segunda-feira, 21 de setembro de 2015

We Will Rock You





Eu tinha 04 anos em 1985, por ocasião do primeiro Rock in Rio. E como cresci no interior do estado, minhas memórias sobre o festival (mesmo em suas demais edições, até o retorno definitivo em 2011) eram aquelas de domínio público, da transmissão de televisão e dos shows memoráveis. 

O Queen, apesar do grande grupo que é, eu só fui conhecer bem mais tarde. Não sou um mega fã de rock e muito menos um antenado sobre o assunto. Conheço o básico (do básico) e acabo bebendo da fonte do que chega ao grande público, os principais sucessos e, sinceramente, não me importo muito com isso. Para terem uma ideia, eu conhecia várias músicas do Queen; mas não fazia ideia de que eram músicas do Queen. 

Sei também que Freddy Mercury é um ícone, por sua atuação como vocalista da banda e, claro, pela sua fama de gay. Apesar de ser descrito como bissexual não assumido, Freddy nunca assumiu nada e, quando perguntado diretamente sobre sua sexualidade, em uma entrevista em 1974, se limitou a dizer que "houve uma época em que era jovem e desprotegido" e que teve sua "cota de humilhações escolares". Entretanto, pergunto: existe alguém mais gay do que Freddy Mercury? Além disso, é óbvio, cansei de ver o momento épico do show clássico do grupo no Rock in Rio de 1985, ao som de Love of My Life. Não importa se você é um fã do Queen, de Freddy, do Rock ou do festival, é um momento de arrepiar. 

Já Adam Lambert eu conheço tem um tempinho. O moço chegou ao estrelato depois de sua participação no American Idol e, desde então, não saiu mais da mídia e das paradas de sucesso. Lindo, gay, militante e com um carisma absurdo, o jovem tem vocais potentes, uma presença de palco incrível e, acima de tudo, carisma. Tanto que já deu o ar de sua graça inclusive na televisão, atuando na última temporada de Glee (e fazendo bonito lá). 

Dessa forma, quando saiu a confirmação dos shows desse Rock in Rio em andamento, nem me animei para o show Queen + Adam Lambert, vendido como uma ode aos 30 anos do festival. Depois do perrengue passado em 2013 na Cidade do Rock eu tomei uma decisão muito sábia em minha vida: pra quê pagar para sofrer, se eu posso me entreter no conforto do meu lar assistindo pelo Multishow (e esse nem é um post patrocinado)? Não digo que nunca mais colocarei os meus pés no Rock in Rio (e estou sinceramente esperançoso de dar pinta por lá no dia 27), mas eu pagar para isso: no way! 

Foi assim, no conforto do lar dos meus pais, onde passei o fim de semana, que acompanhei os shows do dia de estreia do festival em sua edição 2015. E, apesar de ter curtido o show de abertura recheado de artistas nacionais e achado bem boa a apresentação do One Republic, já é de conhecimento geral que o destaque da noite foi o show de encerramento do dia, com a dobradinha Queen e Adam Lambert juntos, com o segundo assumindo os vocais que foram eternizados por Freddy Mercury. 

Quanto ao show não há o que dizer. Durante toda a apresentação eu só tinha um sentimento (que eu já havia experimentado em 2011, quando, cansado por ter estado na Cidade do Rock no dia anterior, eu assistia pela televisão o show do Coldplay): eu queria estar lá, cantando e gritando a plenos pulmões, vivendo aquele momento. Adam Lambert não quis imitar Freddy Mercury e se saiu maravilhosamente no seu papel à frente da banda. Respeitoso, carismático e com uma energia sem igual, conquistou o público e fez, juntamente com Brian May e Roger Taylor, a essência do Queen, mais um show histórico no Rock in Rio, que será lembrado para sempre. Love of My Life mais uma vez foi entoada (e, vejam só, nesse momento Adam nem estava no palco), arrepiando e emocionando todos que tiveram a oportunidade de ver a apresentação. Foi lindo! 

Mas eis que, no dia seguinte, vem a repercussão e, tirando os fãs xiitas que nunca aceitariam outra pessoa no lugar de Freddy Mercury (ZZZZzzzzzz e, como bem pontuou um amigo no Facebook: eles devem ser bem melhores e especializados que Brian May e Roger Taylor, pra discordar de uma escolha dos músicos da banda), o que se fala não é sobre o desempenho de Adam Lambert à frente do Queen e sim, viva com um barulho desses, que o cantor é muito viado e dava muito pinta. Como assim, mundo?


Eu, que comecei esse texto dizendo que não sou um grande conhecedor de rock e que passo longe de ser um verdadeiro fã do Queen, sei que Freddy Mercury era TUDO, menos um exemplo de heteronormatividade, mesmo nunca tendo se assumido publicamente. O cara dava pinta, desfilava, era bichérrimo e maravilhoso sendo assim. E, convenhamos, qual o problema? O problema é seu se não gostava do Freddy Mercury, meus caros, porque ele, viado, bicha, bichérrimo ou não, viveu a sua vida em plenitude e marcou o seu nome na história. E você, o que tem feito além de ser… você, essa criaturinha desprezível e que apenas toma conta da vida e do sucesso alheio? 

Daí agora, em 2015, tem gente criticando a pinta do Adam Lambert. Para vocês, que não são leitores assíduos do Barba Feita (que é um site com seis colunistas gays, mas não espalhem, viu!), eu vou contar uma coisa: o Adam é gay, muito gay, gay pra-caralho-à-beça! E, junto com isso, Adam Lambert TAMBÉM é maravilhoso. Se você, além de preconceituoso for também enrustido, deve ter percebido: ele é lindão (e fica tranquilo, a gente não vai espalhar que você concorda com essa informação)! 

O melhor de tudo? O Adam Lambert faz o cavalo na marcha de sete de setembro e caga e anda para o que você acha dele. Ele dá pinta, ele é afeminado, ele faz performance, ele, vejam que abusado, usa uma coroa de brilhantes, como uma verdadeira queen bee, em cima de um palco, cantando sucessos enquanto milhares de pessoas, que gostam dele ou não, pagam para assistí-lo fazer isso. E continua vivendo sua vida, ganhando seu dinheiro, defendendo o seu direito de ser único, de ser gay, de ser bicha, de ser… diva! 

E enquanto você está aí reclamando que ele é gay demais ou fazendo comentários preconceituosos no Facebook ou com pessoas à sua volta, tem centenas de milhares de adolescentes assistindo a isso tudo e pensando: “olha, ele é como eu e veja onde ele chegou”. Tem uma porção de gays no armário admirando o Adam e invejando a sua coragem que, mesmo que não saibam, transborda para eles também, lhes dando esperança. 

O Rock in Rio é uma festa midiática, tudo mundo sabe disso. É capitalista, visa o lucro e blá blá blá, mas faz o seu papel “por um mundo melhor” quando abre esse tipo de discussão e apresenta shows maravilhosos e que reverberam mesmo depois de marcarem época, como foi o caso desse inesquecível Queen + Adam Lambert. 

Fica assim o recado dado aos homofóbicos de plantão. Sorry, guys, but We Will Rock You because We Are The Champions


E, fica a constatação: é lindo ser gay. E, finalmente, ter consciência de que é lindo ser assim e de que não há nada de errado com isso. 

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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