parte de algo, me sentir inserido, como era em Aracaju. 

Como era em Aracaju nunca foi, mas aos poucos as coisas foram se encaixando. Comecei a ir muito ao cinema, principalmente no Shopping Catuaí. Apesar de amar cinema, nos dois anos que vivi em Aracaju não fui nenhuma vez; lá eles não tem muito o hábito, mas outras coisas compensavam essa falta. Em Londrina recuperei o prazer pelo cinema. Outra coisa gostosa que eu adorava fazer era caminhar no Parque Igapó, que ficava nos arredores da minha casa, localizada num bairro delicioso próximo ao centro. Pessoas de todas as partes da cidade frequentavam o Igapó para se exercitar, passear, namorar, ensaiar, etc... Lá tinha uma concha acústica onde o povo ensaiava peças, coreografias e, de vez em quando, até rolava uns shows. Me lembro de um do Chico César, que vi e ouvi de relance ao passar por lá numa noite. Tinha também a Feirinha da Lua todas as noites de quarta-feira. No meio da semana era de lei passar lá pra comer o melhor pastel da cidade. Próximo de casa tinha também o Moringão, um estádio, onde ocorriam diversos eventos, como formaturas, shows, competições, eventos religiosos. Uma vez fui num show do Cidade Negra com a Kássima, uma colega do colégio. O Super Muffato, o melhor mercado da cidade, na minha opinião, pertinho de casa, chamado carinhosamente de Muffatão. O Valentinno, um bar GLS, que da janela do meu quarto eu via os fundos e ficava imaginando como seria lá dentro. Alguns anos depois eu mataria minha curiosidade. 

Eu morava com meus pais num apartamento simples mas aconchegante, na rua Raposo Tavares. Estudava no melhor colégio público da cidade, a Escola Estadual Professor Vicente Rijo. Quando comecei, estava na sétima série e foi muito bom. As pessoas não entendiam como eu tinha conseguido vaga tão rápido, já que quem vivia lá há mais tempo não conseguia se matricular, a escola era exigente pra aceitar novos alunos. Nunca soube o motivo, só sei que me matriculei sem grandes dificuldades, penso que justamente por ser de fora eles me deram preferência. 

Minhas primeiras amigas foram a Kássima e a Ângela. Vivíamos grudados, dentro e fora da escola. Quando acabavam as aulas ficávamos de papo nas esquinas, às vezes íamos pra praça, pro shopping, tomávamos sorvete e ríamos. Ríamos de tudo, por qualquer bobagem, tudo era alegria, tudo era maravilhoso. Tínhamos 15, 16 anos, tínhamos obrigação de ser felizes. Todos gostavam de Kássima, ela era popular, expansiva, grandona e bonita. Quem não gostava dela tinha inveja, geralmente meninas que a encaravam como rival. Ao lado dela eu ficava mais feliz que pinto no lixo, o bulliyng que me perseguiu em todas as escolas diminuiu bastante, quem não falava comigo, pelo menos me deixava quieto. A pergunta que não queria calar era por que uma garota tão popular como ela havia me feito seu melhor amigo. Eu era o novo brinquedinho dela, o amigo gay que ela queria exibir pra todos, mostrando como era moderna e descolada. Demoraria algum tempo até descobrir sua verdadeira personalidade. 

Paralelamente aos colegas da escola, outras pessoas bacanas foram surgindo na minha vida. A Cláudia era vizinha, morava no mesmo prédio que eu. Divorciada, tinha dois filhos, Paula e Douglas. Era massagista e uma ótima contadora de piadas. Fazia o melhor arroz que eu já comi na vida. Sonhava em conhecer a Suécia, onde vive hoje. A Martinha também morava no prédio. Era magrinha, pequenininha, quieta, mas muito querida. Solteira, morava sozinha. Trabalhava na biblioteca do Colégio Anchieta. No mesmo prédio ainda morava a Leda, com o filho Luís Henrique. E aquela que se tornou minha maior amiga, confidente e companheira Luzia Gondim, com quem trocava figurinhas sobre filmes em papos intermináveis. Essas foram as primeiras pessoas com quem formei um círculo de amizade. Fazíamos churrascos maravilhosos, varávamos madrugada a dentro jogando um carteado, nos acabávamos em rodízios de pizza e era bom demais! 

