quarta-feira, 28 de outubro de 2015

#BarbaUmAno: O Dia em Que o Glauco Exorcizou o Medo




Medo. Quem nunca passou por uma situação de temor em sua vida? O Glauco Damasceno, de forma corajosa, nos expôs em 18 de novembro de 2014, boa parte desse sentimento que levou tanto de sua infância e juventude.

Foi um dos primeiros textos que li após ter chegado ao Barba Feita. Lembro do relato realista do nosso colunista das terças-feiras sobre como viveu anos de medo, na incessante busca para lutar contra suas verdades e ser aceito no grupo que ele julgava ser o mais correto. Vindo de uma cidade do interior, tudo isso é elevado ao cubo.

Glauco, amigo querido, fez muito bem em exorcizar nesse simples texto boa parte dos seus fantasmas do passado. Vamos conferir novamente?
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Medo

Eu fiz parte de uma organização evangélica por... uau, quinze anos! Com nove anos eu fui chamado pra fazer parte da equipe de músicos e, nossa, achei aquilo o máximo. Estar junto com os mais velhos, poder aprender com eles, poder, quem sabe, me tornar amigo deles. Só que havia apenas um problema: isso jamais aconteceria. Eles me odiaram do começo ao fim. "Um garoto de nove anos que sabia de longe qual a nota que estava sendo tocada? Não, não pode ser!". Eu desisti? Que nada! Minha mãe dizia: "Queria tanto que você saísse disso..." e eu lá, firme e forte, pensando: "Uma hora eles vão me aceitar, aí seremos amigos, vou poder fazer parte da equipe!". Como eu era inocente...

Com treze anos eu tive um estalo: entendi que gostava de garotos! Mas e aí, o que eu ia fazer? Não tinha um melhor amigo; na época, os garotos da minha idade estavam preocupados em comprar vídeo-games, esconder revista de mulher pelada embaixo da cama, brincar de pique-qualquer coisa, dormir uns nas casas dos outros, enquanto eu, bem, eu passava horas e horas me dedicando ao trabalho de tentar fazer parte do grupo, de me encaixar. Eu queria me encaixar, como eu queria!

As coisas foram piorando. Eu tinha muito mais trejeitos que hoje, a mudança na voz, o desenvolvimento da minha essência, tudo isso aconteceu meio que ao mesmo tempo, e eu não sabia como lidar com aquilo. Ora essa, eu tinha apenas quatorze anos, sem ter com quem contar, um ombro pra chorar, qualquer coisa! Ouvia piadinhas aqui, sorrisinhos maldosos ali, insinuações, jogavam meias palavras para os meus pais, que me passavam diversos sermões em casa, inclusive sobre eu ser homem e não mulher. Legal, não? E eu lá, pensamento positivo, uma hora vai. Mas não foi.

Eu aguentei puxões de tapete, muitas punhaladas nas costas, armações, mentiras, enfim e enfim, tudo isso sozinho, por um bom tempo. Eu queria ter saído antes, mas era menor de idade e, como meus pais faziam parte da mesma organização, não admitiam que eu saísse de vez, que era o meu desejo. Queriam que eu abandonasse o cargo, não o lugar.

Aí você pode perguntar: "Glauco, por que não largou o lugar assim que completou dezoito anos, já que sofria tanto?". A resposta é simples: Medo. Eu tinha conseguido, eu tinha me encaixado, afinal. Era convocado pra eventos, festas, reuniões importantes. Me davam tarefas difíceis e eu as executava, eu ia de um lado para o outro fazendo o que eu me imaginava fazendo no começo, quando eu era otimista o suficiente pra pensar que tudo seria um mar de rosas, afinal, era uma igreja, todos eram legais. Pelo menos deveriam ser!

Eu tinha feito vários amigos, pessoas que me abraçavam, que me marcavam em fotos, que me chamavam de amigo, diziam que gostavam de mim, que me chamavam pra churrascos, que iam na minha casa, algo que eu pensei que nunca iria acontecer. Isso me segurou, eu tinha medo de sair da igreja e perder todos aqueles amigos. O que seria de mim?, eu pensava. Não queria trocar as amizades, os cargos que eu tinha conquistado, pra voltar a ser o garoto de nove anos, solitário, desesperado pra se encaixar no mundo, simplesmente não queria, porque eu tinha medo de não conseguir e morrer sozinho.

Mas um dia a gente cansa, a gente simplesmente cansa. O medo de ser quem eu realmente era me cegou por muito tempo, até o dia em que eu disse "Chega!" e saí andando. O mundo não se resumia apenas àquela organização, e eu não estava mais a fim de me fazer de forte, de posar de hétero, de sorrir por obrigação, de viver com medo, de não poder fazer isso ou aquilo, pois eu poderia perder meus "amigos". Eu saí, eu resolvi ser quem eu realmente sou.

A zona de conforto, a famosa zona de conforto, deve ser ultrapassada. Carregar algo que te faz mal, por puro medo de se arriscar, é algo terrível. Por muito tempo eu vivi assim; por um longo, longo tempo eu ouvi "Vira homem!", ou "Se você desmunhecar mais uma vez...", ou então a melhor: "Que isso, não me chama de Glauco não, eu sou homem!".

Não vou mentir, demorou um tempo pra eu me ajustar, afinal, quinze anos não são quinze dias ou meses. Eu sabia que as coisas não iam mudar de uma hora pra outra, eu tinha que deixar a vida seguir seu curso, mas as coisas se ajeitam. Hoje eu tenho meus dois melhores amigos, sem os quais eu não me imagino vivendo sem, uma foi parar na Irlanda, ou outro mora no Rio; tenho três excelentes amigos que moram na cidade do lado e sempre que nos reunimos damos boas risadas; tenho um amigo que adoro de paixão e que quase não vejo, mas quando vejo nunca sai algo que preste; uma amiga que deixou de namorar um cara por minha causa, já que o cara era homofóbico; tenho um bom emprego, uma vida tranquila e novos planos a serem executados, que só de falar nesses planos, já me dá um frio na barriga.

A vida é assim, cheia de riscos, de momentos de adrenalina. Cabe a nós escolher se vamos arriscar, ou se vamos nos esconder atrás de um medo qualquer.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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