domingo, 4 de outubro de 2015

A Porta Emperrou





Acredito que umas das maiores jornadas de nossas vidas é rumo ao autoconhecimento. Procuramos incessantemente nos conhecer, descobrir porque estamos aqui, porque nascemos em determinada família, porque somos assim e não assado. Fazemos diversas perguntas ao universo e, muitas vezes (só pra não falar sempre), não obtemos respostas. 

E, pelo menos o ponto principal que quero destacar nesse texto, é sobre a nossa sexualidade. Como uma questão de natureza individual pode se tornar tão difícil? Como a sociedade que vivemos pode impor tantas regras de convivência, levando muitas vezes à opressão de nossos seres, dos nossos eus

Sou um jovem que teve diversos problemas para resolver minhas questões sexuais. Sou o filho mais velho de uma mãe solteira e evangélica, sendo desde pequeno educado e instruído em uma mentalidade cristã, onde a Bíblia era a certeza absoluta e nada mais e nada menos era aceitado. Com isso, não tive um ambiente aberto às diferenças, o que fez com que o processo de autoaceitação tenha sido árduo e doloroso para mim. 

Aos 13 anos comecei a me interessar por pessoas do mesmo sexo, mas não achava que em momento algum da minha vida realmente chegaria a me encontrar, ou até mesmo a namorar com eles. "Aprendi” que isso era errado, abominável e repugnante. Desse modo, criei a minha primeira barreira: eu mesmo. E essa é, no meu ponto de vista, a pior de todas, já que toda vez que me via observando, sonhando, pensando em outros homens, eu me martirizava, dizendo a mim mesmo que eu era repugnante, nojento, inferior, entre tantos outros adjetivos depreciativos. 

Até que em determinado momento minha mãe acabou descobrindo o que se passava comigo e, digamos que não foi do melhor jeito possível. Ok, ela não me flagrou com outro cara, mas acabou pegando alguns históricos um tanto quanto comprometedores. A partir de então, começou praticamente uma guerra em minha casa, já que ela, obviamente, não aceitou a minha sexualidade e começou a fechar o cerco sobre mim. Sempre tive um respeito muito grande por ela e, assim, não escondia nada, nem mesmo minhas senhas de Facebook, celular e e-mails, o que ela policiava rigorosamente. 

Aos 17 anos passei na faculdade, mudei de cidade e, coincidentemente, minha mãe conseguiu um emprego no mesmo lugar. Fomos para São Paulo, onde uma nova fase de minha vida teve início. São Paulo é uma grande metrópole, você é simplesmente mais um na multidão e, com isso, as pessoas são quem realmente são, não se importando para o outro (pelo menos nem tanto) quem você efetivamente é. Foi assim que comecei a ter contato com homossexuais e casais formados por pessoas do mesmo sexo em meu cotidiano, o que foi me mostrando que talvez isso não fosse tão errado assim, que talvez eu também poderia ser como eles. Por curiosidade, entrei em um site de relacionamentos e, tudo sendo muito novo pra mim, em pouco tempo estava conversando com homens de verdade, saindo da minha imaginação e começando a conhecer o mundo real. 

Mas, não demorou muito tempo até que minha mãe descobriu meu perfil e foi horrível (e não porque eu não saiba esconder, mas sim porque minha mãe é quase uma hacker, acreditem em mim). Tivemos uma discussão homérica, com direto a tapas e pontapés, muitas lágrimas, gritos e fiquei sem celular e sem sair de casa por dias. Além disso, fui “orientado” a voltar para a igreja e voltei a frequentar os cultos, a me reprimir e, tudo isso junto com um aumento da fiscalização. Se antes já era difícil a minha vida, nesse momento tudo piorou. Minha mãe começou a ler com mais frequência minhas mensagens, passou a me buscar na faculdade, e fazia tudo isso para garantir que eu não estava “fazendo coisa errada”. 

Mas, é claro que isso não durou muito tempo. Voltei a conversar com homens e, em questão de meses, já havia saído da igreja e voltado à rotina de pegação, sempre fazendo tudo muito escondido. Até que entrei em uma rotina cíclica: eu saia da igreja, voltava a conhecer outros caras, minha mãe descobria, brigávamos novamente, voltava pra igreja, saia da igreja. E esse ciclo se repetia a cada 6 meses. 

Até que um dia eu me aceitei e, a partir daí, as coisas mudaram. Pode parecer super clichê, mas a autoaceitação é para mim o ponto principal nessa questão. Por mais que a sociedade possa denegrir ou chacotear quando você está bem consigo mesmo, o resto não importa. Eu cansei de ouvir pregações (absurdas) de como se curar do homossexualismo, de que eu deveria orar mais, jejuar mais, ler mais a Bíblia, tudo o que eles achavam que me faria mudar. Mas, para a “surpresa” de todos, eu não mudei, ou melhor, mudei sim, deixando de ouvir pessoas que não entendem nada do assunto e acham que tem o direito de julgar o que é certo ou errado, deixando de acreditar que isso era uma doença ou uma sina à qual fui amaldiçoado, deixando de me martirizar por julgamento de pessoas hipócritas. 

Hoje sou uma pessoa feliz comigo mesmo. Ser homossexual é apenas mais uma de minhas características. É claro que meus pais ainda não aceitam bem a situação, mas isso é questão de tempo. Eles me amam e se preocupam comigo, mas eu já não deixo que usem isso para me atacar ou menosprezar, porque para mim ser gay não é um problema 

Apesar de curto, esse é um relato bem por alto da minha história. Claro que não foi tão simples como pode aparentar, já que tudo isso se desenrolou por anos de choro, brigas, silêncios, mas não me arrependo nem um pouco. Eu lutei por mim, eu corri atrás da minha felicidade (e ainda corro) e não deixei que me oprimissem por ser quem eu sou. 

Assim, essa é uma mensagem que gostaria de deixar a todos aqueles que se sentem pressionados, que se martirizam, que não se entendem a respeito de suas sexualidades: não importa o que os outros pensam, não deixe que a sociedade em que vive dite as regras do  que você deve ou não fazer entre quatro paredes! Tenha força para lutar por sua felicidade! Claro que você não precisa sair postando no Facebook, mas veja o melhor jeito que você acha que possa ser feliz. 

E, pode ter certeza: nenhuma pessoa que saiu do armário se arrepende e gostaria de voltar pra lá. É difícil de enfrentar o novo e o desconhecido, mas quem não sai da caverna, vive de sombras, enquanto quem põe a cara no sol vê tudo em belas cores.

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Leandro Faria  
GuY V., 21 anos, estudante, professor, ator e circense somente nas horas vagas. Sonhador nato, tem problemas com a palavra "não", além de ser um amante de uma boa Pepsi Twist gelada e crente no lado bom das pessoas.
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