quinta-feira, 3 de setembro de 2015

“Você é Pra Casar”





Lembro exatamente quando ouvi essa frase pela primeira vez. O que não lembro muito claramente foi como o papo começou e foi parar exatamente naquele assunto. Mas foi essa frase que me fez gelar por inteiro, por uns dois milissegundos no máximo, mas que senti como se tivesse levado toda uma eternidade.

Imagine você. Estava indo rumo à Recife (foi nessa mesma viagem que conheci o Serginho, colunista das sextas-feiras aqui do Barba, e fui brindado com todo seu sorriso, bom humor, que diga-se de passagem é sua marca registrada, e, claro, toda sua receptividade) e, sentado ao meu lado naquele mesmo vôo, o dono da frase que havia me paralisado, Leandro Faria. Sim, o dono deste espaço e dos textos de toda segunda-feira. E não, antes que você pense alguma besteira, ele não estava dizendo essa frase pra mim por termos algum tipo de envolvimento romântico, sexual ou algo do tipo. Na verdade, a conversa toda girava ao redor de um amigo do Leco que eu ficava na época. Melhor dizendo, que fiquei umas duas ou três vezes. Mas o que importa foi o efeito que “você é pra casar” provocou em mim. 

Sei que o que foi dito era para ser um elogio, mas naquele momento, naquele segundo, foi uma das maiores ofensas que ouvi na vida. Sim, sério. Tudo o que queria era ser pegável, não pra casar. Casar? Quem tava pensando em casamento naquele momento? Tá. vamos voltar mais um pouco no tempo para explicar algumas coisinhas pra vocês. Todo esse episódio aconteceu em 2010. Naquela época eu tinha 23 anos e tinha acabado de passar por uma das maiores transformações da minha vida, depois de ter perdido mais de 25 quilos (que já encontrei de novo ao longo dos anos). Só que mesmo assim, fisicamente diferente, ao me olhar no espelho via mais defeitos do que qualidades. Mais gordura que magreza e mais imperfeições acima de qualquer outra coisa.

Não quero soar como um EMO (esse termo ainda existe?) ou qualquer outro adjetivo que usam nos dias de hoje para designar pessoas sentimentais ao extremo e tristes. Mas o fato é que eu gostava de ficar com esse menino em questão e ele usou como desculpa para não querer continuar com essas ficadas, algo positivo. Ser pra casar é positivo, não é? Eu era pra casar e não ficar se pegando por aí. Só que esse ~não é pra ficar pegando por aí~ era exatamente o que queria naquele momento da minha vida.  

Aproveito para admitir também que o título inicial desse texto era: “Você é pra casar e não pra ficar pegando por aí”, mas por algum orgulho bobo que ainda restou em mim, preferi não acrescentar. Não estou escrevendo isso para que sintam pena de mim, a ideia é completamente oposta. Então é hora de continuar essa jornada.

Ainda no avião e naquele espaço de tempo entre ouvir o que é dito, raciocinar e falar alguma coisa que rebatesse aquela firmação, acho que ainda consigo explicar (mesmo tendo passado cinco anos) exatamente como meu cérebro e corpo reagiram. Eu olhei para o lado oposto de onde Leandro estava sentado, refleti brevemente e bufei. Isso, eu bufei! Tudo o que não queria ouvir naquele momento é que eu era pra casar. Tá. Assumo que lá no fundo até queria, mas o contexto teria que ser totalmente diferente.  Só que naquela etapa da minha vida, meu objetivo número um era procurar ser desejado e que aquelas ficadas esporádicas continuassem. Só isso. Não digo que era continuar para evoluir em algo mais sério. Era continuar. Continuar se pegando e ponto. Mas, SPOILER: Não continuou!

Refletindo sobre isso agora, acho que esse "pra casar" foi quase como um pé na bunda alternativo, já que não tínhamos nada de concreto. E talvez, lá no fundo, eu sabia disso.

O fato é que a viagem pra Recife foi magnífica (alguma coisa tinha que ser, não é mesmo?) e Leandro e eu vivemos várias aventuras por aquelas terras. Mais ele do que eu, não vou mentir. Mas a frase dita naquele vôo que saiu do aeroporto Santos Dumont, ficou martelando em meus ouvidos. E se você acha que passou com o tempo, está muito enganado, ela continuou em meus pensamentos. Até a madrugada de hoje, quarta-feira, 02/09/2015 – 01:50 da manhã.  Exato momento em que escrevo esse texto e tento exorcizar o que quer que seja que tenha permanecido daquele dia dentro de mim.