Foram cinco anos em Londrina, cinco intensos anos. Morei em três casas diferentes. Primeiro foi no prédio da Raposo Tavares. Depois fomos pra uma casa na rua Canudos, ainda no mesmo bairro. E, por fim, mudamos para o Jardim San Remo, onde vivemos na rua Uberlândia até o último dia. 

Com o passar dos anos fui conhecendo outras pessoas e estreitando laços. Na escola fiquei muito amigo da Vívian e da Nadege, essa quase uma irmã pra mim. Vívian era tão espetaculosa, como eu gostava daquela menina, galinha e piranha na boca de muita gente, mas verdadeira e autêntica pra mim. Nadege era um sonho, doce, meiga, carinhosa, generosa. Minha irmãzinha do coração. Já estava na oitava série quando fiquei mais próximo das duas. Nesse período, Kássima já se mostrava interesseira, calculista, alguém não muito confiável e fui me desapegando aos poucos. Naquele ano, montamos uma peça e fomos entrevistados num programa de televisão local por causa dela. Foi um momento memorável! Nossa turma era a melhor, éramos unidos, tínhamos uma intimidade natural de pessoas que conviveram diariamente durante dois anos, mas quando o fundamental acabou uma nuvem negra pairou sob o meu coração. Estávamos separados no ensino médio. Pra mim, particularmente, foi péssimo, serviu pra que me afastasse definitivamente de Kássima e isso não foi tão ruim assim, porém, Vívian mudou de colégio e Nadege foi pra outra turma. Eu estava sozinho, cercado por um monte de gente estranha dentro da sala de aula e o bulliyng voltou com força total. 

A situação estava horrível na escola, me encontrava com Nadege em todos os intervalos, mas não era o suficiente pra deixar de me sentir péssimo, as aulas eram um tormento perto de toda aquela gente com quem não tinha nenhuma afinidade. 

Na vida fora da escola as coisas tinham que ficar um pouco melhores. Conheci gente nova, a Erica e sua irmã Eliane. A Fernanda, a Amanda e a mãe delas, Vânia. Foram pessoas essenciais pra tornar o tempo que passei em Londrina significativo, algo que realmente valeu a pena. Nesse mesmo ano eu e Erica fizemos um curso de cabeleireiro, que deixamos pela metade. Foi também o ano que comecei a frequentar as audições de piano dos irmãos Pâmela e Stellios, que moravam na mesma rua que eu, a Uberlândia, e vez ou outra me convidavam pra um café, onde era servido um patê maravilhoso de berinjela, receita da terra do pai deles, a Grécia. 

Em 2001, último ano na escola e também na cidade, fui questionado se gostaria de mudar de turma. Não pensei duas vezes, escolhi a turma onde Nadege estava e foi perfeito, nossa amizade se fortaleceu de tal maneira que eu tive certeza que ia levá-la pra vida inteira. E aquele ano foi sensacional. O aniversário da Nadege. Vívian me levando ao Valentinno. A festa surpresa nos meus 20 anos. Minha primeira balada GLS. E tantos momentos ínfimos que se tornaram grandiosos em minha lembrança afetiva. Risadas, encontros, dancinhas, a solidão de noite na janela do quarto, fofocas, picuinhas, ciúme, rejeição. O show da Cássia Eller, o primeiro emprego, estudar de noite. O carro arranhado, as músicas da Adriana Calcanhoto, O Terceiro Travesseiro, Fica Comigo Gay, Presença de Anita, o retorno daquele primo, as cartas trocadas, Disque Amizade, a tarde dos meus 17 anos esperando o ônibus na chuva. 

Assim foi Londrina em minha vida, uma imensidão de emoções, descobertas, amadurecimento. A transição de um adolescente pra um adulto. Enquanto estive lá, eu achei que não amava. Hoje posso afirmar, eu amei. Ah, como eu amei!

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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