quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Sobre Astros e Humanos





Em um intervalo de uma semana, eu, um notório admirador da astronomia, pude ter três notícias daquelas consideradas mágicas:

  • a divulgação da primeira foto em alta definição em cores de Plutão; 
  • o eclipse total da Lua em seu ponto mais próximo da Terra; 
  • e o anúncio de que, sim, há água em estado líquido em Marte.

Sou um admirador daqueles que, de imaginar esses fenômenos ou feitos, sinto aquele frio na barriga digno de “Eureka!” aliado a um medinho de que estamos indo longe demais, às vezes.

E o que mais me impressiona é a humanidade ter chegado ao mais longínquo planeta de nosso Sistema; ter pousado uma sonda no vizinho vermelho e o analisado tão a fundo a ponto de descobrir sais hidratados em sua superfície – e estar pensando em como fazer para enviar uma expedição até lá nos próximos anos; e já ter pisado na Lua há mais de 40 anos. Porém, até hoje, não termos conseguido entender o significado de coisas tão simples, como respeito ao próximo, fraternidade e igualdade de direitos.

Na mesma semana dessas descobertas medidas em milhares, milhões e bilhões de quilômetros, tomamos ciência de que o nosso Congresso considerou que família é apenas um núcleo formado por um homem e uma mulher e seus (possíveis) descendentes. Que um deputado evangélico neopentecostal, que já presidiu de forma vergonhosa a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, declarou que os direitos da mulher são um retrocesso para a família brasileira. E que ainda está sendo feito um boicote religioso à principal emissora de TV do Brasil em seu horário nobre porque, recentemente, a mesma divulgou cenas contendo beijos entre pessoas do mesmo sexo e compete diretamente com uma trama bíblica no canal do bispo.

Para mim, é tão difícil compreender isso... Ao mesmo tempo em que fico ávido por ler notícias dessas novidades dos astros, sistemas e galáxias, não entendo como ainda não conseguimos erradicar a fome do mundo. A quem esse ciclo de dependência famélica interessa? Como conseguimos descobrir que Plutão tem uma enorme mancha no formato de coração em sua superfície, mas ainda não sensibilizamos os nossos para buscarmos ter um mundo mais justo e sustentável?

Assim como avaliamos as condições para sobreviver em Marte, obtendo oxigênio, água e alimentação adequadas daqui a algumas décadas, como ainda não conseguimos encontrar a cura da AIDS? Ou mesmo da dengue? Ou ainda permitimos que as grandes indústrias coloquem diversos venenos em nossa alimentação, como agrotóxicos, corantes e outras substâncias químicas, elevando o risco de câncer e colocando a doença como a principal causa da morte em países desenvolvidos e até mesmo no Brasil (o que será realidade nos próximos dez anos)?

Como pisamos na Lua ouvindo que seria um “pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade” décadas atrás e até hoje ainda vemos mulheres subjugadas, desprestigiadas e humilhadas? Mutiladas em suas genitálias para não sentir prazer? Espancadas ou assassinadas por seus companheiros por esses simplesmente acharem que elas são suas posses?

Como podemos avaliar a existência de exoplanetas possivelmente habitáveis através da posição de suas estrelas a incontáveis anos-luz da Terra se ainda permitimos que fanáticos religiosos islâmicos tomem cidades e quase países inteiros; provoquem um êxodo sem precedentes para diversos outros países; e ainda consigam recrutar mais fiéis para a sua causa ao redor do mundo ocidental na base de assassinatos brutais de inocentes e transformando até crianças em assassinas?

Admito que, para mim, encontrar essas respostas não só é muito difícil como, às vezes, me faz concordar com a máxima da minha querida chefa de que a humanidade foi um projeto que deu errado. Assim como os dinossauros mereceram um reset divino na forma de meteoro, creio que estamos indo pelo mesmo caminho.

Falando sobre astrologia e humanidade, prefiro, por ora, me inspirar na música de Caetano, que relembra a célebre cena de Christopher Reeve em que, na pele do super-herói mais famoso do mundo, trocava a rotação da Terra movido pelo amor que sentia por sua Lois Lane:


“Quem sabe
O super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher...”

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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