Após o retorno ao Rio de Janeiro, conheci outros caras, algo muito natural, afinal, como disse lá em cima, estava no clima de curtir o momento e só isso. Mas ouvi outro dia outra coisa, que não foi direcionada pra mim, mas que fez tudo isso voltar. Um amigo me falou: “Estou querendo casar”. Então passei a pensar sobre casamento. Recentemente fui a um de uma amiga. Minha primeira celebração entre a união de duas mulheres. Ou, como quero muito dizer para a Família Tradicional Brasileira: O CASAMENTO ENTRE DUAS MULHERES. E foi lindo. Me segurei muito para não chorar. Senti um orgulho no peito por testemunhar aquilo ali e também uma baita gratidão por ter sido convidado para estar ali, fazer parte daquele momento tão especial e que desejo que seja tão eterna e épica como elas merecem.

E ali no meio da festa, durante uma música da Anitta e outra da Ludmilla, aquele papo no avião voltou. E pela primeira vez comecei a me questionar se sou mesmo para casar. Porque eu sei muito bem quem eu sou como Silvestre. Como um cara sozinho, em unidade. Não sei nem como sou como namorado. Sei como gostaria de ser, minha visão utópica de mim mesmo. Só que sabemos que na prática as coisas são diferentes. Somos diferentes quando estamos com outra pessoa.

Meu último “relacionamento”, por exemplo – uso aspas porque não foi namoro. Não oficializamos nada. Mas fomos ficando e a coisa foi rolando. – tava tudo bacana, tudo legal, mas ele queria ir ficando e eu, pela primeira vez me vi fazendo planos… Ou querendo fazer planos. Tudo bem que a nossa história tinha um passado e esqueletos no armário que não estou disposto a mexer hoje nesse texto. Mas posso dizer que ele estava me conhecendo pela primeira vez e eu estava tendo a minha chance de conhecê-lo. Tá, sobre essa história é só necessário você saber que já tínhamos ficado uns anos atrás (muitos anos atrás) e, do nada, acabou, e mais uma vez não por vontade minha (começo a pensar que deveria ter feito a Taylor Swift e ido compor músicas com os pés na bunda que coleciono). Mas tudo acabou e eu fiquei com a minha idealização. Toda vez que gostava de alguém que não retribuía de volta, pensava nesse carinha. Pensava se as coisas teriam sido diferentes lá atrás se tivesse acontecido algo. Acho até que pensei nele naquela conversa de avião rumo ao Recife. Só que ele voltou, depois de muito tempo, e as coisas foram caminhando. Só que o Silvestre que eu era na época em que nos envolvemos evoluiu. Não quero dizer que não existe mais, afinal, eu continuo aqui e lembro bem como me comportava, os sonhos que alimentava e o tipo de fantasias que possuía. Só que o tempo fez toda diferença entre a expectativa e realidade.

Eu me vi ali, ficando com o cara que queria ter ficando e era isso o que tinha no momento. Eu sabia que ele gostava de mim, mas nada além disso. Gostava e ponto. E eu, naquele momento, precisava de mais. Não, não queria casar, mas eu queria poder fazer planos e não me preocupar com as notificações do aplicativo de pegação que continuavam a apitar no celular dele. Como disse, não quero mexer muito nesse assunto por aqui hoje. Só queria ressaltar que apesar do meu desejo de me conhecer com outra pessoa, o pouco que vislumbrei disso, não gostei. Até hoje me culpo por não ter levantado da mesa do bar onde estávamos após ouvir que ele não iria sair do aplicativo de pegação e muito menos iria deletá-lo do celular. E antes que você pense que estava fazendo papel de louco e exigindo coisas, semanas antes ele fez o mesmo comigo e o trouxa aqui acabou por deletar o perfil  e tirar a existência dos aplicativos no meu celular. 

Sim, eu sei, mereço um momento de silêncio. Mas depois de descobrir que a interação dele continuava... bombante por aí, preferi reunir toda minha coragem e questionar sobre o tal aplicativo. O que nos leva até a mesa de bar, a negativa dele e meu impulso inicial de levantar e seguir o caminho da minha casa. Mas eu ali fiquei. De cara amarrada, pensando no otário que estava sendo, mas continuei. Eu gostava dele, mas queria gostar mais de mim também. Ficamos mais um tempo depois desse fato, mas eventualmente paramos de ficar. Nada foi dito, apenas paramos.

Estou sozinho desde então e tenho usado esse tempo para questionar quem eu sou. Passei a me olhar sem tanto medo. Já tinha feito o que mais temia na vida: papel de trouxa. Depois disso, passei a analisar meus sentimentos sem vergonha de possuir nenhum deles. Assumo o que me dá tesão, tenho medo do que não consigo compreender e, acima de tudo, percebo o quanto me deixei esconder por todos esses anos. Poderia ter ido morar em São Paulo, mas fiquei aqui onde era mais confortável pra mim. Onde todos me conheciam e onde conhecia todo mundo. Acho que no fundo não fui por medo de descobrir quem eu era longe disso tudo, de toda minha segurança e de tudo o que conheço ao meu redor.

Até hoje não consigo compreender o que é ser alguém pra casar. E não tenho como saber se sou essa pessoa ainda. Alguém que irá de fato se casar um dia. Mas, no momento, me permito não saber.

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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