quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Não Identificado





Dia desses estava ouvindo Não Identificado, uma das minhas músicas prediletas do Caetano que, por coincidência, era a preferida do pai dele também. A letra é simples e a melodia é quase chiclete, mas há algo de incrível nela que eu não saberia explicar, e nem o tentaria, afinal gosto é gosto – apesar da constante patrulha que insiste em querer determinar o gosto alheio. Pensei na parte que diz “eu vou fazer uma canção de amor, para gravar num disco voador” e quis fazer o mesmo. Não sei se dedicaria a canção para alguém ou se apenas queria estar no espaço, longe desse mundo. 

Há uns dias eu decidi ir à praia com um amigo de bicicleta. O trajeto não era muito longo (Botafogo x Ipanema) e, contando que boa parte dele seria feito em uma ciclovia, tentei deixar de lado o medo de morrer esmagada por um ônibus ou esfolada no asfalto depois de ser fechada por um carro. Quando passei um tempo na Califórnia, fazia um trajeto de mais de uma hora de bike diariamente e era uma liberdade impossível de ser medida: fugia do trânsito, apreciava uma vista indescritível e me sentia segura por estar num trânsito que respeita os direitos do ciclista. Mas vivo no Brasil, portanto, não dava pra viver do sonho californiano eternamente. Decidi que iria até a praia de bicicleta e fui. Mas para que temer apenas ônibus gigantes ou motoristas apressados quando temos uma sociedade “branca e letrada” que é incapaz de respeitar que existem metros e metros de calçada onde podem andar, ao invés de caminharem ou pararem no meio das ciclovias para tirar selfies? Temos também o flanelinha – mais conhecido como dono da rua – que obviamente tem mais direito de ficar parado no meio da faixa exclusiva para bicicletas enquanto indica para algum motorista a existência de uma vaga na rua (pública) do que eu. Nessa hora, com uma freada brusca, não segurei um “porr*!”, que me foi gentilmente respondido por ele com um “porr* é o ca$%#@&!”. Segui meu caminho e cheguei à conclusão que é estressante demais ser sustentável, mas ainda penso em insistir nessa loucura que é tentar ajudar o mundo de alguma forma, ainda que seja correndo um risco iminente de vida. 

Acho que o ser humano faz um esforço danado para ser bom. Isso demanda muito mais energia do que ser mau. Naturalmente nos achamos melhores e mais honestos. Somos justos e fiéis (oi amigo, posso entrar na fila com você, na frente dessas 40 pessoas?). Nossos delitos são pequenos, nossas injustiças não matam ninguém. Antigamente, nossa geração só roubava bala Juquinha das Lojas Americanas, talvez porque não existia celular para se roubar, ou simplesmente porque não precisávamos roubar nada, mas fazíamos mesmo assim. Alguém pensa em se entregar para a polícia hoje? A gente nunca quer se colocar no lugar do outro porque isso de compaixão é coisa para Jesus Cristo. Conheço gente que deve alguns mil reais no banco, mas bradam que “bandido bom é bandido morto”, é claro. Os pobres microempresários que são arrombados pelo governo, mas nunca pagaram hora extra aos funcionários. Olho por olho, dente por dente. Os assédios morais diários sofridos por mulheres e a resposta padrão de que “isso é a cultura da empresa” ou “era só uma brincadeira”. A mesma brincadeira com que você justifica uma piada racista ou homofóbica. 

Queria mesmo fazer um iê-iê-iê romântico, achar que o mundo é lindo e que as pessoas pensam no próximo. Que em pleno ano de 2015, com a cura do HIV batendo em nossa porta, com a globalização da internet e com jovens mostrando algum interesse em política (dispenso os que estão chateados com a alta do dólar e em como isso influenciará suas compras em Miami), estejamos todos indignados que ainda tenham tantos jovens na rua, assaltando, matando e diminuindo as chances de serem alguém. E de serem vistos como alguém. Indignados que não exista um Estado que assegure os direitos primários para qualquer cidadão. Queria ouvir todo mundo gritando Direitos Humanos para Humanos!, todos eles e pronto. Queria essa canção singela, brasileira, para lançar depois do carnaval – sem rios de dinheiro da prefeitura sendo usados nos cartéis das escolas de samba. Uma canção que dissesse tudo, brilhando na noite, no céu de uma cidade urbana menos poluída, menos egoísta e menos insalubre. 

Tenho certeza que Caetano não escreveu essa música para falar sobre sua desilusão com o mundo, e nem porque tentou ir à praia de bicicleta num sábado de sol. Talvez eu não queira dedicar uma canção de amor a ninguém porque ando muito desacreditada no poder do amor. Só ele salva, eles dizem. Conquista tudo, eles dizem. Mas no fim, ainda sinto que somos muito poucos e estamos – como diria Caê – sozinhos, apaixonados. Como um objeto não identificado.


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Leandro Faria  
Patricia Janiques, 30 anos, produtora cultural, escritora, roteirista e publicitária somente nas horas vagas. Tem medo de cachorros e egoísmo, não curte chocolate mas é adicta a goiabada e acha que arte e meditação podem mudar o mundo.
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