segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Mentiras




Eu já menti muito na minha vida. Quando você se dá conta que é diferente da grande maioria das pessoas à sua volta e não sabe como lidar com isso, mentir é quase que automático. Você mente que é igual aos demais; você mente para fazer parte; você mente para você mesmo e, algumas vezes, passa até mesmo a acreditar nessas mentiras.

Mas, com o tempo, vem a maturidade. E se tem algo legal em envelhecer e de tornar-se independente é a possibilidade de, se você quiser, deixar as mentiras pra lá. Você paga suas contas, você vive sua vida, você escolhe com quem quer se relacionar (e o tipo de relacionamento que quer ter) e não é obrigado a fazer papéis para agradar quem quer que seja. Você pode, veja só, parar de mentir.

Tenho tentado simplificar a minha vida há algum tempo e deixar as mentiras pra lá. Como isso nem sempre é fácil, algumas vezes uso da omissão para não ter que contar uma mentira que eu considere desnecessária. Mas, confesso, isso é um exercício diário e que envolve esforço. Mentir é mais fácil, sem sombra de dúvidas.

O que não consigo entender é a necessidade de algumas pessoas de mentirem compulsivamente. A mentira torna-se, para muitos, um instrumento cotidiano. Mentem sobre o motivo do atraso, mentem no trabalho, mentem em coisinhas bobas e pequenas. E, como uma coisa puxa a outra, contam grandes mentiras também, daquelas que demandam esforço para soarem críveis e que, por um pequeno deslize, podem ser desmascaradas.


Mentir esgota quem mente e quem ouve. Mentira cansa. Principalmente, porque quem ouve muita mentira, se não for um completo idiota, passa a sacar logo que estão querendo te passar pra trás. Algumas vezes, entretanto, o caminho é se fazer de trouxa, fingir que acredita e deixar o barco seguir a maré. Se o mentiroso quer viver num fingimento, por que não dar corda para se enforcar? Mas, outras vezes, confrontar é preciso; deixar bem claro que você sabe que estão mentindo, expôr ao ridículo quem se acha mais esperto que você.

Eu vejo mentiras por todos os lados. Na televisão, no emprego, na boca de amigos e de pessoas que me são muito queridas. E, apesar de tentar evitar, eu minto também. Minto até mesmo quando tento me convencer que sou melhor que os outros, que minto menos que eles. São mentiras diversas mas, todas elas, mentiras.

Cazuza cantou que mentiras sinceras o interessavam. E me pergunto o que seria uma mentira "sincera". Aquelas que usamos para não ~magoar~ o outro e que, tantas vezes, quando descobertas acabam piorando tudo? Ou uma mentirinha sutil, sem grandes consequências para quem a criou e quem a ouviu?

No fim das contas, relendo tudo que escrevi até aqui, chego à conclusão que, na verdade, House é que estava certo: everybody lies! Em maior ou menor grau, por nobres ou escusos motivos, as pessoas sempre mentem.

Ruim é quando essas mentirinhas cotidianas tomam conta da vida da pessoa, transformando todos os dias em 1º de abril, cobrindo a realidade com um véu de criações de sua cabeça, difícil de ser ultrapassado. É nessas horas que a máxima de Pedrinho e o Lobo passa a tornar-se real e, quando o mentiroso contar uma verdade, correr o sério risco de ser ignorado. Afinal, até quando alguém que mente repetidamente pode ter o nosso crédito?

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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