quinta-feira, 8 de outubro de 2015

#BarbaUmAno: Sobre Como Lembramos





Meu aniversário se aproxima e, talvez por esse fato, o aniversário do Barba seja tão especial. E aniversários mexem comigo. Histórias individuais, ou aquele momento em que as pessoas derrubam seu escudo pessoal e deixam a guarda aberta para falar. Jogar no mundo como se sentiram ou sentem por algumas questões na vida.

O texto Sobre Lembranças (e Grandes Expectativas) é uma junção sobre tudo isso. Sobre como vamos inventando o passado que não lembramos de fato, mesmo quando fomos testemunha, e vamos inserindo nossas visões de mundo conforme aquilo que desejamos e pensamos se completam em nossa mente.


Serginho, como sempre, deu uma grande aula pra gente.
Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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Sobre Lembranças (e Grandes Expectativas)

Cada idade tem os seus humores, os seus gostos e os seus prazeres, e, como a nossa pele, embranquece os nossos desejos.
(Mathurin Régnier)

26 de Junho. 15: 50. Terça-Feira. Alguns anos atrás.

Foi parto normal. Se todas as mães pensassem assim, hoje em dia não existiram tantas cesáreas desnecessárias. Como sofreu a mãe, o parto fora complicado e o menino foi direto para a incubadora, precisava respirar, havia quem achasse que nem conseguiria sobreviver. Sobreviveu, contudo, ganhou uma renite para o resto da vida. E amigdalites no mês de julho eram constantes, assim como as dores de cabeça no primeiro dia de aula. Mas nada que o tempo não curasse. 

O tempo, sempre o tempo, nunca foi seu amigo. E a escarlatina, afinal, quem já teve isso? Coitado, sofreu tanto, mas dor maior era não poder abraçar sua madrinha. Sua madrinha, seu amor, seu maior amor. Saudade, como o mês de julho podia ser tão ingrato!? Não há tempo que cure uma saudade, uma dor; a cicatriz ficou para sempre e a gente aprende a lidar com ela, a mesma cicatriz dos cortes ao longo da vida. E dos medos, e das apreensões. 


Gostava de ir ao colégio, gostava dos amigos, sempre ao redor de tantos adultos, a escola era divertida, gostava de ler, odiava matemática e para que serve a tal fórmula de bhaskara mesmo? Professores, os melhores amigos sempre; sempre gostou de professores, sempre foram seus amigos. A escola, os amigos da escola, crescer na mesma escola e, de repente, a voz muda. A descoberta do sexo na escola e se as paredes da escola falassem, será que elas sabiam que guardavam segredos?

Seu primeiro beijo? Um tanto desengonçado, mas gostoso. Aprendeu com o tempo. E veio a faculdade e o menino nunca se divertiu tanto.  Os melhores professores do mundo. E os colegas, e as conversas e festinhas com a turminha de sempre. Existem laços que nunca serão desfeitos. 


Existiram algumas pessoas, nenhuma importante de fato, homens que não sabiam se decidir entre uma coisa e outra. Até existir ele, sempre. Suas preces foram atendidas. Porque há um homem, o seu. E os amigos ao longo da vida, amigos que a matemática nunca soube explicar como surgiram. Nem a física. A química sabe. E ele nunca gostou de química. Amava as letras e como elas podiam formar as palavras e juntar as pessoas. Hoje são vários, mas são todos especiais e únicos em sua vida. 


Assim como os livros e o cinema. A sala escura, onde ele podia sonhar em ser o que quisesse. A sala do cinema São Luiz. E vem o sabor dos biscoitos, bolachas, bolos, churros, timidez e a volta à lembrança da infância que fora repleta de altos e baixos como a vida, risos e lágrimas, sucessos e frustrações, como a vida que se não for, não será vida.


Hoje é meu aniversário. Sou canceriano com ascendente em Sagitário e a lua em Touro. Sou possessivo, mas bem menos hoje do que antes. Sou gentil, bem mais hoje do que antes. Mas a única coisa que eu sei é que hoje é meu ano, meu ano novo, o começo de mais um ano. Feliz ano novo para mim.

E hoje eu agradeço por vocês existirem. Minha mãe, minha madrinha, minha tia, meu amor, meus amigos, meus desejos mais internos e externos de profunda gratidão e respeito. Porque eu vos amo. Muito.

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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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