segunda-feira, 19 de outubro de 2015

#BarbaUmAno: O Esteriótipo do Cara Legal e os Tapas na Cara Que a Vida Vai Te Dar




Eu conheço o Silvestre Mendes há anos. Tanto é que, quando idealizei o Barba Feita, foi no Sil que pensei em primeiro lugar para ser um dos nossos colunistas. Entretanto, mesmo morando na mesma cidade, a gente não se vê com tanta frequência quanto poderíamos. Mas, sabem aquelas amizades que sabemos que vão continuar existindo não importa tempo e distância? Eu gosto de pensar na nossa amizade desse jeito. 

Nesse um ano de Barba, o Sil foi me surpreendendo a cada texto. Ele e eu tínhamos algo em comum: sempre escrevemos para a internet, mas textos que eram resenhas ou críticas de séries, livros ou filmes. Expressar nossas opiniões, sentimentos ou até mesmo amenidades em forma de textos que seriam lidos por uma grande audiência foi uma novidade para nós. 

Por isso hoje, quando eu tinha que escolher apenas um de seus textos para repostarmos, eu me peguei mergulhado em tudo que ele escreveu e fiquei na dúvida entre tantos! E acabei optando por um que nada mais é que uma reflexão causada por um livro que ele leu. Quer coisa mais Silvestre Mendes do que isso? Originalmente postado em 07 de maio de 2015, A Síndrome do Cara Legal é imperdível e, por isso mesmo, convido vocês a lerem, se ainda não o fizeram, e a relerem, caso já o tenham feito.

Com vocês, Silvestre Mendes, meus caros!
Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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A Síndrome do Cara Legal

Estou lendo Garota Exemplar e, antes que você se questione, não, não vi o filme ainda, e sim, sou do tipo que lê o livro primeiro e só depois assiste sua versão cinematográfica. Mas caso você não tenha assistido e nem saiba muito bem do que se trata, não precisa se preocupar querido leitor, vou explicar a trama da escritora Gillian Flynn rapidamente: a história começa com o misterioso sumiço de Amy Dunne e, aos poucos, pagina após pagina, vamos conhecendo Nick, marido de Amy, e como era a vida da Garota Exemplar. O enredo é narrado pelo ponto de vista do marido solitário e da esposa desaparecida, através de um diário. Assim, vamos construindo a visão da vida que aquele casal perfeito ou, um simples casal comum como tantos outros que existem por aí (que criam uma ilusão e, algumas vezes, acabam por morar dentro dela) viviam. 

Mas, não quero analisar o livro, não ainda, não é essa proposta. O que me chamou atenção foi outra coisa. Durante minha leitura, me deparei com uma das maiores verdades que já li na vida. Não é o tipo de coisa que você lê e se reconhece, mas o tipo de verdade que você se depara e sabe que domina a mentalidade de um monte de pessoas (incluindo a sua) e que na grande maioria das vezes, acaba não assumindo isso. Em certo momento do livro, Amy narra o que é ser, na visão dos homens, uma “Garota Legal” e aquilo me chocou muito. Primeiro, pelo fato de conseguir identificar todas as verdades narradas pela personagem. E depois, por perceber o quanto a imagem de “Garota(o) Legal” está no meu imaginário. Foi colocado ali em algum momento da minha vida e não tenho a total certeza de quem fez isso.

E foi pensando nessa questão que virei o espelho pra mim. E percebi com muita infelicidade o tipo de resposta que dou ao ser questionado sobre o que "procuro” quando estou em um site, aplicativo ou batendo papo em uma festa. Muitas vezes, e admito que na grande maioria delas, mecanicamente respondo: um cara legal

Mas o que diabos é um cara legal? Afinal, ser um cara legal é um elogio, certo? “Ele é um cara legal”, muitos já ouviram isso e tantos outros inflam o peito na espera de ouvir e se sentir o cara mais legal do mundo e se orgulhar disso. Só que ser um cara legal implica em ser muitas outras coisas. Basicamente, é como se fosse um título ou uma medalha de merecimento que até mesmo um cara normal, ao tentar se passar pelo cara legal, percebesse a grande responsabilidade que encontraria pela frente ao se apresentar como sendo um cara legal e tentasse fugir enquanto houvesse tempo. Enquanto ainda não era o cara legal, mas só um cara querendo ser aceito como “legal”. 

No meio gay, essa responsabilidade, de ser o cara legal, sofre vários desdobramentos Ao se anunciar como o cara legal, indiretamente já fica estabelecido inúmeras coisas. A primeira delas é que o “cara” em questão não precisa ser sarado, mas também não pode ser gordo. Tem que ser fisicamente ok ou aceitável. Quase que moldável ao gosto do freguês. O cara legal pode até assistir novelas e séries do momento, mas é imprescindível ser macho. Ele não é e, também, por sua vez, não curte afeminados. Gostar de um bom sexo é fundamental no pacote do cara legal, mas ele também não pode ter fetiche exótico demais e nem nada muito liberal. Afinal, você sabe como é que tudo funciona. O cara legal curte sexo, mas manja mesmo é de papai e papai e tudo de novo na cama ele só deve aprender com seu novo “rolo”. E uma das questões mais cruciais é saber se o cara legal já “andou” nas mãos de metade dos seus amigos. Não por moralismo, mas simplesmente porque um cara legal, acima de tudo, tem que ser uma descoberta só sua. Tudo bem o primeiro encontro vir através de um aplicativo ou sites do gênero, mas desde que ele, o cara legal, deixe claro que só está ali naquele ambiente de oferta e procura para achar outro... (Que rufem os tambores) Cara legal! Alguém desafortunado no amor e que, por um acaso do destino, tenha recorrido ao mesmo lugar em busca de... Um simples “Mr. Nice Guy”

Sabe o que é pior de tudo isso? Nós sabemos dessa completa ilusão e continuamos alimentando, aplicativo após aplicativo, e cada novo encontro que acaba não dando em nada ou só uma rapidinha. Temos a fantasia de encontrar um príncipe encantado. Normal, foi a Disney quem enfiou isso em nossas cabeças durante toda nossa infância. Só que o problema vai além, e começa quando queremos algo e criamos toda uma desculpa por trás disso. 

No fim das contas a mensagem subliminar que queremos passar é uma só: Um cara legal seria só aquele que te salvaria dos outros caras “não legais”, mas ele também não se tornaria o príncipe do cavalo branco que te traria a felicidade no fim da história. A simples missão do “cara legal” não é ficar com o mocinho, mas só prepará-lo para algo melhor que virá em seguida... Ou não.

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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