quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Valeu, Gabriel




Essa noite eu tive um sonho estranho. Sonhei que procurava um amigo meu chamado Gabriel Duarte, que estaria morando num novo prédio construído aqui no Rio de Janeiro. Ia visitá-lo e procurava por ele entre centenas de pessoas que circulavam na edificação. Nenhuma delas era o Gabriel.

Gabriel existe. Mas faleceu em 2001, vítima de um acidente de carro. Gabriel foi o meu primeiro melhor amigo de infância, na época da alfabetização. Estudávamos juntos em Niterói, éramos vizinhos de prédio – ele morava no 15º e eu no 16º andar. Era uma amizade extremamente pueril, focada em videogame e olhar Playboys escondido (sim, eu tive essa fase da minha vida). Nossas mães, ambas Elizabeth, também eram amigas. A avó dele me chamava de neto. Um dia, a família dele se mudou para Itaipu, área afastada de Niterói. Anos depois, a minha também se mudou para o mesmo bairro. Ficamos mais próximos fisicamente novamente, mas a amizade das famílias não era mais a mesma. E isso naturalmente nos afastou.

Muito tempo se passou e Gabriel se matriculou no mesmo colégio onde eu estudava, já no Ensino Médio (na minha época, era Segundo Grau ainda). Eu demorei para reconhecê-lo e acho que isso o magoou. Nunca mais fomos amigos. Ele se juntou com outros colegas da escola e, com eles, meses depois, sofreu o acidente. Dois ficaram feridos, mas se salvaram; Gabriel, não.

A morte do Gabriel foi um dos maiores choques da minha vida. Aos 17 anos, me deparei com a partida de uma pessoa que era da minha idade, que tinha os mesmos sonhos e anseios que eu tinha, que compartilhou comigo momentos únicos da minha infância e um convívio familiar que poucos tiveram. Deparar-me com o seu jovem corpo inerte dentro de um caixão parece que levou um pouco de mim naquele dia. Foi a primeira vez que, de fato e consciente dos meus atos, confrontei a morte. Ao abraçar a sua mãe no enterro, eu chorava mais do que ela, que buscava consolar a todos com sua sábia espiritualidade. Mas semanas depois, ao cair da ficha, “tia Beth” estava em frangalhos. Lembro-me do clima fúnebre na escola, com tocar de sinos nos intervalos das aulas, no lugar do tradicional sinal. Passei uns dois dias na cama, sem estímulo para fazer mais nada da vida. Parecia que nada mais fazia sentido, pois num golpe de azar tudo poderia se perder.

Gabriel não volta mais. Assim como a infância que vivemos juntos. Mas o que me fez levantar da cama dias após sua morte foi ver que esperar o momento fatal chegar não faria sentido algum. Busquei viver a vida de forma mais equilibrada e, ao mesmo tempo, intensa, valorizar família e amizades, e o amor que encontramos para essa caminhada.

Gabriel não volta mais. Mas me ensinou muitas coisas com a sua partida. Sonhar com essa busca por ele esta noite foi sonhar um pouco com a busca por mim mesmo. Não consegui encontrá-lo no sonho. Porém, vivo encontrando as lições que aprendi no meu dia-a-dia.

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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