terça-feira, 1 de setembro de 2015

Maxwell: Como Se Livrar de Um Escândalo




Alex e eu viramos a noite conversando. Expliquei pra ele qual era a ideia, ele achou absurda, mas concordou que poderia dar certo sim. Eu tinha certeza absoluta de que era o plano ideal. 

O dia passou arrastando, e eu morrendo de sono, mas começaríamos os preparativos naquela noite. Não podíamos perder tempo. Conversamos com uma amiga do Mauro, peguete/ficante/rolo/namorado do Alex, e ela estava disposta a nos ajudar. Nós íamos mudar totalmente a imagem do Alex. Facebook, Twitter, Instagram, Swarm (aquele que a gente usa pra dar check-in nos lugares), Google+, e se fosse preciso, até o LinkedIn nós iríamos usar. A ideia era simples: lotar os aplicativos com fotos do “casal”, Alex e Lorena, a amiga do Mauro. Restaurantes. Carrocinhas de cachorro-quente. Festas de família. Festas de amigos. Cinema. Picolé na padaria da esquina. Tudo. Claro que começaríamos aos poucos, em doses homeopáticas, como dizem, pra não levantar bandeira. Mas também não podíamos demorar muito, porque Mendez não me deixaria em paz, como não me deixou. 

Todo santo dia ele me perguntava como ia o andamento do “projeto”, e eu respondia que estava sendo resolvido. E estava. Ajudou também o fato de Alex ser um excelente ator. Precisavam ver. Andava de mãos dadas, abraçava, dava selinhos, uns beijos demorados quando necessário... Claro, não foi do dia pra noite, todo o processo levou cerca de uns três meses e meio. Eu ia alimentando Mendez com informações falsas, mostrando as fotos, gravações de áudio que eu fazia do Alex, e em todas elas ele se dizia hétero, e era tão convincente que em alguns momentos eu quase acreditei. Lorena era bonita, cabelos cacheados indo até os ombros, volumosos, castanho-escuro, a pele moreno-claro era bem cuidada, e tudo o que ela vestia combinava perfeitamente, assim como seu sorriso branco total radiante. Os dois exalavam simpatia, felicidade, companheirismo. Eram o casal falso perfeito. 

Teve uma vez num restaurante, eu estava sentado a uma mesa próxima da janela, observando o “casal” sorrir, tirar fotos e colocar mil hashtags, tipo #AmoMaisQueChocolate #PraSempre #Eu #Ela, quando fui ao banheiro e Mauro, o peguete/ficante/rolo/namorado do Alex entrou alguns minutos depois. Eu estava lavando as mãos, quando: 

- Eu quero te agradecer por isso. Por ajudar a gente. Obrigado. 
- Eu não fiz isso por você. Ou por ele. Eu fiz isso por mim. 

Quando eu ia saindo: 

- O Alex me contou sobre vocês... – Nem deixei que ele terminasse. Apenas olhei pra ele voltei pra minha mesa. 

Enquanto isso... Já que Alex não queria tomar providências com relação ao Mendez, eu queria. Nesse meio tempo, enquanto transformava a imagem dele perante a empresa, reuni diversas informações a respeito do meu “querido” chefinho, assim como gravação de reuniões para discutir a Operação Homofóbica e como eu deveria proceder, Mendez pedindo pra que eu desse em cima do Alex, essas coisas... Tudo pra que seus amigos o fotografassem. 

Mendez foi ficando impaciente, e eu também. 

- Chefe, e se isso foi uma fofoca? Quem te contou pode muito bem ter inventado pra roubar o lugar dele, não acha? 
- Eu confio em quem me disse. Cegamente. Você tem uma semana. Ou eu mando vocês dois embora. 

Mais uma gravação. O arquivo de Mendez só aumentava. Enquanto isso, Alex e Lorena iam fazendo um excelente trabalho. Todo mundo no setor comentava sobre como a namorada dele era linda, e ele dizia que ainda não eram namorados, mas que iria pedir logo. Bom garoto, sabia improvisar. 

Foi numa quarta-feira, quando tudo já estava firmado e ninguém mais acreditava que Alex fosse gay, que eu acionei meus amigos na Secretaria de Direitos Humanos. Mostrei tudo a eles, assim como relatórios que eu mesmo fiz, mais algumas fotos do Alex e outros registros que fiz sobre outros funcionários homossexuais que trabalhavam na empresa e escondiam a verdadeira identidade. Vários pauzinhos foram mexidos, favores pedidos, mas, na semana seguinte, Mendez foi exposto e acusado por me forçar e ameaçar, além de crime de homofobia, e diversas outras declarações e ações. 

Eu estava sozinho na sala quando Alex chegou. 

- Foi você, não foi? 
- Eu o que? 
- Foi você quem denunciou o Mendez, não foi? 
- Não faço ideia do que você está falando. Estou tão informado quanto você, cara... – E sorri. 

No mês seguinte eu saí da empresa. Pedi minhas contas, não poderia continuar ali, seria horrível ser funcionário de outro Mendez. 

Agora eu tenho um trabalho excelente, que não tem absolutamente nada a ver com Recursos Humanos, mas que exige muito de mim, e me faz fazer coisas extremamente importantes, como o que eu fiz contra aquele homem. 

E posso dizer? Nunca me senti tão feliz.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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